Entrevista com Jaqueline Issa – Tabagismo

Jaqueline Issa, cardiologista do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas de São Paulo foi entrevistada pelo portal ActBR. Trabalhando desde 1993 com controle do tabagismo, ela criou um programa de tratamento baseado no uso de medicamentos e no acompanhamento médico para redução dos sintomas desconfortáveis provocados pela ausência do cigarro.

ACT: Como foi sua pesquisa sobre os níveis de monóxido de carbono nos bares e restaurantes de São Paulo?

Jaqueline Issa: A ideia era avaliar o impacto da lei antifumo e ter um marcador para comprovar que a lei estava sendo aplicada e qual mudança estava trazendo para o ambiente e para as pessoas. Pensamos no monóxido de carbono como marcador, já que em ambiente fechado seu nível é considerado pequeno e o que houvesse de monóxido seria devido ao cigarro. O maior poluente em ambiente fechado é a fumaça de cigarro. Foi uma proposta inovadora, pois esse estudo abordou tanto ambientes quanto as pessoas, e outros estudos ou faziam o ambiente ou a pessoa, nunca as duas. Também nunca houve uma pesquisa com tantos estabelecimentos, já que outros estudos faziam com 30, 40 locais. Iniciamos com 700 estabelecimentos e terminamos com 600. Também abordamos 600 funcionários, tanto fumantes quanto não fumantes.

ACT: E quais foram as conclusões desse estudo?

JI: A principal conclusão foi que houve uma redução expressiva do nível de monóxido de carbono em fumantes e não fumantes. O estudo também comprovou que o fumante tinha ainda o agravo de fumar e ser fumante passivo. Entre os funcionários que fumavam, verificamos que a redução do monóxido de carbono era por causa da lei mesmo, já que o ambiente agravava a condição da exposição.

ACT: Quais os problemas acarretados pela exposição ao monóxido de carbono?

JI: O monóxido de carbono impede a oxigenação do sangue. Ele se liga à hemácia com uma afinidade maior que o oxigênio e altera a substância sanguínea, que começa a produzir mais hemácias, fazendo o sangue ficar mais grosso. A alta taxa de monóxido de carbono provoca uma disfunção da parede do vaso, e isso acarreta doenças como derrame, trombose, infarto.

ACT: Na sua opinião, em que áreas o controle do tabaco precisa avançar e quais os desafios para 2011?

JI: Basicamente, precisa de uma política de aumento real do preço do cigarro, uma abrangência nacional da lei antifumo e melhor definição do que é ponto de venda. Sobre a lei federal, acho que um país não pode oferecer condição desigual aos brasileiros. Nos estados onde há lei antifumo, a população é beneficiada e protegida. Onde não tem, a população está sem proteção. Isso cria uma situação de desigualdade. Tem-se que fazer com que a lei de ambientes fechados 100% livres de fumo se torne federal.

Quanto ao preço do cigarro, todos sabemos que aumento de preço é uma política que leva a uma queda no consumo. Também precisa se definir melhor o que é ponto de venda, já que droga, quanto mais difícil o acesso, melhor. Como cigarro é uma droga legalizada, o que pode ser discutido são regras para venda do produto, que tem que estar regulamentado.

Também precisa se definir uma política de tratamento de tabagismo eficaz, que mensure sua eficácia de fato, ter os protocolos de tratamento e trazer uma discussão mais ampla do tema em vários níveis, no setor primário, de atendimento básico, tratamento para quem tem dependência mais forte, tem que ver o arsenal terapêutico, rever conceitos de assistência ao tratamento de tabagismo.

ACT: Você vem acompanhando as ações judiciais, que trazem um resultado negativo para a área de controle do tabaco. Parece que o Judiciário está sempre favorável à indústria do tabaco. Qual a sua visão desta área?

JI: Fiz um diagnóstico desse problema, e para mim isso é esquizofrenia, doença que significa uma ruptura entre a realidade onde se vive e a realidade de fato. Há uma dissociação completa entre a realidade e as teses que eles levantam. É uma dissociação entre a ciência e os argumentos jurídicos. Pontuei três coisas importantes que vêm acontecendo e que precisam ser mudadas no entender do Jurídico: culpar o fumante por fumar, quando o que existe é uma dependência; não evidenciar a dependência da nicotina e não evidenciar a influência do marketing. Isso tem que ser revisto.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)