Usuárias são cerca de 5% das grávidas

Jornal da Cidade de Bauru
País ainda carece de pesquisas que tratem do volume de gestantes usuárias de crack e dos efeitos da droga para bebês.

Em Bauru é alarmante o número de mulheres usuárias de drogas que dão á luz mensalmente, diz o ginecologista e obstetra da Maternidade Santa Isabel, Sérgio Henrique Antônio. Por observação, já que não há dados concretos sobre o assunto, ele acha que dos 300 partos mensais, cerca de 5% são de mulheres usuárias de crack, portanto 15 parturientes por mês. Considerando o mesmo percentual e critério, ainda levando em conta que em 2010 nasceram 4.368 crianças na cidade, teoricamente seriam 218 filhos do ‘crack’.

Para o especialista, o ponto mais gritante da situação é que essas crianças nascem fora do peso, uma doença classificada na obstetrícia como restrição de crescimento na vida intrauterina. “Não são bebês prematuros, mas com peso abaixo do normal”. A falta de ‘alimentação’ na vida intraútero seria a causa.

“Só na semana passada fiz dois partos de usuárias de crack. O bebê com 38 semanas de gestação nasceu com cerca de um quilo e novecentos gramas. Muito pequeno. Era do sexo feminino. Uma das parturientes tinha entre 18 e 21 anos e a outra, 28 anos”.

Uma delas, segundo o médico, estava na quinta gravidez. “Ela contou que tinha fumado 20 pedras de crack no dia anterior. Tomamos o cuidado de liberá-la o mais rápido possível, porque a crise de abstinência da droga poderia acarretar problemas dentro da unidade de saúde. Elas ficam muito agitadas no pós parto. São pacientes mais bem vigiadas. Ainda não registramos problemas dessa natureza.”

Esse tipo de paciente, segundo o médico, são jovens de 18 a 28 anos. “Não temos uma pesquisa para falar com propriedade. Há muitas delas que não falam que são usuárias e a gente desconfia, mas não podemos comprovar.”

Grande parte dos ‘filhos do crack’ segundo o médico, estão sendo criados pelos familiares da usuária de drogas. “Observo que as avós ou parentes acompanham a parturiente para ficarem com a guarda dos bebês, porque a mãe, na maioria das vezes, não tem condições.”

Há ainda os casos das crianças que já nascem e são conduzidas aos abrigos por ordem judicial. “Para que isso não aconteça é que elas abre mão da guarda em favor de parentes e evite a adoção.”

Combinações perigosas

Os pesquisadores são unânimes em dizer que o maior problema de saúde pública no campo das drogas ainda é o álcool. É a droga que se tem mais conhecimento, graças ao número de estudos desenvolvidos. Já o crack ainda carece de dados conclusivos sobre os efeitos na gravidez. Torresan frisa que os pesquisadores têm observado que os usuários estão fazendo associações de muitas substâncias o que dificulta até a definição dos comprometimentos.

“Especialmente os usuários mais pesados de drogas. Além do uso do crack eles fazem uso importante de álcool. Com a associação de substâncias não sabemos os problemas causados tanto para a mãe como para a criança que vai nascer. Se vai acontecer comprometimentos exclusivamente causados pelo uso do crack ou se dessa combinação podem surgir outras questões.”

‘Eu abandonei meus filhos pelo crack’

Maria (nome fictício) para preservar a verdadeira identidade é um caso típico de mulher que “renunciou” os filhos para ficar com o crack. Com 28 anos ela faz programas para manter o vício.

Quem olha para Maria diz logo que ela tem mais de 40 anos. Sua pele está castigada, os dentes da frente foram embora faz tempo e olhando de perfil até parece uma das vítimas da anorexia de tão magra. Teve três filhos dos quais apenas um, que hoje tem 9 anos, ela conhece. “Minha mãe cuida dele. Quando sinto saudade vou na igreja que eles frequentam e o vejo. Ele sempre me pede para sair da rua, mas ainda não consegui”, lamenta.

Os outros dois filhos foram para a adoção e ela não tem notícia. “Eu comecei a usar drogas com 12 anos. Cheirava cola, tiner. Fui para a machonha e hoje estou na pedra (crack).”

Meire (nome fictício) é outra usuária que também frequenta o ‘linhão”. Tem apenas 26 anos e de cara é possível perceber o que a droga fez com ela. Sobraram poucos dentes, o cabelo está desalinhado e sujo, as unhas encardidas e a vestimenta não condiz com uma jovem com pouco mais de 20 anos.

Ela conta que começou a usar drogas aos 8 anos, cheirando cola. Aos 17 teve o primeiro filho que vive com sua mãe. Ao todo teve sete, três nasceram prematuros e ela não sabe ao certo se sobreviveram ou se morreram. No caminho, ela contraiu HIV positivo e os demais filhos, também foram para o Conselho Tutelar. “Tem um que ainda é bebê.”

Elizângela (nome fictício) tem 41 anos e foge às estatística de que o crack atinge os mais jovens. Ela conta que durante mais da metade de sua vida foi uma pessoa normal. “Fui traída pelo meu marido. Não suportei e busquei algo que abrandasse a dor. Encontrei o crack pelas mãos de amigos. Hoje, estou separada de minha única filha, uma moça linda de 23 anos.”

Meio confusa, a mulher que lembra que um dia ter frequentado salões de beleza para manter o cabelo e as unhas em bom estado, diz que pretende sair dessa vida. “Estou há pouco tempo na droga, só dois anos. Minha família já tentou de todo jeito me tirar daqui. Da última vez, eu fiz até entrevista na clínica, mas desisti.”

Da vaidade só restou o banho. “Eu era vaidosa. Cuidava de minha pele, cabelo e unhas. Hoje ainda tomo banho. Me sinto um lixo, mas sou fraca diante do vício”, confessa.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)