Do vício libertário que potencializa a criatividade à vida ´chapada`

Correio Braziliense
A falsa ideia de que as drogas potencializam a criatividade, retratada na trajetória de Amy Winehouse, tem vários adeptos no país.

Segundo especialistas, os usuários seriam mais talentosos e saudáveis se largassem os entorpecentes.

Apesar das evidências em contrário, inclusive científicas, o mito de que a droga que destrói o artista é também a fonte de seu talento persiste. Mesmo diante das cenas degradantes protagonizadas pela cantora Amy Winehouse, morta há uma semana por causas ainda não conhecidas, fãs cultuam os hábitos da britânica. Quando viva, não eram incomuns mensagens em redes sociais do tipo “Você é melhor chapada, Amy”. Depois de morta, comentários associando o uso de entorpecentes a um estilo de vida libertário praticado pela diva do soul continuam a pipocar. O glamour em torno das drogas como meio de potencializar aptidões ou atitudes, porém, não se restringe ao show bussiness. Na vida real, são muitas as histórias de quem se perdeu achando que melhorava a cada dose.

Com olhos verdes e rosto de criança, Juliano* tomava LSD antes de assumir a bateria de sua extinta banda. “Eu achava que estava tocando muito, depois a galera vinha me dizer que eu tinha errado. Com o tempo, comecei a ver três pedais em vez de dois. Perdi o controle, fui preso, cheguei ao limite”, conta o garoto de 18 anos. Há sete dias numa clínica de reabilitação, ele lembra como tudo começou. “Nunca fui de beber, até porque meu pai é alcoólatra, mas comecei a fumar (maconha). A gente fumava um para planejar onde ia ser o ensaio, outro para começar, fazia um intervalo para fumar mais um, depois outro para finalizar”, conta.

O raciocínio não passa de uma estratégia, segundo o psiquiatra Carlos Salgado, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas. “O dependente tem necessidade de justificar o uso. Então, ele relaciona a substância com o desempenho em algo”, afirma. Do ponto de vista médico, ele garante que a associação entre performance e drogas não passa de mito. “Isso se formou em virtude de uma caricatura, difundida até por intelectuais que, apesar do uso de substâncias, se saem bem. Eles poderiam ser muito mais talentosos sem a droga”, diz Salgado. Mesmo quando o assunto é a maconha, aclamada como um entorpecente leve, estudos científicos mostram os prejuízos causados.

Uma das mais importantes pesquisas, realizada na Nova Zelândia, aponta para a ocorrência de surtos psicóticos em 10% dos adolescentes que usam maconha. “A droga antecipa esse quadro psiquiátrico que poderia ficar adormecido. Disso, a ciência tem certeza, assim como já sabemos que as drogas prejudicam a memória, a concentração e a persistência, funções absolutamente importantes em um processo criativo”, diz Ronaldo Laranjeira, PhD em psiquiatria pela Universidade de Londres e professor da Universidade Federal de São Paulo. “O problema é que as pessoas confundem o prazer que a droga proporciona com a falsa sensação de desempenhar bem uma atividade. A dependência é uma doença, que nada tem de glamourosa.”

Hoje, Patrick* compreende com clareza o que o especialista diz. “Quando tocava doidão, depois de cheirar cocaína, tomar um ecstasy ou LSD, eu ficava sem coordenação e me atrapalhava com a guitarra”, lembra o rapaz de 26 anos, que liderou uma conhecida banda de reggae da cidade e está na segunda internação, há 60 dias, para tratar a dependência. Os altos e baixos pontuaram a vida de Patrick desde os 12, no primeiro contato com maconha. O jovem, que chegou a ser preso por tráfico, tenta reinventar a vida. “A droga me cercou de gente que só usava droga. Vou precisar mudar minha forma de viver.”

* Nomes fictícios

Base científica
Pesquisa do Laboratório de Neurociências Clínicas da Universidade Federal de São Paulo estudou uma amostra de 173 usuários crônicos de maconha, que fumam de um a dois cigarros por dia há pelo menos 10 anos. O grupo passou por testes neuropsicológicos que medem as funções de processar e organizar informações do cérebro. Em todos os quesitos, os usuários tiveram desempenho muito abaixo do obtido pelo grupo de controle (com perfil parecido em termos de idade e escolaridade). No teste de memória, por exemplo, os não usuários precisaram de 34 repetições, enquanto os que fazem uso de maconha necessitaram de 50.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)