Crack avança na terceira idade em Ribeirão Preto

Jornal A Cidade
191 idosos frequentadores do Caps de Ribeirão Preto revelam dependência perigosa de drogas mais agressivas.

O crack chegou à terceira idade. É o que revela pesquisa feita pela professora Sandra Pillon, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, campus da USP, entre 191 idosos que frequentaram o Caps (Centro de Atenção Psicossocial de Ribeirão Preto) entre 1996 e 2009.

Ao lado da maconha e da cocaína, o crack se tornou umas das drogas ilícitas mais procuradas por quem tem mais de 60 anos. Das drogas lícitas, o álcool é o campeão de uso entre os idosos.
“Há alguns anos o contexto social era outro e as drogas também. Hoje existe uma disseminação grande do tráfico de drogas e o crack é uma droga barata e de fácil acesso”, diz Sandra.

A pesquisa mostra que os entorpecentes têm sido usados por idosos que já eram dependentes químicos ou estão envolvidos com a criminalidade. Nas próximas décadas, a pesquisadora acredita que o uso do crack será mais disseminado entre as pessoas da terceira idade.

“As taxas de uso de drogas ilícitas podem estar subestimadas e há possibilidade de aumentarem com o envelhecimento da população, uma vez que o uso de entorpecente é elevado entre os jovens.”

A personalidade da pessoa, a roda de amigos e as condições de saúde e psicológica e as relações interpessoais são fatores que podem contribuir para o uso do álcool e das drogas. “Fatores sociais como dinheiro, emprego, abandono e religião também contribuem para o uso destas substâncias sem distinção de idade, raça e classe social”, comenta Sandra.

De acordo com a pesquisadora, muitas vezes os idosos usam a droga para aliviar a dor ou o sofrimento, e nem eles entendem que essas substâncias vão alterar o seu corpo e sua mente.

Viciados só aceitam ajuda no fundo do poço

A professora Sandra Pillon, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, diz que os idosos dependentes químicos precisam de tratamento especializado, mas poucos procuram esta ajuda. Ela também salienta que os centros de atendimentos psicossociais precisam ter profissionais qualificados para atender esta faixa etária.

“O problema maior é quando os problemas relacionados ao uso do álcool e de outras drogas não estão muito visíveis e os profissionais de saúde não avaliam esta questão”, afirma. Ela acrescenta que muitas vezes os idosos recebem cuidados para as dores de estômago, de cabeça, fraturas e outros problemas, mas não se questiona se houve o consumo de alguma substância ilícita. Para Sandra, o ideal é o profissional da saúde tentar descobrir a frequência do consumo.

Casas de apoio

Luiz Guimarães Júnior trabalha na Rarev (Fundação Ribeirão Preto Apoiando a Recuperação de Vidas) que atende pessoas com dependências de drogas há mais de dez anos. Neste período, ele diz que cresceu o número de idosos viciados em entorpecentes.

“Já recebemos várias pessoas com o problema, mas acima de 60 anos o grande vilão é o álcool”. Ele afirma que o viciado primeiro começa a beber e depois passa para as drogas como cocaína ou crack.
“Entram no vício porque tiveram problemas com os filhos, o casamento terminou, perderam o emprego e eles se veem sozinhos e passam a usar drogas”.

Luiz explica que a família tenta ajudar o viciado, mas este apenas procura ajuda especializada quando chegou ao fundo do poço e muitas vezes já foi abandonado pelos familiares. “O viciado percebe que precisa de ajuda quando está acabado. Enquanto ele tem dinheiro ou algum recurso para comprar a droga ele não se entrega”, diz ele.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)