Escolas sofrem flagelo da droga

Zero Hora
Uso do crack é constante no entorno de alguns colégios da Capital.

Foi-se o tempo em que crianças não queriam ir à escola por aversão aos estudos. Hoje, o temor está no portão. Colégios, normalmente públicos, viraram alvos preferidos de traficantes. Alunos de ensino fundamental são vítimas por dois motivos: são vistos como potenciais novos consumidores de crack e presas fáceis para pequenos furtos. Tênis e celulares são mercadorias trocadas por pedras que custam de R$ 5 a R$ 10. Sem falar no óxi, que chega ao Estado valendo R$ 2.

Até quinta-feira, o Diário Gaúcho mostrará o drama no ambiente escolar. Hoje, o problema é escancarado. Amanhã, vítimas fazem relatos. Por fim, o poder público aponta iniciativas para amenizar a triste realidade.

Há dois anos, a dona de casa Elaine Santos, 36 anos, passou a buscar todos os dias, na escola, a filha de 12 anos em um colégio na Restinga. Sempre às 18h, ela e outras mães, que tempos atrás esperavam tranquilas pelos filhos, hoje se espremem no portão. Não é o caminho de poucos quarteirões até em casa que as preocupa. Elas não querem é que as filhas sejam abordadas pelos traficantes e drogados no entorno da escola.

– Eles respeitam quando ela está comigo. Só não sei até quando – lamenta a mãe.

A situação é comum em praticamente todas as escolas públicas da Região Metropolitana, principais alvos dos traficantes atualmente. Dos alunos, os traficantes aproveitam tudo. Os estudantes são clientes para as drogas e, ainda, presas fáceis para viciados, que roubam seus celulares, tênis e material escolar para trocar por crack.

Ontem, às 14h50min, a redação do Diário Gaúcho flagrou três homens usando crack encostados no muro dos fundos do Colégio Liberato Salzano Vieira da Cunha. A menos de 20 metros deles, alunos jogavam futebol no pátio. Minutos antes, um dos usuários caminhou menos de 500m até a Vila do Respeito, entrou em uma casa e saiu com a droga. Mães e filhos passavam pela Rua Rocco Aloize quando o trio puxou dos bolsos cachimbos improvisados e começou a tragar as pedras. As mulheres só aceleraram o passo.

Diretora do colégio, Cleusa Leppa assegura que o Liberato é um colégio sem grande problemas de violência. Mas reconhece que a presença de usuários ao redor tem sido constante:

– Desde janeiro estes dois ficam ali, no muro. A Brigada Militar já os prendeu, mas eles foram soltos e voltaram. Ficamos de olho neles.

– Isso não é nada. No intervalo das aulas, sobretudo à noite, tem traficante que pula o muro, oferece droga a quem quiser pegar – relata uma aluna de 16 anos.

Cleusa admite que o problema ocorreu, mas poucas vezes:

– Não temos problema de invasão. Alguns eram ex-alunos e foram retirados. É o que fazemos sempre que percebemos que há, no pátio, alguém que não é aluno.
Conforme a diretora, “meia-dúzia” dos 1780 alunos apresentaram comportamento estranho (aparentemente, pelo uso de drogas) este ano e tiveram seus pais comunicados.

Triste rotina

O colégio da Zona Norte está longe de ser exceção. Pelo contrário. Em vários colégios, os relatos de drogados e traficantes em meio aos alunos é o mesmo.
No Escola Municipal Senador Alberto Pasqualini, na Restinga, Zona Sul, uma mãe conta que, quando não pode levar a filha de 14 anos à escola, prefere que ela não vá.

– As vezes, peço para a minha mãe levá-la. E fico com o coração na mão. Todo mundo aqui sabe dos traficantes, eles desfilam. A escola não deixa eles entrarem, mas eles esperam os guris saírem – conta a doméstica de 33 anos.

Falta de preocupação

As autoridades reconhecem o problema, mas não existe, oficialmente, nenhuma verba ou programa exclusivo para combatê-lo. Os criminosos sabem disso, e estão aproveitando. A Secretaria Estadual de Educação, por meio de sua assessoria, divulgou que o órgão sequer sabe a quantidade de drogas e de drogados apreendidos nos estabelecimentos de ensino. Das 2.554 escolas de todo o Estado, apenas 27 (1%) possuem seguranças armados, contratados pela gestão anterior do governo e que só estão em vigor porque seus contratos seguem em vigor. Quando o prazo terminar, o serviço não será renovado.

Na Capital, dos 986 estabelecimentos de ensino, 68 (6%) têm o projeto PM residente – policiais que moram na escola. Em outros 32, militares da reserva, voluntários, participam de rondas. Os demais colégios dependem de rondas escolares esporádicas.

– A segurança dos colégios é uma de nossas prioridades. Mas o ambiente escolar é um público alvo de traficantes, que querem esse público para vender as drogas – admite o responsável pelo Comando de Policiamento da Capital, (CPC) coronel Atamar Cabreira.

Conforme dados da Brigada, 26% dos presos por furto têm antecedentes por posse de drogas.

– Quem usa seis pedras ao dia precisa de R$ 1,8 mil por mês para sustentar o vício (calcula pedra a R$ 10). Ele vai a campo, começa a fazer pequenos furtos – raciocina o coronel.

Drogado confessa dez assaltos

Um homem de 22 anos, preso pela Brigada Militar esta semana e entregue à 16ª DP, admitiu em depoimento ter realizados dez assaltos ao redor das escolas Ildo Meneghetti e Alberto Pasqualini, ambas na Restinga.

– Temos outros casos, ainda estão investigando se ele também não é o culpado – conta o chefe de investigações da DP, Sérgio Lopes.

Como não foi pego em flagrante, o rapaz foi solto. O delegado Luciano Coelho está concluindo os inquéritos e poderá pedir sua prisão preventiva. Antes de ser solto, ele disse aos agentes que queria ser indicado para algum tratamento.

– Eu disse para ele separar algumas roupas e voltara para cá no dia seguinte, pois o levaríamos a uma clínica. Chegamos a ajeitar as coisas, mas ele não apareceu e, dois dias depois, temos quase certeza que cometeu outro furto, de um vizinho – relatou Sérgio Lopes.Foi-se o tempo em que crianças não queriam ir à escola por aversão aos estudos. Hoje, o temor está no portão. Colégios, normalmente públicos, viraram alvos preferidos de traficantes. Alunos de ensino fundamental são vítimas por dois motivos: são vistos como potenciais novos consumidores de crack e presas fáceis para pequenos furtos. Tênis e celulares são mercadorias trocadas por pedras que custam de R$ 5 a R$ 10. Sem falar no óxi, que chega ao Estado valendo R$ 2.

Até quinta-feira, o Diário Gaúcho mostrará o drama no ambiente escolar. Hoje, o problema é escancarado. Amanhã, vítimas fazem relatos. Por fim, o poder público aponta iniciativas para amenizar a triste realidade.

Há dois anos, a dona de casa Elaine Santos, 36 anos, passou a buscar todos os dias, na escola, a filha de 12 anos em um colégio na Restinga. Sempre às 18h, ela e outras mães, que tempos atrás esperavam tranquilas pelos filhos, hoje se espremem no portão. Não é o caminho de poucos quarteirões até em casa que as preocupa. Elas não querem é que as filhas sejam abordadas pelos traficantes e drogados no entorno da escola.

– Eles respeitam quando ela está comigo. Só não sei até quando – lamenta a mãe.

A situação é comum em praticamente todas as escolas públicas da Região Metropolitana, principais alvos dos traficantes atualmente. Dos alunos, os traficantes aproveitam tudo. Os estudantes são clientes para as drogas e, ainda, presas fáceis para viciados, que roubam seus celulares, tênis e material escolar para trocar por crack.

Ontem, às 14h50min, a redação do Diário Gaúcho flagrou três homens usando crack encostados no muro dos fundos do Colégio Liberato Salzano Vieira da Cunha. A menos de 20 metros deles, alunos jogavam futebol no pátio. Minutos antes, um dos usuários caminhou menos de 500m até a Vila do Respeito, entrou em uma casa e saiu com a droga. Mães e filhos passavam pela Rua Rocco Aloize quando o trio puxou dos bolsos cachimbos improvisados e começou a tragar as pedras. As mulheres só aceleraram o passo.

