O cigarro é bom para o planeta?

Técnicos avaliam a lavoura e agricultores participam do processo de secagem do tabaco, em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul. O processo usa fontes renováveis de energia

Existe uma indústria aparentemente campeã segundo os critérios modernos de sustentabilidade. Ela tem 80% de sua produção baseada em fontes renováveis de energia. Procura reduzir os impactos dos defensivos agrícolas no campo. Também faz investimentos sociais nas comunidades rurais. Seria um dos setores mais aclamados pelos ambientalistas e inspiraria as melhores práticas. Só há um problema: o produto. Essa é a indústria do cigarro. Nos últimos 20 anos, algumas empresas produtoras de tabaco, em especial a brasileira Souza Cruz e a suíça Philip Morris, se destacaram em práticas socioambientais. Isso contrasta com a condenação geral ao cigarro, cujo consumo viciante está associado a várias doenças. Por que essas companhias têm tantos cuidados?

A maior indústria de tabaco do país e da América Latina, a Souza Cruz, oferece aos lavradores orientação técnica para reduzir o uso de pesticidas e fertilizantes. “É a cultura que usa o menor volume de químicos, por tonelada por hectare”, diz Jorge Augusto Rodrigues, gerente de meio ambiente da empresa. Além disso, a Souza Cruz distribui aos agricultores mudas de eucalipto. As árvores são usadas para a secagem das folhas de tabaco. Com isso, a empresa evita o uso de combustíveis fósseis, que contribuem para o aquecimento global. Cerca de 85% da energia vem de fontes não poluidoras. O resto é compensado com reflorestamento. A empresa foi eleita três vezes como uma das melhores do Brasil pelo Prêmio Época de Mudanças Climáticas. A Philip Morris também age nessa linha. Nos últimos cinco anos, a empresa reduziu em 12% a energia necessária para produzir cada cigarro. Também diminuiu 7% do lixo e 12% o uso de água.

Essas preocupações podem soar como uma tentativa de resgatar um pouco da boa imagem da indústria no passado. No início do século XX, ela cresceu entre o glamour e os lucros. Faturava mais que a indústria automotiva até os anos 1980. Associou-se às maiores estrelas de Hollywood, patrocinando filmes. As principais escuderias da Fórmula 1 anunciavam marcas de cigarros. Mas a maré virou. Centenas de estudos científicos na década de 1980 ligaram, de forma incontestável, o cigarro a doenças como o câncer. Para a Organização Mundial da Saúde, o vício no produto é uma pandemia capaz de matar mais de 8 milhões de pessoas até 2030. Os prejuízos aos sistemas de saúde público não compensam o que se recolhe de impostos. Com isso, a campanha antitabagista ganhou força no mundo. O cigarro foi proibido no trabalho, em lugares públicos e em ambientes fechados. No Brasil, 75% da embalagem do cigarro é coberta por advertências e obrigações legais. As empresas mal conseguem se comunicar com o consumidor.

Diante de tantos ataques, a área ambiental pode ser uma frente em que a indústria mostre uma face mais positiva. Mas as empresas negam essa intenção. De acordo com a Souza Cruz, as práticas ambientais não visam compensar a imagem do produto. “Enquanto tivermos fumantes, alguém vai ter de fornecer esse produto. O que procuramos é ter todos os cuidados possíveis na produção”, afirma Rodrigues.

Os cuidados socioambientais teriam outra motivação. A indústria do tabaco esteve ameaçada na década de 1970, quando parte de sua mão de obra agrícola, baseada em pequenos agricultores, adoeceu vítima de agrotóxicos. Denúncias de contaminação de rios e desmatamentos se espalharam como uma praga. Um grupo numeroso de trabalhadores rurais ameaçava abandonar a cultura do tabaco. “Nos anos 1980, a ameaça no campo era maior que os ataques que a indústria já tinha sofrido até o momento”, diz Roger Quarles, da Associação Internacional dos Plantadores de Tabaco, que publicou um alerta especial sobre o tema.

No Brasil, estima-se que centenas de trabalhadores tenham sido hospitalizados devido a doenças relacionadas aos defensivos agrícolas. Para complicar, a folha do tabaco é, por natureza, especialmente sensível à ação das pragas. A opção da indústria foi investir no desenvolvimento de novas técnicas. Uma delas substitui a borrifação das plantas no solo por um tratamento prévio das sementes e das mudas, em bacias com água e remédios. Isso reduz a quantidade de pesticida no ambiente e a exposição dos agricultores.

Essas boas práticas na agricultura não fazem grande diferença para os fumantes. Mas são essenciais a outro tipo de comprador: aquele que encomenda algumas toneladas de tabaco de cada vez, para exportação. O cuidado socioambiental é um diferencial para os importadores. São as empresas que vêm ao Brasil comprar tabaco e revendê-lo para fabricantes dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia. “Para eles faz diferença oferecer garantia da sustentabilidade do processo de produção”, diz Rodrigues, da Souza Cruz. Essa preocupação é cada vez mais essencial para a indústria do tabaco no Brasil. Afinal, o país é o maior exportador de tabaco do mundo, segundo o Sindicato da Indústria do Fumo da Região Sul do Brasil, o SindiTabaco. Cerca de 85% de nossa produção é comprada pelos importadores. São eles os consumidores que a indústria mais quer impressionar hoje.
Autor: Editoria: Sociedade
OBID Fonte: Época