As mães reféns do crack

Revista Veja – Ricardo Westin
Um milhão de brasileiros são dependentes da mais perigosa das drogas. Ela não só acaba com a vida deles: é devastadora para as famílias

Pouco antes do nascer do sol, uma ambulância entra no sítio onde os Tostes passam os fins de semana, no interior de São Paulo, e estaciona entre a Pajero e a Tucson da família. De dentro, saltam três enfermeiros e um médico. Edeno e Isabel Tostes, que haviam passado a noite em claro abrem a porta e, sem dizer uma palavra, apontam o caminho para o quarto do filho Fernando, de 28 anos. O médico acorda o rapaz e avisa a ele que será levado a uma clínica para dependentes de drogas. Fernando é viciado em crack. Intimidado pelo porte avantajado dos três enfermeiros, ele aceita acompanha-los pacifica­mente até a ambulância. Se resistisse, seria imobilizado ou sedado. O casal se fecha no quarto para não ver o filho sendo tirado de casa contra a própria vontade, como no passado se fazia com os loucos e os leprosos. Quando, enfim, os pais conseguem se aproximar da janela, a ambulância já desapareceu. Eles então se abraçam e choram copiosamente.

No momento em que Edeno e Isa­bel tomaram a difícil decisão da inter­nação involuntária, Fernando já não conseguia trabalhar. O crack queima o tempo, o dinheiro e a saúde física e mental dos viciados. Isso já é conhecido. O que nem sempre se vê é que essa droga também causa uma devastação na vida de pais e mães dos dependentes. Como um tsunami silencioso, a epidemia de crack tem avançado de forma arrasadora sobre um número cada vez maior de famílias brasileiras. Uma pesquisa recente da Fundação Oswaldo Cruz indica que há hoje 1 milhão de viciados nessa droga no Brasil. Vinte anos atrás restrita a São Paulo, hoje faz vítimas em nada menos que 98% dos municípios brasileiros. A horda de zumbis que o crack produz deixou de ser formada apenas por mendigos e moradores de rua. Lentamente, o crack subiu a escala social. As clínicas e os psiquiatras cuidam de estudantes universitários, empresários, advogados e até médicos. Edeno e Isabel Tostes são do­nos de um escritório de contabilidade de grande porte e moram num bairro de classe média alta de São Paulo. Fernando, o mais novo dos dois filhos, sempre estudou em colégios particulares e cursou faculdade de turismo.

Para esta reportagem, VEJA conversou com duas dezenas de pais e mães de viciados em crack, de todas as classes sociais. Alguns dos depoimentos estão nas páginas seguintes. As histórias relatadas são parecidas – e sempre aterradoras.

Nenhuma droga danifica o cérebro com tanta rapidez. O viciado perde completamente o senso de julgamento e a responsabilidade. Fica agressivo. Para comprar as pedras, é capaz de roubar o dinheiro dos pais e objetos da própria casa. Muitos, sem nenhum antecedente de delinquência, passam a assaltar. Os traficantes, aproveitando-se do desespero do dependente, dão cinco ou seis pedras em troca, por exemplo, de um aparelho de televisão. Para ficar mais perto das pedras, o viciado não se importa em passar dias ou semanas morando na rua. Diz Wagner Giudice, delegado do Departamento de Investigações sobre Narcóticos da Polícia Civil de São Paulo: “A história mais comum é a do adolescente que sai bem-vestido, com dinheiro no bolso, e só volta para casa cinco dias depois, sujo, magro e desidratado, vestindo só uma bermuda. Trocou tudo por crack e não fez nada nesses dias, além de fumar. Ele só volta para casa quando está exaurido”. Um filho viciado em crack desestabiliza toda a família As tentativas de impedi-lo de sair de casa não funcionam. Se as portas são trancadas, ele pula as janelas. Pega escondido o carro. Muitos pais passam noites em claro, esperando o telefone tocar – as ligações mais temidas são do hospital, da polícia e do necrotério. Alguns se arriscam procurando o filho nas cracolãndias pela madrugada. A promessa de que ele vai deixar o vício sempre soa sincera, mas nunca é cumprida. Os pais carregam seu tormento para o trabalho e para a vida social. A vida gira em torno do viciado. Muitas vezes o patrimônio familiar é dilapidado com caras e prolongadas internações em clínicas de desintoxicação. Um mês de estada nas melhores clínicas custa 20000 reais.

O crack é uma forma grosseira, porém mais potente de cocaína. Os efeitos de ambas as drogas são os mesmos: bem estar, energia e euforia. Essas sensações se devem ao cloridrato de cocaína, seu princípio ativo, que, chegando ao cérebro, libera dopamina, o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. A dopamina é liberada naturalmente pela comida e pelo sexo – a alimentação e a reprodução despertam prazer porque são imprescindíveis para a manutenção da espécie. A probabilidade de um iniciante se viciar em crack é o dobro da de se viciar em cocaína. Isso porque no vapor da pedra de crack há concentração mais elevada de cloridrato de cocaína do que no pó que se aspira. Além disso, os pulmões têm uma área maior que a do septo nasal para a droga ser absorvida pelo organismo. A “brisa” do crack, como dizem os viciados, surge em dez segundos e se esvai em dez minutos. O efeito da cocaína leva alguns minutos para começar e se prolonga por até uma hora. Normalmente, basta uma semana para que a pessoa já não consiga ficar sem o crack. Com a cocaína, o vício leva meses para se estabelecer. Tanto o crack quanto a cocaína entram no Brasil em forma de pasta-base de coca, produzida na Colômbia, na Bolívia e no Peru. Os traficantes montam laboratórios caseiros perto dos pontos de venda para transformar a pasta-base em cocaína ou crack, conforme a demanda.