Diretora do colégio, Cleusa Leppa assegura que o Liberato é um colégio sem grande problemas de violência. Mas reconhece que a presença de usuários ao redor tem sido constante:

– Desde janeiro estes dois ficam ali, no muro. A Brigada Militar já os prendeu, mas eles foram soltos e voltaram. Ficamos de olho neles.

– Isso não é nada. No intervalo das aulas, sobretudo à noite, tem traficante que pula o muro, oferece droga a quem quiser pegar – relata uma aluna de 16 anos.

Cleusa admite que o problema ocorreu, mas poucas vezes:

– Não temos problema de invasão. Alguns eram ex-alunos e foram retirados. É o que fazemos sempre que percebemos que há, no pátio, alguém que não é aluno.
Conforme a diretora, “meia-dúzia” dos 1780 alunos apresentaram comportamento estranho (aparentemente, pelo uso de drogas) este ano e tiveram seus pais comunicados.

Triste rotina

O colégio da Zona Norte está longe de ser exceção. Pelo contrário. Em vários colégios, os relatos de drogados e traficantes em meio aos alunos é o mesmo.
No Escola Municipal Senador Alberto Pasqualini, na Restinga, Zona Sul, uma mãe conta que, quando não pode levar a filha de 14 anos à escola, prefere que ela não vá.

– As vezes, peço para a minha mãe levá-la. E fico com o coração na mão. Todo mundo aqui sabe dos traficantes, eles desfilam. A escola não deixa eles entrarem, mas eles esperam os guris saírem – conta a doméstica de 33 anos.

Falta de preocupação

As autoridades reconhecem o problema, mas não existe, oficialmente, nenhuma verba ou programa exclusivo para combatê-lo. Os criminosos sabem disso, e estão aproveitando. A Secretaria Estadual de Educação, por meio de sua assessoria, divulgou que o órgão sequer sabe a quantidade de drogas e de drogados apreendidos nos estabelecimentos de ensino. Das 2.554 escolas de todo o Estado, apenas 27 (1%) possuem seguranças armados, contratados pela gestão anterior do governo e que só estão em vigor porque seus contratos seguem em vigor. Quando o prazo terminar, o serviço não será renovado.

Na Capital, dos 986 estabelecimentos de ensino, 68 (6%) têm o projeto PM residente – policiais que moram na escola. Em outros 32, militares da reserva, voluntários, participam de rondas. Os demais colégios dependem de rondas escolares esporádicas.

– A segurança dos colégios é uma de nossas prioridades. Mas o ambiente escolar é um público alvo de traficantes, que querem esse público para vender as drogas – admite o responsável pelo Comando de Policiamento da Capital, (CPC) coronel Atamar Cabreira.

Conforme dados da Brigada, 26% dos presos por furto têm antecedentes por posse de drogas.

– Quem usa seis pedras ao dia precisa de R$ 1,8 mil por mês para sustentar o vício (calcula pedra a R$ 10). Ele vai a campo, começa a fazer pequenos furtos – raciocina o coronel.

Drogado confessa dez assaltos

Um homem de 22 anos, preso pela Brigada Militar esta semana e entregue à 16ª DP, admitiu em depoimento ter realizados dez assaltos ao redor das escolas Ildo Meneghetti e Alberto Pasqualini, ambas na Restinga.

– Temos outros casos, ainda estão investigando se ele também não é o culpado – conta o chefe de investigações da DP, Sérgio Lopes.

Como não foi pego em flagrante, o rapaz foi solto. O delegado Luciano Coelho está concluindo os inquéritos e poderá pedir sua prisão preventiva. Antes de ser solto, ele disse aos agentes que queria ser indicado para algum tratamento.

– Eu disse para ele separar algumas roupas e voltara para cá no dia seguinte, pois o levaríamos a uma clínica. Chegamos a ajeitar as coisas, mas ele não apareceu e, dois dias depois, temos quase certeza que cometeu outro furto, de um vizinho – relatou Sérgio Lopes.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)