Temporada brasileira de Amy Winehouse reabre debate sobre dependência química

O Globo
Complexa, única, genial. Desde o início da carreira já dava para perceber que Amy Winehouse não usava aquele cabelo à toa.

Em sete anos ela vendeu 40 milhões de discos, fez algumas trapalhadas, terminou e voltou algumas vezes com Blake Fielder-Civil, contrariou seu maior sucesso e foi, sim, para uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. Após dois anos sem fazer shows, ela veio recomeçar no Brasil e o público aplaudiu de pé. Mas, ao que tudo indica, a cantora ainda está longe da recuperação. Por quê?

– Mudar é difícil para todos nós. A diferença é que a droga perverte o sistema motivacional (formado por valores e princípios) a ponto de o dependente químico procurar o que o destrói. E o desejo é tão intenso que o dependente vai no impulso, sem pensar duas vezes – explica a psiquiatra Analice Giglioti, chefe do setor de Dependência Química da Santa Casa de Misericórdia do Rio e consultora da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas.

” Mudar é difícil para todos nós. A diferença é que a droga perverte o sistema motivacional (formado por valores e princípios) a ponto de o dependente químico procurar o que o destrói ”

Não é possível analisar a fundo o caso de Amy, mas, em sua passagem pelo Rio, ela foi flagrada tomando champanhe na piscina do hotel e, no primeiro show no Rio, virou uma garrafa de cerveja num gole só: um comportamento incompatível para quem quer se livrar das drogas.

– Por mais que isso seja assunto e parte do glamour de Amy, beber sete garrafas de Veuve Clicquot não é tratar de dependência química – condena.
Vício fez da cantora uma caricatura de si própria

O médico Ronaldo Laranjeira, professor titular de psiquiatria da Universidade de São Paulo (Unifesp), acredita que o meio onde a cantora circula não sinaliza para ela sua própria deterioração:

– Em uma sequência de fotos desde o início da carreira, dá para ver o quanto ela se deteriorou fisicamente, é quase uma caricatura de si mesma – lamenta. – Mas, se os amigos usam drogas e ela pertence a uma rede social que compartilha os mesmos valores, pode não se dar conta.

Diretor da Associação Americana de Psiquiatras, Jorge Jaber lista as quatro áreas alteradas pelo transtorno: raciocínio e memória (o doente muitas vezes não lembra de seguir o tratamento); sentimentos (a pessoa parece insensível, com dificuldade de ver os danos que causa e sem capacidade de estabelecer metas abstêmias a longo prazo); pensamento (que compromete a avaliação da realidade); e comportamento (responsável pela agressividade).

– Esse doente precisa estar em permanente contato com uma cultura de saúde, mas, com a arrogância gerada pela doença, ele tem dificuldade para aceitar o tratamento – explica. – Só que a dependência química é uma doença crônica como o diabetes: não tem cura, tem controle.

Segundo a médica Camila Magalhães Silveira, psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), algumas drogas têm mais poder de dependência que outras: uma em cada oito pessoas que experimenta álcool se torna dependente. Com o crack, associado à Amy (em 2008 o tablóide britânico “The Sun” exibiu um vídeo em que a cantora parecia estar fumando a droga), uma em cada duas ou três pessoas que experimenta fica viciada.

– A droga trabalha no circuito de recompensa do cérebro, então a experiência é lembrada como prazerosa – explica. – Como o efeito é muito forte e efêmero, os dependentes repetem o processo muitas vezes durante o uso e há um desgaste físico e mental muito grande, que tem como consequência irritabilidade e prejuízo de memória.
Lesões cerebrais podem ser permanentes

A pior notícia é que as lesões cerebrais causadas pelas drogas são permanentes e podem alterar as habilidades artísticas, como cantar. A médica cita o psiquiatra Sérgio Nicastri, do Hospital Israelita Albert Einstein, que, através do exame de ressonância magnética funcional, observou o fluxo sanguíneo cerebral em indivíduos que usam cocaína e crack. Danos neuroniais impediram que o sangue chegasse às partes afetadas pelas drogas.

– As lesões são menos importantes que o comportamento porque o cérebro pode compensar as perdas se houver abstinência – pondera Camila. – Mas o paciente tem que saber que o tratamento é constante.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)