O governo do Uruguai assegura que 115 mil pessoas deixaram de fumar no país, entre 2006 e 2009

O governo do Uruguai assegura que 115 mil pessoas deixaram de fumar no país, entre 2006 e 2009, os três primeiros anos de vigência das medidas de combate ao cigarro. Uma ex-fumante que ainda nem entrou nos cálculos é Ana Martínez, babá e diarista, que se orgulha de estar há três meses sem tocar em cigarro – após 41 anos de vício.

Ana observa as pequenas mudanças com a nova vida. “Quando lavo o cabelo, agora sinto o cheiro do xampu, não o da nicotina”, diz a uruguaia de 55 anos, que faz acompanhamento de sua situação na rede pública de saúde. Ela fumou durante as duas vezes em que esteve grávida e não abandonou o cigarro nem enquanto tratou um tumor no ovário. Assegura que, se soubesse como é bom, teria parado antes. Engordou sete quilos em 90 dias. “É por culpa da ansiedade, mas também porque recuperei o paladar.”

A última pesquisa disponível no país foi feita no quarto trimestre de 2009, medindo os efeitos de três anos e meio de políticas contra o cigarro. Em 2004, o Congresso do Uruguai foi o primeiro da América do Sul a ratificar a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, mas as principais medidas só foram aplicadas em março de 2006. O tratado foi assinado por 168 nações e, no Brasil, foi aprovado pelos parlamentares em 2005.

Ao contrário da maioria dos países, o Uruguai preferiu comprar briga uma única vez, e não adotar novas regras a conta-gotas. “Sempre se soube que essa é a forma mais eficiente de combater o cigarro, mas cada país avança até onde pode. A nossa diferença é que aqui houve vontade política”, diz Ana Lorenzo, diretora-adjunta do programa antitabaco do governo.

Em 2009, os fumantes (diários ou eventuais) representavam 25% da população com mais de 15 anos. Três anos antes, essa proporção era de 31,8%. É uma média ligeiramente inferior à dos demais sul-americanos e abaixo de todos os europeus.

Embora faça elogios ao programa governamental, o economista uruguaio Alejandro Ramos relativiza as conquistas alcançadas. Ele diz que o aumento de preço levou muitos fumantes a migrar para a compra de tabaco solto para enrolar, uma prática pouco comum no Brasil, mas difundida na Europa. Um pacote de 45 gramas de tabaco permite enrolar cerca de 60 cigarros, o mesmo que três maços. De 13%, há dez anos, esse tipo de fumo representa 30% das vendas no país.

“Se somamos as duas coisas (maços e tabaco para enrolar), não houve redução das vendas”, afirma Ramos, consultor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Não chega a ser um dado a lamentar, conforme ele explica. Estudos indicam que cada 10% de crescimento do PIB é acompanhado por um aumento igual do consumo total de tabaco. E, para cada 10% de alta dos preços, o consumo cai 5%.

Descontando a inflação da última década, os preços do cigarro subiram 40% no Uruguai. Mas o país passou por oito anos seguidos de expansão econômica acima da média histórica e a renda da população disparou. Moral da história: “Os números não são ruins, mas não se combate um vício de um dia para outro. As políticas de controle do tabaco são de longo prazo”, diz o economista. Para Ramos, é preciso atuar, agora, em duas frentes: elevar os impostos sobre o tabaco de enrolar e ter uma política mais eficaz de combate ao contrabando, que pode beneficiar-se do aumento de preços.
Autor:
OBID Fonte: Valor Econômico