O começo e o fim

Folha de São Paulo – Ruy Castro
Rio de Janeiro – Finalmente alguém acusou a fenda no que parecia um muro de certezas. Um médico italiano, o doutor Maurizio Ponz de Leon, ousou contestar a tese, tão popular entre seus colegas, de que o consumo “moderado” de álcool protege contra enfartes e derrames, e que as pessoas que “bebem pouco” devem ser estimuladas a usar o produto como remédio.

Para Ponz de Leon, há vários problemas nessa argumentação: as pessoas têm conceitos variados de moderação -o que é moderado para alguns pode ser insuficiente para outros; o álcool é causa frequente de acidentes de trânsito; e seus propalados benefícios para a saúde ainda não estão provados.

Como inevitável, as objeções do médico italiano estão sendo contestadas pelos partidários de que uma ou duas taças diárias de vinho tinto fazem bem às coronárias, controlam o colesterol, previnem a diabetes e reduzem a hipertensão. Eles citam os franceses (que “bebem pouco, todos os dias”) como beneficiados por essa dieta -esquecendo-se de que a França tem um dos maiores índices mundiais de alcoolismo e de doenças a ele associadas, envolvendo fígado, cérebro, boca, laringe, coração, estômago, intestinos e pâncreas.

A tese de Ponz de Leon não é novidade para os profissionais das clínicas de recuperação de dependentes de álcool. O dia-a-dia desses terapeutas e também médicos compõe-se de pessoas para quem a ideia de se limitar a “uma ou duas taças diárias de vinho tinto” é aterrorizante diante dos dois ou mais litros de destilado por dia que consumiam antes de ser internados.

Todos os alcoólatras na ativa começaram, um dia, por uma ou duas taças de vinho, um ou dois chopes, um ou dois conhaques, até descobrir que sua tolerância ao álcool era maior do que pensavam e passar a agir de acordo. Estimular as pessoas a beber deveria ser privilégio dos publicitários.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas