Cresce o número de crianças dependentes de drogas

Diário do Nordeste
Embora haja poucos dados oficiais sobre o tema, profissionais reconhecem o aumento nos últimos anos.

Ao mesmo tempo em que Governo Federal e administrações estaduais e municipais anunciam a aplicação de recursos vultosos para conter o avanço do crack, o fácil acesso à droga permanece como um dos maiores desafios para a eficácia de medidas preventivas e repressivas. Um dos reflexos mais graves da situação é o número crescente de crianças em situação de dependência química na Capital.

Motivados pela necessidade de preencher um vazio que surge da ociosidade e da falta de perspectivas quanto ao futuro, muitos meninos encontram nos entorpecentes válvulas de escape que os arrastam para a criminalidade, em um processo que degrada sua saúde e os expõe a uma série de riscos. Para tornar-se dependente, não há idade mínima, sendo crianças de oito anos comumente encontradas por quem trabalha para recuperá-las.

Conforme o presidente do Conselho Estadual de Políticas Públicas sobre Drogas (Cepod), Herman Normando, o número de garotos de até 15 anos assistidos pelo poder público e por entidades filantrópicas é bastante inferior ao total de usuários dessa faixa etária que desejam largar o vício.

Embora haja poucos dados oficiais a respeito do tema, o presidente diz ser notável o aumento do número de crianças que fazem uso de drogas. O fato pode ser observado, afirma, através da procura crescente de familiares que vão até o Conselho em busca de auxílio. “Praticamente todo dia vem gente aqui querendo internação para os filhos”, comenta.

A situação se torna mais preocupante, destaca, por conta da falta de leitos onde os pequenos usuários possam ser abrigados por longos períodos e afastar-se do vício. Na Capital, a rede pública municipal de saúde não dispõe de equipamentos do gênero.

A administração do Município conta com dois Centros de Atenção Psicossocial Infantil (Capsis), os quais atendem a 45 crianças e adolescentes

Em situação de dependência química, concentrando sua atuação principalmente em atividades pedagógicas e acompanhamento psicológico.

Refúgio

Um dos poucos locais no Estado onde são acolhidas crianças em situação de dependência química, a Sociedade de Fé Esperança e Caridade abriga, em uma casa no município de Caucaia, 12 meninos de idade entre oito e 17 anos – parte deles de Fortaleza. Há cinco anos realizando o trabalho, a instituição, que sobrevive através de doações, já recebeu cerca de 100 garotos que lá encontraram refúgio contra o vício e a violência do tráfico.

Do relato de cada uma das crianças, que expõem seus sentimentos para os colegas em reuniões semanais, surgem histórias distintas, mas que tendem a preservar pontos em comum, marcados pelo envolvimento com o crime e pela degradação ou total ausência de um ambiente familiar.

Muitos dos garotos, afirma o presidente da Sociedade, Lázaro de Alencar, sentem-se desconfortáveis para falar do passado, já que isso os faz lembrar das drogas de que estiveram dependentes. Para afastar as recordações indesejadas, adotam uma rotina que envolve pequenos trabalhos manuais, momentos de lazer e de reflexão em grupo.

Uma das crianças dispostas a narrar experiências, Gabriel (nome fictício), 14, conta que começou a usar crack há cerca de um ano, motivado pelo ímpeto de experimentar alguma novidade. Por conta do acesso fácil à droga, recorda, passava quase todos os dias nas ruas, tendo abandonado a escola na sexta série. Gabriel só ficava sob algum teto à noite, quando ia dormir na casa da avó.

A saída encontrada para sustentar o vício foi praticar furtos, com a ajuda de um colega da mesma idade. Enquanto narra o passado, Gabriel move a cabeça para os lados, em sinal de negação, como se reprovasse o próprio pretérito. O garoto conta que só começou a se desligar das drogas quando foi encontrado por membros de uma igreja, que o motivaram a esquecer o vício. Hoje, diz arrepender-se do tempo destinado à vida nas ruas.

Quando sair da Sociedade, afirma, pretende ir morar com a família em Itapajé, no interior do Estado, e voltar a estudar. Quanto ao antigo companheiro de rua, Gabriel diz que não teve mais notícias colega. “Quem fica nessa vida (consumindo crack) ou acaba morrendo, ou acaba fazendo alguma besteira”, comenta.

