Adolescentes relatam luta contra o vício do crack no Rio de Janeiro

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R7 visitou abrigo na zona oeste; maioria saiu de casa por causa de problemas familiares

– Eu saí de casa porque não aguentava mais as brigas dos meus irmãos.

– Fugi com uma colega da rua, porque minha mãe não me deixava namorar.

– Eu era agressiva, batia em todo mundo dentro de casa. Ficava revoltada, porque minha mãe não me dava dinheiro.

– Saí de casa para conhecer o Brasil. Entrava em caminhões aos nove anos e me prostituía. Fiquei revoltada quando meu pai me disse que minha mãe me abandonou quando eu tinha um ano.

Histórias diferentes, destinos em comum. Essas são declarações de adolescentes que entraram cedo no mundo do crack e se recuperam em um abrigo localizado em Magalhães Bastos, na zona oeste do Rio de Janeiro. Hoje, elas têm a esperança de viver melhor e um consenso: “entrar [no mundo das drogas] é fácil, o difícil é conseguir sair”.

Em meio ao crescente consumo do crack na capital fluminense, o R7 relata histórias de jovens desse abrigo que lutam para se livrar do vício (leia mais relatos abaixo). Os enredos de autodestruição e inserção precoce no mundo das drogas, por vezes acompanhada por prostituição, impressionam. A identidade das meninas, menores de idade, foi preservada na reportagem.

Uma delas, de 12 anos, contou que decidiu experimentar o crack para fazer parte do grupo de “amigos” e se sentir mais segura.

– Eles diziam que eu era careta, que precisava sair mais, me soltar mais. Aí, me apresentaram o crack. Depois, fui para a cocaína, maconha, bebida e cheguei até a entrar para o tráfico de drogas. Só saí, porque estava jurada de morte.

A garota agradece à Rede Record pela recuperação. Segundo ela, sua mãe foi ao programa Balanço Geral denunciar um conselho tutelar da cidade que se negava a ajudá-la a sair do vício.

– Eles [conselho tutelar] diziam que não havia vagas em clínicas da região para minha idade. Depois que minha mãe foi ao programa do Wagner Montes, eu consegui entrar em um centro de recuperação.

Outra jovem de 15 anos, que está no mesmo abrigo, contou que fugiu várias vezes dos centros de reabilitação para fumar crack. Quando sentiu medo de morrer, voltou por conta própria para se recuperar.

– Eu fugia, porque a droga falava mais alto. Fui internada em uma clínica de Barra Mansa, na região sul fluminense, onde fiquei por três meses e fugi. Depois, voltei para o Rio e fui encaminhada para este abrigo, de onde fugi duas vezes. Quando vi que estava quase morrendo, voltei.

Assim como as outras adolescentes, uma menina de 13 anos que sonha em ser juíza disse que se prostituía para comprar crack.

– Meu irmão ia dentro da favela me buscar e via que eu me prostituía. Minha mãe bebia muito e não aceitava que a gente usasse drogas.

Trabalho de recuperação

As jovens que estão no abrigo de Magalhães Bastos passaram por clínicas de tratamento antes de serem encaminhadas para o trabalho de recuparação. O tempo de permanência nos centros de tratamento depende do estado emocional e físico de cada uma.

No abrigo, elas têm aulas de refoço escolar, oficinas de arte, de costura, de turismo, informática, atendimentos dentário, médico e psicológico, além de consultas com pedagogas e assistentes sociais.

Após a recuperação das adolescentes, começa o processo de reinserção à família, momento mais esperado pela maioria. Elas passam a visitar os familiares frenquentemente, mas voltam para o abrigo para dar continuidado ao tratamento.

O centro de recuperação também presta serviços médico e dentário à comunidade de Magalhães Bastos.

Pobreza sensibiliza policial

O presidente da ONG que dirige o abrigo, Sergio Magalhães, é policial militar reformado. Ele tomou a iniciativa de fundar a instituição em 2006, após presenciar uma cena de pobreza durante uma operação da PM em uma comunidade da zona norte.

– Uma cena que me marcou muito foi uma criança segurando um prato de alumínio com macarrão, água e lama, uma situação pior do que a de um porco. Fiquei inconformado. Tirei a criança e levei-a até uma bica para tomar banho. O pai pediu para eu largá-la. Eu disse que estava apenas ajudando. Depois que eu conquistei a confiança dele, o pai me chamou para entrar na casa onde morava com a família. Ao abrir o armário, fiquei chocado: não tinha nada.

Sergio comemora a cada dia a recuperação das jovens que são atendidas no abrigo de Magalhães Bastos.

– Desde 2006, não tivemos que enviar ninguém para abrigos de adultos. Todas as adolescentes voltaram para casa e vivem normalmente.

O policial diz acreditar que o vício no crack passa pela falta de orientação familiar e que os usuários precisam da ajuda de todos.

– Eles trocaram a cola de sapateiro e a substituíram pelo crack. Precisamos do apoio de toda a sociedade para combater esta epidemia.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)