Uma luta que podemos vencer

Jornal de Barretos
O VI Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre estudantes das capitais brasileiras trouxe um dado que pode ser considerado positivo: houve queda entre 2004 e 2010, do número de estudantes que consumiram bebidas alcoólicas, bem como daqueles que apontaram o uso de drogas ilícitas, segundo seus próprios relatos.

Apesar da queda, os dados da pesquisa revelam que o consumo de bebidas alcoólicas pelos jovens continua alto.

Dos 13 milhões de adolescentes que habitam as capitais brasileiras e o Distrito Federal, mais de 60% já experimentaram bebida alcoólica e boa parte – 42% – continuam fazendo uso do álcool.

Esses números preocupantes justificam a decisão da OAB SP de lançar a Campanha Contra o Uso Abusivo de Álcool pelos Jovens, com o objetivo de fazer um alerta à sociedade quanto a gravidade deste assunto, gerando mobilização e medidas preventivas.

O consumo abusivo de álcool entre os jovens está associado à morte violenta, especialmente no trânsito, queda no desempenho escolar, dificuldades de aprendizado, prejuízo no desenvolvimento e estruturação das habilidades cognitivo-comportamentais e emocionais , bem como pode causar modificações neuroquímicas, com prejuízos à memória e ao aprendizado, sem falar que em muitos casos é a porta de entrada para o consumo de drogas ilícitas.

O papel dos pais nessa luta é importantíssimo porque a questão da bebida alcoólica entre jovens tem começado, frequentemente, em casa e pela ausência de limites.

Nas festas familiares vem se tornando comum no Brasil os pais tolerarem que seus filhos adolescentes experimentem uma “cervejinha” ou algum destilado; porquanto se tornou praxe em nossa cultura que todas as comemorações sejam sinônimos do uso de muita bebida alcoólica.

Igualmente nos restaurantes, nas confraternizações familiares, os próprios pais pedem bebida alcoólica para os filhos adolescentes.

Esses gestos descompromissados dos pais muitas vezes levam os filhos a entenderem que há uma tolerância , senão uma permissão expressa ao uso de bebida alcoólica porque se está entrando na vida adulta.

Da mesma forma é fundamental exigir maior rigor das autoridades na fiscalização de estabelecimentos que comercializam bebidas alcoólicas para que não haja venda para menores de 18 anos, como constatamos, principalmente em supermercados 24 horas e em bares da periferia, onde até crianças compram bebidas.

O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê pena de detenção de seis meses a dois anos e multa para aqueles que venderem, fornecerem, ministrarem ou entregarem bebidas alcoólicas a menores. Mas é a vigilância da sociedade que fará toda a diferença.

Campanhas de conscientização tem o condão de trazer o assunto para a discussão e chamar atenção para a gravidade de fatos que passam despercebidos no dia-a-dias das pessoas, especialmente das famílias e dos educadores; possibilitando uma reação e adoção de medidas preventivas , que cheguem antes do sofrimento e da angústia para milhares de famílias que vêem o uso excessivo de álcool destruindo a vida de seus filhos.

Nesse processo educativo de conscientizar os jovens e as famílias sobre os perigos do álcool excessivo é fundamental, porque a tendência de todos nós é demonizar as drogas psicotrópicas, esquecendo-se que as drogas legais, como o álcool, são igualmente perigosas.

Precisamos estar atentos para que a nossa tolerância sob a desculpa da nossa cultura não custe a vida ou o futuro de nossos filhos.

* Luiz Flávio Borges D´Urso, advogado criminalista, mestre e doutor pela USP, Professor Honoris Causa da FMU, é presidente da OAB SP.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)