Anvisa determina nova resolução para comunidades terapêuticas

Jornal Agora
Tudo pode começar com um copo de cerveja, ou de outra bebida alcoólica, ou ainda pelo consumo de substâncias ilícitas, como um cigarro de maconha, passando pela cocaína, até chegar ao crack, entre outras drogas.

A dependência química, longe de ser apenas um problema moral, como muitas pessoas pensam, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença, pois, além de outros fatores, altera o comportamento do homem, podendo induzi-lo a querer cada vez mais.

Na maior parte dos casos, o usuário tem uma tendência a acreditar que é possível parar de acordo com a vontade. Entretanto, enquanto doença progressiva, crônica e incurável, o tratamento adequado, feito através do acompanhamento por profissionais, é o melhor caminho para recuperação do dependente.

“Eu precisei admitir que tinha perdido. Eu sempre dizia para minha família que eu ia parar quando quisesse. Mas quando eu percebi, já estava no fundo do poço. A droga é sedutora e vai te consumindo lentamente, de forma progressiva, até chegar numa proporção que já não se tem mais controle. Eu tive a sorte que, no meu caso, ela não foi fatal, porque percebi que precisava de ajuda”, disse João Lima, dependente em recuperação e monitor da Comunidade Terapêutica Vida Nova.

No final do mês de Julho, a Anvisa aprovou uma norma que reforça o apoio no tratamento daqueles que tentam livrar-se do vício. A Resolução RDC 29, que diz respeito às instituições que prestam serviço de atenção a pessoas com transtornos decorrentes do uso, abuso ou dependência de substâncias psicoativas, determina, entre outros fatores, a obrigatoriedade da presença de um responsável técnico de nível superior nesses locais, conhecidos como comunidades terapêuticas.

“A dependência química é multifatorial e exige tratamento que prevê a atuação de vários profissionais. Um processo que exige qualificação e rigidez, visto que os dependentes são pessoas vulneráveis, que necessitam de cuidados específicos. A resolução anterior a essa determinava que os profissionais fossem exclusivamente da área da saúde. Hoje, de acordo com a RDC 29, basta que esses trabalhadores estejam legalmente habilitados para a função”, disse Fernando Amarante, Coordenador do Centro Regional de Estudos, Prevenção e Recuperação de Dependentes Químicos (Cenpre/Furg).

De acordo com ele, a norma desobrigou alguns itens na manutenção dessas comunidades, visando a facilitar o trabalho, o que pode influenciar na qualidade do tratamento. O Estado disponibiliza recurso para financiamento de casas credenciadas, que estão, comprovadamente, dentro da legalidade e atendendo os requisitos necessários para atenção de cada dependente.

Em Rio Grande, o Conselho Municipal de Entorpecentes do Município (Comen) tem feito visitas periódicas para fiscalização dessas casas. Relatórios recentes apontam parecer favorável para funcionamento de comunidades como Vida Nova, no bairro Bolaxa, El Shammah, na localidade da Quitéria, e Esperança, em Domingos Petrolini. A listagem completa está sob responsabilidade do Cenpre.

“Isso é muito sério. Em clínicas e hospitais, por exemplo, as regras determinam e orientam as ações. Nas comunidades terapêuticas, a disciplina de trabalho deve ser a mesma. Estamos tratando pessoas doentes, que precisam também de diálogo e atenção”, complementou Amarante.

Dependentes em recuperação

“Comecei com a bebida, e fui evoluindo, sem noção do que estava acontecendo. Estive em lugares como a cracolândia, e me envolvi em situações que vocês nem imaginam. E foi só quando eu pensei em parar, que eu reconheci o quanto era fraco. A dependência é uma doença que não tem cura, mas um processo que pode ser estagnado”, disse Pedro Silva, residente na comunidade há sete meses.

Em depoimento, Pedro, que tem 37 anos, contou que é a segunda vez que busca tratamento e que, durante a recaída, jamais pensou poder chegar onde está agora. “Cheguei a 51 kg, em fevereiro de 2010, por conta do crack. Desestruturei minha família, valores e dignidade. Mas decidi voltar, e buscar a luz no fim do túnel. É claro que não é fácil, não existe recuperação sem renúncia. Já tive vontade de ir embora, mas a ansiedade veio e passou.

É importante que as pessoas saibam que nós, dependentes químicos, não precisamos de um rótulo, e sim de carinho, afeto e, principalmente, ouvido para escutar. E foi na comunidade que eu encontrei a assistência que eu precisava. Vou viver recuperação pelo resto da vida e, com humildade, nunca desistir”, acrescentou Pedro.

Para Francisco Oleiro, presidente da Comunidade Terapêutica Vida Nova, é preciso que o dependente queira se tratar, para que o atendimento seja eficaz. “São nove meses de tratamento, e nós não prendemos ninguém aqui. Eles têm acesso a oficinas, visitas dos familiares, reuniões, entre outras atividades que seguem um padrão de continuidade que vem crescendo ao longo dos anos. Mas, se o usuário vem apenas pela vontade da mãe e do pai, ou de um responsável, não adianta. Ele tem que querer. Aqui, nossa rotina segue o tripé trabalho-disciplina-oração”, disse Oleiro.

Atualmente, a CT Vida Nova conta com 25 residentes, mas tem capacidade para 48. A casa conta com assistência de psicólogos, assistentes sociais, equipe de apoio, monitores e voluntários. A monitoria é realizada por antigos residentes que vivem a recuperação.

“Hoje eu visto a camiseta, porque foi essa casa que devolveu o que sou hoje. Vivo manutenção diária, o que faz com que o fardo vá diminuindo. A família também passa a acreditar mais, e tu vais transformando teu propósito de vida. Hoje tenho consciência dos meus limites, e compartilho isso com o pessoal da comunidade”, complementou João Lima, monitor e dependente em recuperação.

NOTA: Por questão de sigilo, os nomes dos residentes entrevistados na comunidade foram trocados.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)