Servidora da União é acusada de espionar para a Souza Cruz

Folha de São Paulo
Ela telefonou para representante da empresa para relatar reunião da OMS no Uruguai vetada à indústria do tabaco. A própria funcionária admitiu ligações em documento no qual pede ressarcimento pelos gastos telefônicos.

Uma funcionária do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior desrespeitou uma das normas da OMS (Organização Mundial da Saúde) ao participar de uma reunião internacional em que se discutia formas de reduzir o consumo de tabaco, segundo uma entidade antitabagista.
Ela ligou para a Souza Cruz para relatar o conteúdo do encontro da OMS, de acordo com a própria funcionária.
A reunião era sobre a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco, o primeiro tratado internacional sobre saúde, assinado por 194 países. O objetivo do encontro era evitar que interesses comerciais minassem o acordo.
A convenção proíbe a participação da indústria nos encontros. Também obriga os participantes a se comprometerem a não revelar o teor das reuniões para os fabricantes.
O veto à indústria tem uma razão histórica. As fábricas de cigarro fraudaram e manipularam as informações sobre o fumo durante mais de 50 anos, segundo a OMS.
No ano passado, num encontro em Genebra, representantes da indústria foram expulsos de um encontro.

ROAMING
A funcionária, chamada Rita de Cássia Milagres, é coordenadora-geral de agronegócios do ministério -a pasta participa dos encontros porque tem interesse na exportação de fumo.
“Ela contou para a indústria informações que não poderiam passar. E sabia que isso é proibido por uma convenção internacional. É espionagem”, diz Paula Johns, coordenadora da ACT (Aliança do Controle do Tabagismo).
O deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP-RS), considerado um dos mais ativos parlamentares da bancada do fumo, também recebeu chamadas de Rita.
A própria funcionária mencionou as conversas com a indústria do tabaco ao pedir que o governo pagasse o custo das ligações, feitas de Montevidéu, no Uruguai, onde ocorreu uma das reuniões da Convenção Quadro, em novembro de 2010. As ligações para Heinze e para a Souza Cruz custaram R$ 161,11.
Num documento em que explica por que tem de ser ressarcida, Rita diz: “Vale ressaltar que o pedido de roaming flex foi solicitado visando atender a indústria do tabaco, impossibilitada de participar da referida reunião”.
A funcionária estava na reunião porque representa o ministério na Comissão Nacional de Implementação da Convenção Quadro no Brasil.
A interlocutora dela na Souza Cruz, também citada no documento, é Ana Maria Carneiro, gerente de relações governamentais em Brasília.
Em conversa relâmpago com a Folha, ela disse: “Nós temos interlocutores com o Ministério da Indústria. Isso não é espionagem”. Ao ser questionada sobre as ligações do Uruguai, mudou de tom: “Não tenho autorização para falar”. E desligou.

OUTRO LADO

Suspeita será investigada, diz ministério

DE SÃO PAULO

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior disse em nota que “irá adotar os procedimentos administrativos necessários para a apuração da denúncia”. A cúpula do ministério não havia sido informada de que há uma suspeita de espionagem com uma funcionária do alto escalão, segundo a Folha apurou.
A reportagem procurou a funcionária Rita de Cássia Milagres, mas não conseguiu localizá-la nem em Brasília nem por meio de seu celular.
A Souza Cruz não quis comentar a suspeita envolvendo sua funcionária que se relaciona com o governo em Brasília.
O deputado Luiz Carlos Heinze diz que as suas conversas com a funcionária do ministério não podem ser caracterizadas como espionagem, porque ele teria direito de participar da reunião.
Heinze recusa o rótulo de “deputado da indústria do cigarro”, com o qual ONGs se referem a ele. “Represento o produtor rural, não a indústria. Nunca recebi dinheiro das fábricas.”
Em 2006, a campanha de Heinze recebeu uma doação de R$ 100 mil da Alliance One, uma das maiores exportadoras de fumo do país. Entre o ano passado e o começo deste, a Souza Cruz deu a ele cinco carros para serem doados a entidades assistenciais.
O deputado diz que isso ocorreu por causa de seu trabalho social. “Não sou mensaleiro, não tenho nada a ver com essas coisas.”
A Souza Cruz informou apenas que os carros eram doados a entidades.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)