Fumo chega a 13% dos idosos, que sofrem para largar cigarro

R7
Estudo mostra que prevalência é maior entre os homens do que entre mulheres.

O aposentado Lacy Barcellos tem 74 anos de vida e 64 de cigarro. Ele começou a fumar aos dez anos de idade.

– Por incrível que pareça, nunca me faltou um maço de cigarros no bolso.

Assim como Barcellos, Maria Tereza Oliveira Silva, de 62 anos, tem a companhia do cigarro há várias décadas. Ela começou a fumar aos 16.

– Antigamente era chique fumar.

Maria Tereza e Barcellos são o retrato de um grupo que convive com o hábito há muitas décadas: eles viveram um período de glamourização do cigarro, quando não havia campanhas antitabagismo, e, atualmente, são mais resistentes a parar de fumar.

O hábito dos idosos fumantes e as tentativas de largar o vício foram pesquisados por cientistas brasileiros, que fizeram uma revisão de 48 estudos sobre o tabagismo em várias partes do mundo. Eles descobriram que 13,5% dos idosos têm o hábito de fumar.

O estudo foi feito por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). O número total de idosos avaliados foi de 140.058, de países como Brasil, Espanha, Portugal, Inglaterra, Rússia, Estados, Índia, Hong Kong, Japão e China.

O levantamento mostrou também que a prevalência de tabagismo em idosos é maior entre os homens (22,5%) do que entre as mulheres (8,7%).

Ainda que os pesquisadores tenham destacado que “as conclusões não representam um padrão mundial”, um dos autores do estudo, Sergio Luís Blay, do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, afirma que o resultado mostra “taxas relativamente altas” do fumo em idosos.

A explicação para isso, segundo Blay e outros especialistas consultados pelo R7, é que as pessoas mais velhas viveram o período em que o cigarro era bastante glamourizado e o hábito era até incentivado.

Em sua terceira tentativa de parar, Maria Tereza diminuiu o consumo para um maço por dia – antes chegava a fumar um maço e meio. Ela conta que a imagem atual do cigarro é muito diferente da antiga.

– Hoje há vários lugares onde fumar é proibido. Mesmo que saia ali fora, você fica com vergonha de fumar.

Resistência

Pelo fato de já serem fumantes há muitas décadas e por terem vivido esse período de valorização do cigarro, os idosos costumam ser mais resistentes na hora de parar de fumar.

De acordo com a coordenadora do município de São Paulo do Programa Nacional de Controle do Tabaco, Darlene Dias da Silva Pinto, muitos desses pacientes acreditam que não conseguem mais abandonar o vício.

– Esse paciente já está resignado, não quer se estressar. Muitos deles pensam assim: “Cheguei até aqui fumando e estou vivo. Por que vou parar agora?”.

Segundo Sabrina Presman, coordenadora dos Programas de Controle do Tabagismo da cidade do Rio, os idosos afirmam que não vale a pena parar de fumar em uma idade avançada porque imaginam que largar o vício não faz diferença para a saúde.

– Mas um dia a menos de cigarro já é suficiente para trazer benefícios.

É por esse motivo que Barcellos está tentando, pela quarta vez, largar o vício. Por causa dos “14 a 16” cigarros por dia, ele fica cansado quando faz algum esforço.

– Uma carrerinha (corridinha) de cem metros já acelera minha respiração. Pra viver mais uns 15 anos, preciso parar de fumar.

Pare de fumar

Não importa a idade: largar o cigarro traz benefícios imediatos, ainda mais para quem fuma há muito tempo.

Ao parar de fumar nessa idade, a pessoa consegue diminuir os sintomas clínicos do tabagismo, como a tosse, a expectoração e a falta de ar, segundo o pneumologista Walter Fuentes, do Hospital Leforte, em São Paulo.

– Clinicamente ele se sente melhor. Sua qualidade de vida melhora. O paladar também melhora e ele acaba comendo mais porque sente mais o sabor da comida.

Outras doenças crônicas também ficam mais fáceis de ser controladas, de acordo com o pneumologista Sérgio Ricardo Santos, presidente da comissão de tabagismo da SPPT (Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia).

– Se a pessoa tem pressão alta e o único fator de risco é o tabagismo, ao parar de fumar ela consegue estabilizar a pressão arterial.

No entanto, os problemas crônicos diretamente relacionados ao tabagismo dificilmente serão revertidos. Essas doenças são a bronquite crônica e o enfisema pulmonar, causadas pela inflamação das vias aéreas, além do câncer no pulmão, na boca e na laringe.

Para que os benefícios e as chances de controlar essas doenças sejam maiores, é importante parar de fumar o quanto antes, dizem os especialistas. Isso porque o hábito de fumar é ainda mais preocupante em idosos.

Santos afirma que existem duas razões principais para isso: primeiro porque o idoso passou mais tempo exposto aos efeitos do cigarro. Segundo porque o organismo dele já está mais fragilizado às complicações do tabagismo.

– O idoso é mais vulnerável aos malefícios trazidos pelo cigarro do que o adulto jovem.

O cigarro também pode causar alguns problemas digestivos, como gastrite.

Diante desse cenário, a primeira dica é procurar uma unidade de saúde que auxilie no tratamento do tabagismo. Segundo Santos, “hoje existe muitos medicamentos e estratégias que faz o indivíduo parar de fumar sem grande sofrimento”.

Barcellos já marcou a data em que vai se livrar do cigarro. Isso vai ocorrer quando voltar de uma viagem ao interior de São Paulo, dentro de 15 dias.

– O problema de deixar é a irritação e ansiedade. Mas com alguém te ajudando fica mais fácil parar de fumar.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)