Apesar de coordenar a entidade há cinco anos, Lázaro afirma ainda se sensibilizar com os relatos das crianças. Entre alguns dos que mais lhe abalaram, cita o de uma garota de 15 anos que passou 14 dias sendo abusada por clientes de um traficante e o de um menino de 12 anos, cuja mãe, também usuária, vendeu todas as roupas do filho para sustentar o próprio vício.

Durante a visita da equipe de reportagem ao local, um dos meninos atendidos chorava no gramado que cobre o quintal da casa, atraindo a atenção de colegas que tentavam consolá-lo. O motivo da tristeza, revelou uma das crianças, foi a ausência dos pais do garoto naquela tarde, que era um dia de visita. “O apoio da família é fundamental. Eles não podem ficar aqui sentindo que foram simplesmente abandonados”, destaca Lázaro.

Consequências

De acordo com o professor e médico psiquiatra Jackson Sampaio, as crianças, por terem o corpo ainda em estágio de desenvolvimento, são mais suscetíveis aos efeitos de entorpecentes como o crack. “Tanto que quando você vai dar algum medicamento a uma delas, você fraciona doses”, ilustra. Além disso, aponta, elas não possuem um padrão ou modelo psicológico definido sobre a vida adulta, tornando os efeitos mais devastadores.

Segundo Herman Normando, as consequências não se restringem a danos fisiológicos, já que a saúde fragilizada e o estado precário em que vivem os meninos os tornam alvos fáceis de acidentes e da ação de traficantes. A falta de pesquisas e dados sobre o tema, acrescenta, é mais um obstáculo para a implantação de ações preventivas.

Atendimento

45 meninos em situação de dependência química são pacientes “ativos” dos Capsis na Capital. Para especialistas, cresce demanda por auxílio.

NOS CAPSIS

Profissionais lidam com baixa adesão

Embora continue se expandindo o número de meninos que precisam de tratamento contra dependência química, é baixa a adesão aos projetos e atividades oferecidos pelo Município. Desde que foi criado, em 2006, o primeiro Capsi, que abrange as regionais II, IV e VI, cerca de 200 crianças já passaram pelo núcleo de ajuda a dependentes químicos. Muitos, porém, realizaram pouco mais do que o registro de sua passagem no local.

Conforme a coordenadora do centro de assistência, Daniele Zaparoli, uma das principais dificuldades dos profissionais que trabalham na área é conseguir superar a atração que as drogas e a sensação de liberdade proporcionada pelas ruas exercem sobre as crianças. “Nessa idade, elas estão ainda deslumbradas, achando que podem tudo, que nada vai acontecer a elas”, aponta Daniele.

A situação se agrava, afirma, quando os garotos convivem em ambientes familiares desestruturados, especialmente naqueles em que os pais também são usuários de drogas. Embora haja apenas 30 crianças “ativas”, ou seja, visitando frequentemente o Capsi para tratar-se, Daniele reconhece o crescimento do número de garotos que carecem desse tipo de auxílio, nos últimos anos, na Capital.

Segundo o professor Jackson Sampaio, as dificuldades em tratar dos pacientes e a disparidade entre a demanda por ajuda e o número de crianças efetivamente assistidas tornam o processo de recuperação uma ação, na prática, pouco eficaz.

Para ilustrar a situação, o professor cita o mito grego de Sísifo. Conforme a mitologia, o personagem foi condenado pelos deuses a empurrar uma pedra gigantesca até o topo de uma montanha. Logo que finalizado o serviço, que lhe exigia demasiado empenho, Sísifo assistia à rocha rolar de volta ao pé da montanha, sendo necessário iniciar o trabalho novamente. Como a pedra retornava ao solo sempre que se alcançava o topo, a atividade era realizada continuamente, sem que fosse obtido qualquer resultado.

A frustração por que passa o personagem ao contemplar a pedra rolando até o solo é partilhada por aqueles que atuam no atendimento a essas crianças. Segundo Daniele, há casos nos quais os profissionais tratam de pacientes em determinado dia para, na manhã seguinte, tomarem conhecimento de que a criança participou de algum crime ou mesmo foi assassinada.

“É complicada essa questão. Tanto que nós que trabalhamos com isso fazemos terapia para aguentar a pressão”, frisa.

Para Jackson, a solução para interromper o suplício de Sísifo reside principalmente em um processo de educação da população no que se refere à saúde e à cidadania. Com isso, medidas preventivas poderão se tornar mais eficazes, reduzindo a necessidade de remediar.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)