Estrutura do Estado para atender crianças viciadas em drogas é insuficiente

Pernambuco 360 graus
Não há nenhum serviço específico para crianças que já são dependentes do crack e outras drogas; em todo o Estado, há apenas 72 leitos nos hospitais para dependentes químicos de qualquer idade

O consumo de drogas é um assunto que preocupa, pois o número de pessoas que se envolvem e experimentam o crack, a cocaína, a maconha e a cola é cada vez maior. Há casos de meninos e meninas de 8 ou 9 anos de idade, já viciados em crack, gente jovem demais para entender que precisa de ajuda e que nem sempre conta com o apoio da família.

Se, para um adulto, é complicado assumir que precisa de tratamento para superar o vício, imagine para um adolescente ou uma criança. O que preocupa é que nem o Governo do Estado nem a Prefeitura do Recife sabem onde estão e quem são os jovens que precisam de tratamento. O último estudo feito sobre o consumo de drogas entre crianças e adolescentes completou cinco anos.

Edson Barbosa, que coordena uma casa de recuperação de rapazes que cederam às drogas, hoje é um homem curado. Hoje com 29 anos, ele começou cedo a usar drogas, logo aos 13 anos. Usou cola, maconha, depois cocaína e crack. Só parou quando foi preso e em seguida descobriu a Sociedade Assistencial Saravida. Agora ele entende como é importante começar cedo a se tratar.

“Porque há tempo de reeducá-lo e colocá-lo para estudar. Ele consegue automaticamente voltar às origens que perdeu por conta das drogas. Então é necessário que seja cedo mesmo”, afirma Edson Barbosa.

Situações como a dele e de tantos anónimos que estão nas ruas impressionam o juiz da Infância e da Juventude, Élio Braz . Ele tem precisado tomar decisões sobre meninos ainda pequenos e já viciados em crack.

“Nós temos crianças de 8 anos de idade que são usuários de crack porque os pais são usuários de crack e meninas pelas ruas com 8 ou 9 anos de idade se prostituindo e usando crack. Nós estamos com um trabalho com a polícia, a GPCA, o IASC e o Ministério Público para retirar essas meninas das ruas”, afirma o juiz.

O contato com as drogas às vezes começa dentro do útero, no caso dos filhos de mães dependentes. Já outras crianças são abandonadas nas calçadas enquanto os pais fumam e vendem crack. E, para essas todas, o caminho até a primeira pedra é muito mais curto do que gostaria a promotora Jacqueline Aymar. Ela não consegue perceber o trabalho de uma rede que deveria apoiar crianças e adolescentes viciados.

“Já existem casos que chegam ao Ministério Público de crianças menores de 12 anos que já começam a fazer o uso de crack e outras drogas. Essa rede não existe e é muito truncada. Estamos tentando ver se, nessa rede, começa a existir o atendimento e também uma rede que dê um apoio à família mais forte para que ela também possa se cuidar como um todo”, afirma a promotora.

O NETV procurou saber o que existe, exatamente, de estrutura criada para tratar os jovens viciados e descobriu que não há, em Pernambuco, um mapeamento dos dependentes, nem mesmo um número sobre a quantidade de pessoas que precisam de ajuda e nem onde elas estão.

A diretora de epidemiologia da Secretaria de Saúde, Patrícia Ismael, acredita que um grande passo para chegar à atenção de que os viciados precisam é a portaria que obriga as unidades de saúde a notificar os atendimentos de pacientes com intoxicação por cocaína e crack. Ela deverá entrar em vigor até 11 de junho. O anonimato da pessoa será garantido e as informações serão importantes, diz.

“Vai dar para identificar o município, a faixa etária e também nessa notificação a questão da dependência: como é que está a dependência, faz quanto tempo que ela está fazendo o uso… A gente vai poder distribuir melhor a atenção à saúde dessas pessoas com o conhecimento dessa informação”, conta a diretora.

A Secretaria de Saúde do Recife trata as pessoas dependentes nos seis Centros de Apoio Psicossocial em Álcool e Outras Drogas (CAPS-AD), com apoio das equipes de saúde da família. Mas não há nenhum serviço específico para crianças. A gerente do programa Mais Vida, Poliana Pimentel, que é responsável por esse trabalho, diz que lidar com o crack é um desafio novo e que os profissionais habilitados para isso ainda estão sendo formados.

“Essa é uma demanda nova que está requerendo um debruçar sobre de que forma vamos atender de forma mais ampliada essa criança na rede”, afirma a gerente.

De acordo com a Secretaria de Saúde de Pernambuco, há 72 leitos nos hospitais do Estado destinados ao atendimento de dependentes químicos de qualquer idade. Ou seja, esses leitos não são exclusivos para crianças e adolescentes, já que também recebem adultos. Esses leitos ficam nas cidades de Paulista, Vitória de Santo Antão, Goiana, Limoeiro, Garanhuns, Salgueiro, Ouricuri, Afogados da Ingazeira e no Recife.

Na capital pernambucana, há também outros dez leitos no Hospital Otávio de Freitas, que são apenas para crianças e jovens. O NETV fez uma conta rápida e chegou aos seguintes dados: Pernambuco tem 184 municípios e possui, ao todo, 82 leitos para atender dependentes químicos. Se cada cidade tivesse um usuário de drogas — de qualquer idade — que precisasse de internação, a fila de espera seria muito longa: 102 pessoas ficariam sem atendimento.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)