A literatura médica enumera mais de cinquenta doenças desencadeadas pelo uso de crack: psiquiátricas, cardíacas, respiratórias e renais, entre outras. O enfisema pulmonar leva três décadas para se manifestar num fumante e poucos anos no usuário de crack. Para se recuperar do vício, o dependente precisa passar por um longo processo, que inclui internações, tratamento das doenças associadas, consultas frequentes com psiquiatra e psicólogo e atividades que ajudem a reinseri-lo na família e na sociedade. Também é útil participar de grupos de autoajuda, como os Narcóticos Anônimos. Já os pais e as mães do crack raramente comam com ajuda, orientação ou tratamento. Tendem a se afundar na dor, na raiva, na culpa e na vergonha. É por causa da vergonha das famílias que as ambulâncias que fazem as internações involuntárias têm mais trabalho durante a madrugada – assim, não se corre o risco de que os vizinhos descubram que o filho está doente. “Os dependentes, pelo menos, têm o “barato” da droga. Nós só temos o sofrimento”, desabafa a aposentada Regina Tortorelli, paulistana de 61 anos, com dois filhos envolvidos com o crack.

Um estudo recém-concluído, conduzido pela psicóloga Maria de Fátima Padin, da Universidade Federal de São Paulo e obtido com exclusividade por VEJA, dimensiona a desorientação das famílias após o choque de descobrir que um filho foi capturado pelas drogas. Ela ouviu 500 familiares de viciados e ex-viciados de São Paulo, principalmente das classes A e B. Em média, os pais levaram dois anos e meio para procurar algum tipo de ajuda. As principais razões para a demora: eles simplesmente não sabiam o que fazer (30%), acharam que conseguiriam resolver o problema em casa (24%) e pensaram que o uso de drogas seria passageiro (17%). Mesmo depois de tanto tempo, a primeira ajuda que buscaram nem sempre foi a adequada: 34% recorreram a grupos de autoajuda e igrejas. Apenas 11 %, acertadamente, pediram auxílio de um psiquiatra. Ou seja, muito poucas famílias têm consciência de que a dependência de drogas é uma doença. É como ter um filho com pneumonia e não saber que é preciso leva-lo imediatamente ao médico. Os grupos de apoio e as igrejas podem ser, sim, importantes na recuperação do viciado ­mas só depois que ele já passou por cuidados médicos e se desintoxicou. Apesar de o crack ser um problema de saúde pública, as ações do governo para esclarecer a população são esparsas, tímidas e ineficientes. Na última campanha de TV, lançada no fim de 2009, o alerta nacional não poderia ter sido mais superficial: “O crack é uma droga perigosa que tem causado graves problemas porque ele causa dependência muito mais rápido. Por isso, fale com seus familiares e amigos sobre o assunto. Nunca experimente o crack. Ele causa dependência e mata”. Na prática, o único tipo de ajuda com o qual os pais e as mães podem contar são os grupos de apoio específicos para familiares de de­pendentes químicos. Os maiores são o Nar-Anon e o Amor Exigente. Esses grupos, que não têm nenhum tipo de doutrina religiosa nem política, atuam em várias cidades do país e se reúnem semanalmente. Quem orienta são pais e mães voluntários que já passaram pelo drama de ter um filho viciado. Ensinam, por exemplo, a lidar com o sentimento de culpa. “Fazem um trabalho belíssimo. E de graça. Sem eles, os pais estariam desamparados”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Unifesp, um dos maiores especialistas brasileiros em drogas.

O submundo das drogas tende a ficar ainda mais perigoso. Neste ano, a polícia de São Paulo apreendeu pela primeira vez o óxi, uma espécie de crack ao qual se acrescentam na preparação ingredientes baratos e perigosos como cal virgem, ácido bórico, ácido sulfúrico, gasolina e querosene. Essas substâncias fazem com que a pedra custe menos que o crack, sem lhe tirar o poder alucinógeno. O óxi está presente na Região Norte há vinte anos, mas só agora, com sua chegada ao Sudeste, ganha evidência. Em 2005, a Rede Acreana de Redução de Danos fez uma pesquisa com 100 viciados que migraram do crack para o óxi. Um ano depois, 33 haviam morrido, vítimas de aids e hepatites virais. Segundo o economista Álvaro Mendes, que coordenou a pesquisa, os dependentes se tornam vulneráveis a es­sas doenças porque adotam comporta­mentos de risco. No início deste mês, os pais de Fernando Tostes; citado no início desta reportagem num episódio ocorrido em 2009, organizaram uma festa com oitenta convidados para comemorar os 31 anos do filho. Foi o primeiro aniversário em três anos que ele passou fora de uma clínica. Na internação mais recente, foram onze meses de tratamento, ao custo de 70000 reais. “Jamais cogitamos a possibilidade de desistir dele”, afirmam. Fernando está “limpo” há um ano e meio. O casal Tostes sabe que ele não está curado – porque simplesmente não há cura. Está controlado. Fernando terá de cuidar da dependência química pelo resto da vida. Qualquer deslize pode trazer o inferno de volta. Diz o psiquiatra Pedro Eugênio Ferreira, coordenador do ambulatório de drogas da PUC do Rio Grande do Sul: “É como se o dependente tivesse uma vela. Quando ele fica abstinente, a vela se apaga. Assim que ele volta a usar a droga, mesmo que seja muitos anos depois, a vela se acende e passa a queimar do lugar onde havia parado. Não volta atrás”.

Um milhão de brasileiros são dependentes da mais perigosa das drogas. Ela não só acaba com a vida deles: é devastadora para as famílias
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas