Programas para ajudar dependentes químicos criam demanda de profissionais

Correio Braziliense
Salários para quem tem especialização chegam a R$ 15 mil.

O uso de entorpecentes é uma das mazelas que mais preocupam as autoridades e a sociedade brasileiras. Segundo dados do Relatório Mundial sobre Drogas 2010, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), estima-se que 900 mil pessoas no país sejam usuárias de cocaína e 650 mil de opiáceos (derivados do ópio). O censo dos viciados em crack não foi contemplado no estudo, mas é certo que a substância ilícita mais devastadora do Brasil já destruiu milhares de famílias.

Os números preocupam os governos estaduais e o federal, que começaram a traçar políticas para a redução de dependentes e, consequentemente, para o tratamento deles — uma delas é a criação do Plano de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, do Ministério da Saúde e de parceiros. Isso exigirá, a partir deste ano, que psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, clínicos gerais, assistentes sociais e outros profissionais de áreas afins invistam em especializações voltadas para a atuação em projetos de diminuição do consumo de entorpecentes.

Os administradores de clínicas particulares reclamam da dificuldade de encontrar candidatos capacitados para as vagas abertas, e o serviço público já expandiu os investimentos para criar mais espaços destinados ao tratamento de narcodependentes. Só de 2002 até o ano passado, o aumento de recursos foi de 142%. O leque de especialidades nessa área é amplo, já que os procedimentos terapêuticos exigem uma abordagem integrada para que a recuperação e a ressocialização se tornem possíveis.

A formação e o interesse em atuar nesse tipo de atendimento é garantia de emprego certo, segundo José Norberto Fiúza, diretor da unidade ambulatorial do Grupo Viva no Distrito Federal — a instituição oferece tratamento a dependentes de drogas e álcool em diversas cidades do país. “Não há profissionais com a capacitação exigida para trabalhar em clínicas de recuperação. Sempre procuramos gente para aumentar nossos quadros e encontramos pessoas despreparadas”, diz o especialista em dependência química, formado pela Universidade de Berlim, na Alemanha.

Segundo Fiúza, as pós-graduações nessa área ainda estão concentradas em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, mas os cursos de capacitação complementares podem ser encontrados com mais facilidade, inclusive na capital federal. Há ofertas nas próprias clínicas contratantes e por meio da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), que desenvolve projetos de qualificação desde 2003. O interessado pode optar pela modalidade presencial ou a distância. Todos são certificados por universidades brasileiras, parceiras da Senad.

Perfil apropriado
Os salários para quem se interessa em atuar no tratamento de narcodependentes são atrativos. Podem variar de R$ 2 mil a R$ 3 mil por 20 horas de trabalho para os que têm apenas a graduação e chegar a R$ 15 mil para quem investe em uma pós-graduação em dependência química. É o caso da cubana Bárbara Frejomil Fernandes , 61 anos. Formada em psiquiatria e com especialização na área de dependência química, além de ter feito diversos cursos no setor, ela afirma que assim que chegou ao Brasil conseguiu emprego. “Isso foi há 10 anos, e a situação já era grave. Aprendi muito aqui. Hoje, trabalho na Mansão Vida e tenho a minha própria clínica”, conta.

Para ela, o trabalho que presta visa reduzir um dos maiores flagelos da sociedade: a droga. Ela se apaixonou pelo cuidado com os usuários desde a faculdade, em Cuba. Foi lá, com as aulas práticas, que fez uma descoberta: para cuidar de dependentes químicos, não basta ter qualificação, é preciso ter perfil. “Decidi nunca mais desligar meu celular quando estava em uma viagem de férias e uma mãe desesperada me ligou dizendo que a filha havia tido uma recaída e que ela não sabia o que fazer. Mesmo sem estar presente, consegui acalmá-la e orientá-la naquele momento de angústia”, relembra Bárbara.

A dedicação integral é uma das características imprescindível para esses profissionais. Além disso, é necessário ter preparo psicológico e treinamento específico para não entrar no “jogo” dos pacientes. “Eles fazem drama, tentam nos convencer. É preciso ser forte”, relata José Norberto Fiúza. Saber lidar com a frustração constante e com o preconceito também são requisitos para quem escolhe essa carreira. “O tratamento pode dar certo ou não. O médico ou especialista precisa estar preparado para isso. Ele não pode chegar cheio de opiniões formadas, sem aceitar isso ou aquilo. Nessa área, é cada dia uma história diferente”, ressalta Fiúza.

Legislação a favor
Conheça alguns projetos de lei que estão em tramitação e que podem beneficiar o mercado de trabalho do segmento

PL nº 4981/09
Prescreve medidas para a prevenção do uso indevido, a atenção e a reinserção social de dependentes de drogas e estabelece normas para repressão à produção e ao tráfico de drogas

PL nº 5857/09
Autoriza o Poder Executivo Federal, em articulação com os municípios, a criar clínicas públicas para dependentes químicos de álcool e de drogas

PL nº 6073/09
Cria o Registro Nacional de Dependentes de Drogas Ilícitas (Renadi) e, entre outras coisas, fixa o tratamento especializado compulsório para quem adquire drogas para consumo pessoal, podendo o juiz declarar o agente temporariamente incapaz para cumprimento da medida judicial

PL nº 6644/09
Esclarece sobre a obrigação de o Sistema Único de Saúde dispor de unidades especializadas no tratamento, na prevenção, na pesquisa e no combate à dependência química

PL nº 6684/09, do Senado Federal
Suspende as exigências mínimas para o funcionamento de serviços de atenção a pessoas com transtornos decorrentes do uso de drogas, nas localidades com mais de 100 mil habitantes, até que sejam instalados serviços próprios
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)