Produtores de fumo temem mudança na composição do cigarro

Diário Catarinense
A Anvisa pretende diminuir o açúcar e aditivos que tornam o cigarro mais atrativo.

Dona Tereza Drosdek criou 11 filhos. Da roça de fumo saiu o sustento para criá-los, construir a casa da família e formar quatro dos herdeiros na faculdade.

Histórias semelhantes se multiplicam pelas propriedades rurais de Santa Terezinha, no Alto Vale, onde 90% da economia municipal está atrelada ao plantio do fumo. Mas agora os agricultores da cidade temem pela continuidade dos negócios. O fumo plantado por 1,75 mil famílias de Santa Terezinha pode perder espaço no mercado.

A ameaça vem de uma possível mudança na composição do cigarro proposta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Com a alteração, a agência quer reduzir o número de consumidores de tabaco. De acordo com o Ministério da Saúde, 200 mil pessoas morrem por ano no país em função do tabagismo.

Com 10 mil toneladas por safra, Santa Terezinha é a maior produtora de fumo do Vale do Itajaí e a terceira maior do Estado. Perde apenas para Canoinhas e Itaiópolis. De acordo com o prefeito de Santa Terezinha, Genir Antonio Junckes, se as medidas propostas pela Anvisa se tornarem resoluções, o mercado consumidor do fumo tipo virgínia, que corresponde a 99% da área plantada da folha no município, será afetado.

A agência pretende diminuir o açúcar e aditivos que tornam o cigarro mais atrativo, inviabilizando o plantio da folha tipo burley. Com isso, estima-se que sejam plantadas mais áreas com o virgínia, o que poderá resultar na derrubada dos preços para o produtor.

— Nós dependemos quase que exclusivamente do fumo e não dá para mudar o mercado de uma hora para outra — contesta o prefeito de Santa Terezinha.

Se as mudanças se concretizarem, dona Tereza não sabe como os filhos que ainda lidam com a terra vão enfrentar os problemas. Os prejuízos se estenderiam, em graus diferentes, aos 15,8 mil plantadores de fumo do Vale do Itajaí, concentrados quase que a totalidade no Alto Vale, aponta a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). Eles correspondem a 29% do total de fumicultores do Estado.

— Se implantadas, as restrições vão impactar demais no mercado do tabaco. Queremos que os produtores tenham condições de viver com dignidade, mas assim eles serão prejudicados — afirma Benício Werner, presidente da Afubra.

Atualmente, os produtores já enfrentam problemas com a classificação da folha por parte das empresas. Seleção esta que determina o valor a ser pago pelo tabaco.

O secretário de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Estado, João Rodrigues, diz que se a medida da Anvisa for aprovada e todos os produtores resolverem migrar para o tipo virgínia, levando à queda dos preços, não há alternativas em curto prazo para compensar o possível desequilíbrio no mercado. Ele ressalta que não há defesa irrestrita à produção de fumo, mas que existem garantias para que as famílias tenham sustento.

Uma das sugestões é que o governo crie um fundo com os impostos arrecadados com o cigarro – a carga tributária chega a 70% – para financiar o início de outras atividades que possam substituir o fumo nas lavouras.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)