Uso de drogas é a maior causa da violência contra mulher no Piauí

Cidade Verde
Em 2010, 16 mulheres foram estupradas e 368 sofreram violência doméstica.

O Dia Internacional da Mulher deixou de ser uma data de comemoração da emancipação feminina. A cada ano crescem os registros de crimes contra a mulher nas delegacias especializadas do Piauí. O motivo: a tal da emancipação feminina ainda não é aceita por uma parcela de homens que usam a força e o crime para tentar a dominação.

Somente no ano passado, as delegacias especializadas em crimes contra a mulher em Teresina registraram 16 estupros, 1.156 ameaças, 838 casos de injúria, 461 lesões corporais e 368 casos de violência doméstica.

Existem casos tão graves que as mulheres precisaram mudar de estado, carregando os filhos e a desilusão de ter escolhido para marido o causador de uma desgraça em família.

A Casa Abrigo Mulher Viva, mantida pela Secretaria Estadual de Assistência Social e Cidadania, abriga os casos mais graves encaminhados pelas Delegacias da Mulher. A psicóloga Ana Valéria Lopes explica que a entidade funciona em uma casa, cujo endereço é mantido sob sigilo absoluto.

Atualmente três mulheres moram lá com seus filhos, sob os cuidados de uma equipe multidisciplinar que se esforça para ajudá-las a superar o trauma da violência. Muitas delas chegam em pânico e fisicamente debilitadas.

“Elas chegam na casa com uma mistura muito grande de sentimentos. É o medo do futuro, a culpa por ter se submetido à violência por muito tempo. Elas perdem a própria identidade e a relação com os filhos quando submetidas a um certo tempo à essa violência”, explica a psicóloga.

O perfil dessas famílias varia entre aqueles que sobrevivem com o Bolsa Família até a classe média alta. Porém, uma coisa está se tornando comum: a maioria dos homens acusados de crimes contra a mulher é usuário de drogas. É o que a equipe da Casa Abrigo vem observando.

Segundo Ana Valéria, a maioria das vítimas são mulheres jovens, já com vários filhos e assistidas pelos programas assistenciais do governo. “Eles ameaçam essas mulheres para que elas dêem o dinheiro do Bolsa Família para que eles possam comprar drogas. Se elas não dão acabam apanhando”, relata.

Elas, a maioria das vezes, desenvolvem um sentimento maternal com os maridos viciados e imaginam que permanecendo com eles, cuidando, dando atenção, eles poderão se livrar do vício.

Mulheres de classe econômica mais baixa também enfrentam o problema da violência patrimonial. Quando elas denunciam e vão para a casa de parentes eles acabam vendendo a casa onde viviam e até tomam os documentos delas.

“Nós tivemos o caso de uma mulher que sofreu todos os tipos de violência que você pode imaginar e fez a denúncia. O marido era traficante. Nossa parceria com a Defensoria Pública permitiu que entrássemos com ação para impedir que ele vendesse a casa, mas o imóvel era irregular, em área de risco e ele acabou vendendo. Ela ficou sem ter para onde ir e agora estamos tentando inserí-la em um projeto da ADH. As mulheres precisam ficar atentas porque a Lei Maria da Penha garante que nenhum bem pode ser vendido nesses casos”, ressalta Ana Valéria.

A jovem mãe que fugiu do Estado

A Casa Abrigo acompanhou o caso que envolvia uma família da classe média em Teresina. A esposa, uma jovem estudante de Direito de uma faculdade particular de Teresina, mãe de dois filhos, era casada com um corretor de imóveis, que tinha várias amantes. Mesmo tendo dinheiro, bom emprego e carro do ano, obrigava os filhos a estudarem em escola pública. Ela teve que fugir levando os filhos para outro estado.

Temendo ser denunciado pela Lei Maria da Penha, ele agredia os filhos ao invés da mulher, quando ela não aceitava transar com ele. “Ele ia lá, acordava as crianças e espancava até que ela cedesse”, relata a psicóloga.

A jovem fez a denúncia, mas, usando de influência, o marido conseguiu fazer o processo parar de tramitar. Também usando de sua influência, ele abriu um processo contra ela acusando-a de injúria, fazendo com que as pessoas acreditassem que ele era a vítima.

A jovem foi encaminhada para a Casa Abrigo e o marido passou a ameaçar a coordenadora da casa. “Após ter cometido todo tipo de violência contra essa mulher e os filhos, ele a difamou, ameaçou nossa coordenadora e continua solto, talvez cometendo os mesmos crimes contra outras mulheres”, lamenta Ana Valéria.

Para a delegada Vilma Alves, titular da Delegacia da Mulher Centro, esses casos de pessoas influentes são os piores. “Esses homens pensam que porque são influentes e possuem dinheiro podem tomar a vida dessas mulheres como quiserem. Nós estamos aqui para provar que não é assim. Esses são os que mais dá vontade de colocar atrás das grades”, comentou a delegada.

Delegacias Especializadas da Mulher em Teresina

Norte : Rua Bom Jesus, S/N, Buenos Aires
Fone (086) 3225-4597

Centro: Rua Paissandu, 2058, Centro
Fone (086) 3222-2323

Sudeste: Dirceu Arcoverde, atrás do 8º DP
Fone (086) 3216-1572

Delegacia Especializada da Infância e Juventude

Rua Dr. Oto Tito, S/N, Redenção
Fone (086) 3216-2676
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)