65% dos moradores de rua vivem sob efeito de drogas

Gazeta Digital
Sessenta e cinco por cento dos moradores de rua que são recolhidos pela Abordagem Solidária estão sob o efeito de algum tipo de droga, seja ela lícita ou ilícita.

Os demais vieram para Cuiabá em busca de oportunidade de trabalho e não encontraram. Dados da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos mostram ainda que 30% deles deixam a casa devido ao consumo de algum tipo de álcool ou entorpecente. O vício faz com que fiquem reféns da rua e se neguem a voltar. Os números apontam ainda que a maioria dos usuários da Abordagem são homens (84,5%) e têm entre 18 e 24 anos.

O secretário Mário Lúcio Guimarães de Jesus conta que as pessoas costumam conseguir dinheiro com pequenos trabalhos braçais, serviço de flanelinhas e esmola. Cerca de 19% das pessoas recolhidas chegam a ter uma renda diária de R$ 150. Isto representa uma remuneração mensal de R$ 4,5 mil ao mês. O dinheiro acaba empregado na compra de drogas e bebidas alcoólicas.

Muitos fogem das equipes e recusam a ajuda. Lúcio diz que eles sabem que na casa não é permitido o consumo de álcool e nem de drogas. Então, preferem ficar livres nas ruas. Ele argumenta que existe casos nos quais as pessoas pedem auxílio médico, mas a única alternativa dos servidores da Abordagem é encaminhar para o Hospital Adauto Botelho, que faz a desintoxicação e, em seguida, deixa a pessoa exposta aos riscos e tentações das ruas.

Sem estrutura – Na casa da Abordagem, que fica na estrada de acesso ao Distrito de Nossa Senhora da Guia, as pessoas recolhidas ficam em uma estrutura física caótica e, muitas vezes, falta até mesmo alimento, confessa o secretário. Ele argumenta que existem dificuldades nas aquisições e o ideal seria fechar o espaço. O problema é que não tem outra área em condições de receber os moradores de forma imediata.

O primeiro passo de atendimento é fazer a higienização dos moradores. Alguns estão semanas sem tomar banho, fazer barba e cortar cabelo. Eles recebem roupas limpas e, em seguida, começa o trabalho de pesquisa e busca.

Os assistentes sociais querem saber a história de cada um e se têm contato com a família. O Município oferece passagem para eles retornarem ao lar.

Sonhadores – Muitas pessoas buscam um sonho em Cuiabá. Elas querem emprego e oportunidade e acabam encontrando o abandono.

O pedreiro, carpinteiro e profissional de reciclagem Vanderlei Ferreira Bento, 35, é um deles. Hoje ele “mora” às margens da avenida das Torres, nas proximidades do acesso à avenida Dante Martins de Oliveira.

Duas vigas de madeira e uma telha de amianto são a estrutura da moradia. Ele relata que veio de Barra do Bugres (168 km a médio-norte de Cuiabá), onde trabalhava com reciclagem. A atividade era desenvolvida com o irmão e, depois de uma briga, resolveu vir para Cuiabá. Ele não tinha documentos porque os perdeu em uma pescaria.

Sem identificação, não tinha como pegar um ônibus e usou a “cara e a coragem” para pegar carona de Barra do Bugres até Cuiabá. Chegando na cidade, não achou trabalho, ficou sem dinheiro e não tinha local para morar. Ele viu um lixão à margem da avenida e resolveu fazer um acampamento para aproveitar os materiais depositados.

Como ninguém falou nada, continuou no local e foi melhorando a “habitação” com as coisas que retirava do lixo, como resto de sofá e lençol.

Vanderlei não tem onde cozinhar e depende da comida que é oferecida pelas pessoas que passam pelo local. O banho é com água de um posto de gasolina. “Eu quero ter uma casa e um trabalho. Só isto”.

Histórias como a de Vanderlei são comuns na Abordagem Solidária. Mário Lúcio diz que os relatos são surpreendentes e mostram o que as pessoas são capazes de fazer em busca de um sonho.

Ele conta que uma mulher e uma criança foram encontradas na rua. Quando chegaram na abordagem, a mãe informou que era de Rio Branco (AC), procurava emprego, porém não achou. Os servidores ofereceram o transporte de volta para a casa dela, mas a mulher não quis. O objetivo dela era juntar dinheiro em Cuiabá e depois ir até São Paulo e ver o apresentador Gugu Liberato e conseguir uma casa. “Quando perguntei se tinha alguma coisa marcada, ela disse que não. Fiquei impressionado. Ela foi embora afirmando que não queria passagem para voltar para casa”.

Projeto – Uma nova casa da Abordagem Solidária será inaugurada na avenida das Torres. O secretário informou que a estrutura é uma parceria entre Estado e Município. Ele acredita que até o final do mês de julho estará em funcionamento.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)