Tabagismo e obesidade influenciam carga de doenças

O papel de fatores de risco como o tabagismo e o excesso de peso na Carga Global de Doenças foi apresentado em sessão científica do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos da ENSP, na segunda-feira (15/8), pela pós-doutoranda Andreia Ferreira de Oliveira. A palestrante apresentou o indicador Daly (Disability Adjusted Life of Years), obtido a partir da soma dos componentes Anos de Vida Perdidos por Morte Prematura (YLL) e Anos Vividos com Incapacidade (YLD), e afirmou que a doença pulmonar obstrutiva crônica, a doença isquêmica do coração, a doença cérebro-vascular e o câncer de traqueia, brônquios e pulmão foram responsáveis por 72,2% do total de Daly atribuível ao tabagismo no estado do Rio de Janeiro em indivíduos de 30 anos e mais.

Orientada pelos pesquisadores Joaquim Gonçalves Valente e Iuri da Costa Leite, Andreia revelou que os estudos de Carga Global de Doença tiveram início em 1992, como uma demanda da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Banco Mundial, com o objetivo de inserir os agravos ´não fatais` à saúde no debate das políticas de saúde internacionais. Além disso, também buscava-se avaliar os dados epidemiológicos existentes quanto a morbidade e mortalidade, além de quantificar a Carga Global de Doença através de uma medida que também pudesse ser usada em análise de custo-efetividade.

Os pressupostos utilizados para a criação do indicador se basearam na expectativa de vida japonesa (por se tratar da maior expectativa de vida no mundo, com 82,5 anos para as mulheres e 80 para os homens) e no peso das incapacidades, já que o tempo vivido com incapacidade precisa ser relativizado segundo diferentes estados mórbidos. Depois, ao comentar sua utilidade, a pesquisadora observou que “se trata de ferramenta importante para o debate sobre alocação de recursos escassos para pesquisa e intervenções de saúde”.

Em seguida, a palestrante também argumentou sobre os fatores de risco no estudo da Carga Global de Doença, revelando que seu objetivo é mensurar o efeito desses fatores sobre as doenças, o que permitiria quantificar o número de anos de vida saudáveis que poderiam ser ganhos ao se reduzir a exposição a esses fatores. “Um pequeno número de fatores de risco tem sido responsável por grande fração da Carga Global de Doença, entre eles o fumo, elevado colesterol, excesso de peso, álcool, hipertensão arterial e inatividade física”, informou.

Tabaco: causa importante de perda de anos de vida por morte prematura e incapacidade na população

Para a Carga de Doença associada ao tabagismo no estado do Rio de Janeiro, o número de Daly e fração atribuível ao tabagismo segundo sexo e causa de doença estimada foram os seguintes, segundo Andreia: “Quando analisamos todas as causas, independentemente da faixa de idade, 7% do total de Daly no estado do Rio de Janeiro, em 2000, foi atribuído ao tabaco, sendo que esse percentual chegou a 8,9% para o sexo masculino. Quando consideramos todas as causas, mas apenas os indivíduos acima de 30 anos – faixa etária em que as doenças relacionadas ao tabaco têm maior incidência -, esse percentual chega a 11%, com 13,6% para homens e 7,5% para mulheres. Em relação a todas as causas tabaco-relacionadas na população acima de 30 anos, o percentual vai para 33,2% para ambos os sexos, chegando a 38% para o sexo masculino”.

Na conclusão, o estudo apontou o tabaco como causa importante de perda de anos de vida por morte prematura e incapacidade em nossa população. “A doença pulmonar obstrutiva crônica, a doença isquêmica do coração, a doença cérebro-vascular e o câncer de traqueia, brônquios e pulmão foram as quatro principais doenças, responsáveis por 72,2% do total de Daly atribuíveis ao tabagismo no estado do Rio de Janeiro em indivíduos de 30 anos e mais. Logo, medidas de prevenção e controle do hábito tabágico devem ser efetivamente implementadas como política de saúde pública. Devemos evitar os anos de vida perdidos e muitas doenças em função do tabaco”.

Para Carga Global do diabetes mellitus, atribuível ao excesso de peso e obesidade, as maiores frações atribuíveis, em ambos os sexos, foram encontradas nas faixas etárias de 35 a 44 anos. “Do total de Daly estimado para o Brasil, nos anos de 2002 e 2003, 52,8% são atribuíveis ao excesso de peso, entre os homens, e o percentual é de 32,7% em relação à obesidade. Entre as mulheres, observamos que do total de Daly estimado para diebetes no Brasil, 62% são atribuíveis ao excesso de peso e 45,4%, à obesidade. Observamos também que as maiores frações atribuíveis foram encontradas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país”.
Fonte: ENSP