Um motorista embriagado a cada 3 dias

JC Net
Embora sob a vigência da lei seca e da presença de bafômetros nas ruas, casos de embriaguez aumentam na cidade

No último fim de semana, mais um motorista embriagado circulou nas ruas bauruenses e foi autuado. Após colidir contra vários veículos e andar na contramão, ele parou somente após provocar mais um acidente. Durante a tarde do mesmo dia, outro condutor apresentou dificuldades na condução de seu veículo e atropelou uma mãe com o bebê de apenas 5 meses. Casos como esses escancaram a imprudência. De acordo com estatísticas ainda deste ano, pelo menos a cada três dias, a Polícia Militar (PM) de Bauru flagra um motorista nessa condição. Outro número comprova o perigo que essas pessoas representam: 99% dos que respondem processo administrativo perderam a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) (leia mais abaixo).

Ao todo, os policiais localizaram, em 2011, 42 condutores alcoolizados ou embriagados nas vias da cidade. No ano passado inteiro, ainda de acordo com os dados da PM, foram flagrados 140 motoristas.

Segundo o capitão Paulo César Valentim, comandante da 1.ª Companhia da 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), durante o tempo de vigência da lei seca (veja o quadro ao lado), que, em 2008, alterou o artigo 306 do Código Brasileiro de Trânsito (CBT), já é possível verificar uma mudança no perfil desses infratores.

“Antes, eram os jovens quem cometiam mais esse tipo de infração. Hoje, não é mais assim. Apesar de ainda haver ocorrências nessa faixa etária, constatamos que o perfil mudou relativamente. Vemos muitos adultos e de classes mais baixas”, aponta.

O capitão faz outra constatação curiosa, que chega a “guiar” os patrulhamentos da PM. “Justamente por esse perfil ter mudado, vemos que a maior parte das infrações ocorre durante a transição entre um mês e outro, que é quando eles recebem o pagamento. Comprovamos isso também perto do dia 20, que é quando muitos recebem o ´vale´ das empresas”.

Todavia, independentemente do perfil, a reação quando ocorre a abordagem geralmente é a mesma: tentar se justificar. Tentativa que quase sempre é em vão. O ato de dirigir embriagado constitui uma infração gravíssima e, além de multa de R$ 957,00, resulta na perda de sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e na suspensão do documento após processo administrativo.

Fora esses prejuízos, há ainda o processo criminal, que pode culminar com a prisão do motorista. “O policial verifica alguns sinais de embriaguez, porém, precisa comprovar isso. Somente depois de comprovado é que a pessoa é autuada por esse crime”, explica Valentim.

Mesmo ser ter havido qualquer acidente, quando o nível de álcool passa de 0,6 gramas por litro, o motorista pode ser preso em flagrante com penas que variam entre seis meses e três anos. O crime, porém, prevê fiança entre R$ 300,00 e R$ 1.200,00.

Bafômetros

Para comprovar a embriaguez, há três maneiras: bafômetro, exame de sangue e teste clínico. As duas primeiras contam com a cooperação do próprio motorista bêbado. Na cidade, a polícia dispõe de seis bafômetros para fazer a fiscalização.

O comandante Paulo Valentim, entretanto, afirma que o número de aparelhos não é problema. “Quando vamos fazer operações, podemos emprestar bafômetros de cidades vizinhas, fato que já ocorreu”.

Questionado sobre a frequência do uso desses aparelhos, o capitão explica que são usados em operações de fiscalização trânsito e sempre quando há acidentes com vítimas. Assim, provavelmente, o número de motoristas embriagados que não passam pelo “pente fino” policial ou que ingeriram álcool e não demonstram muitos os sintomas deve ser muito maior.

“As pessoas precisam se conscientizar. O que resolve mesmo é as pessoas entenderem o risco que é dirigir sob efeito de álcool. Vemos muitas tragédias e sabemos o perigo que o álcool representa”, completa Valentim.

Teste clínico

Recentemente, o senador mineiro Aécio Neves se recusou a fazer o teste do bafômetro. Meses antes, a cantora Sandra de Sá fez o mesmo. Ambos “atrasaram” o trabalho da polícia argumentando dispositivo da Constituição Federal de que ninguém é obrigado a “produzir provas contra si”. Assim, tanto o teste do bafômetro quanto o exame de sangue não são obrigatórios.

Essa premissa legislativa, entretanto, não impede que o motorista seja autuado. De acordo com o capitão Paulo César Valentim, “quando o policial detecta esses sinais de embriaguez, ele pode conduzir a pessoa ao Plantão Policial e, lá, um médico perito constata o estado. E esse trâmite é rápido. Não há perigo de que esse estado passe e o indivíduo se livre”.

Foi o que ocorreu no caso do motorista que tumultuou o trânsito no fim de semana. Depois de ter se recusado a soprar o bafômetro, ele foi conduzido ao Plantão Policial, onde o médico comprovou a embriaguez.

Tragédia começa por alteração da percepção

Certamente todo mundo já sentiu ou viu alguém sob influência do álcool. Entretanto, quais são os efeitos reais no organismo? Segundo o neurocirurgião Pedro Hortense, o álcool causa a perda da percepção, que, aliada ao aumento da coragem, são extremamente perigosos no trânsito.

“O álcool age direto no cérebro. Ele faz com que a pessoa perca em muito a percepção. Assim, diminui a atenção em tudo”, explica. O álcool atinge neurotransmissores e faz os neurônios trabalharem de forma mais lenta, diminuindo a coordenação.

“Outro efeito é no controle próprio. Em alguns, o álcool é um sedativo, porém, em outros, transforma o indivíduo em um ‘leão’. Essa coragem faz a pessoa fazer coisas mais arriscadas”.

Além da alteração comportamental, a noção de espaço também é bastante prejudicada. “O embriagado tem a noção de que tudo ocorre ´mais para frente´. Muitas vezes, ele vê um obstáculo perto mas acha que está longe. Se for uma pessoa, por exemplo, quando o motorista a percebe, já houve o atropelamento”, completa Pedro Hortense.

97% dos flagrados têm CNH suspensa

Além de responder criminalmente, um dos principais objetivos da lei seca é retirar das ruas os motoristas infratores. Quando são flagrados, eles respondem a processo administrativo que pode culminar com a suspensão da CNH por 12 meses.

Segundo o delegado diretor da 5ª. Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Bauru, Dernival Inforzato, foram concluídos este ano 31 processos administrativos de motoristas embriagados. Desses, apenas um resultou na absolvição do condutor.

“Instauramos o processo administrativo e o indivíduo tem 30 dias para apresentar a defesa. Entretanto, a maioria resulta na suspensão da carteira pelo período de 12 meses. Na defesa, ouvimos desculpas das mais diversas. Uma das que aparece bastante é que ele não estava embriagado, mas sim sob efeito de remédios”, conta o delegado.

Segundo dados da Ciretran de Bauru, foram instaurados 114 processos este ano. O delegado Dernival Inforzato, entretanto, explica que esses números não são necessariamente de motoristas bauruenses. “Esses processos são de motoristas que tiraram a CNH por Bauru. Eles podem ter sido flagrados em outra cidade, porém, o processo é por aqui”.

O delegado ainda completa que, por lei, não está prevista a apreensão do carro. A determinação é de que o veículo seja retido até que uma pessoa com condições se apresente.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)