Brasil usa em excesso emagrecedores

Oito entre dez pessoas no mundo padecem de dores sem necessidade, não por falta de matéria-prima para medicamentos. O problema está na má distribuição dos analgésicos. Cerca de 90% dessas substâncias lícitas são consumidas por 10% da população mundial, ou seja, nos EUA, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e parte da Europa, segundo relatório anual divulgado ontem pela Junta Inter­­nacional de Fiscalização de Entor­­pecentes (Jife), órgão independente destinado a implementar as convenções internacionais das Nações Unidas de controle de drogas. O Brasil tem uma modesta par­ticipação no mercado de analgésicos, mas desponta no ranking mundial pelo abuso de anorexígenos.

A julgar pela frieza das estatísticas, o brasileiro está mais preocupado em emagrecer do que reduzir suas dores físicas. Em média, o Brasil consome pouco mais de 200 doses diárias de analgésicos a cada grupo de 1 milhão de habitantes, ao passo que nos Estados Unidos a quantia chega a 40 mil. Em contrapartida, o Brasil está em terceiro no ranking mundial em uso de anorexígenos, com seis doses diárias a cada mil habitantes, atrás dos EUA, com 11, e da Argentina, com nove. Essa quantia se refere a “doses diárias definidas com fins estatísticos” (S-DDD), que representa uma unidade técnica de medida usada para efeito de análises estatísticas.

Uso de morfina cresce sete vezes

Entre 1989 e 2009, aumentou o consumo mundial de analgésicos usados para o tratamento de dores moderadas e intensas. O uso de morfina se multiplicou por sete, enquanto o de determinados opioides sujeitos a fiscalização internacional, como o fentanil, se multiplicou por 100. A oxicodona foi multiplicada por 26. Estados Unidos e Canadá registraram os níveis mais altos de consumo de analgésicos do mundo, com 40 mil doses diárias por 1 milhão de habitantes e 20 mil, respectivamente.

Em contrapartida, em muitos países da África, da Ásia e algumas partes da América o acesso a entorpecentes e a substâncias psicotrópicas para fins terapêuticos é escasso ou nulo. De acordo com a Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), existe matéria-prima suficiente para atender as necessidades por analgésicos opioides de todos, mas vários fatores impedem o acesso a esses medicamentos. Apesar de o preço ser um dos principais obstáculos, há preparados de baixo custo distribuídos eficazmente em vários países. Para a Jife, isso prova que as barreiras econômicas podem ser superadas.

Entre os obstáculos à oferta de medicamentos, a Jife aponta a formação precária de profissionais da saúde, a falta de regulamentação, as dificuldades de distribuição e a ausência de uma política de saúde integral que inclua o tratamento da dor. Sistemas de fiscalização de drogas poderiam ajudar a assegurar o abastecimento suficiente de entorpecentes e, ao mesmo tempo, evitar o uso inapropriado e abusivo.

Já a produção e o comércio mundial de ansiolíticos e sedativos do tipo benzodiazepina se estabilizaram depois de 20 anos em franca expansão. A taxa atual é de 20 a 30 bilhões de doses diárias de ansiolíticos e de 5 a 9 bilhões de sedativos. (MK)

Anorexígeno é um psicotrópico usado para emagrecer, induzindo a anorexia, causando a falta de apetite e aversão ao alimento. Os mais usados são a fentermina, femproporex, anfepramona e mazindol. Segundo a Jife, entre 2006 e 2009, o Brasil conseguiu reduzir o consumo per capita desses estimulantes em dois terços aplicando apenas os requisitos de formulação de receitas e tomando medidas contra profissionais da área médica que agiam de forma antiética. A indústria registra queda na demanda desses estimulantes. A fabricação mundial em 2009 caiu em 25% na comparação com anos anteriores devido, sobretudo, à queda da fabricação de femproporex no Brasil.
Autor:
OBID Fonte: GAZETA DO POVO-PR