Entrevista com André Luiz Oliveira da Silva – Aditivos no cigarro, entre outros temas polêmicos

André Luiz Oliveira da Silva é chefe da Unidade de Controle de Produtos Gerência de Produtos Derivados do Tabaco UNCOP/GPDTA/DIAGE. Confira abaixo a entrevista que o profissional concedeu ao Boletim Eletrônico da Abead, abordanto a questão dos aditivos no cigarro, entre outros temas polêmicos.

1- De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), com a Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, 44% dos estudantes brasileiros entre 13 e 15 anos que fumam regularmente preferem os cigarros aromatizados. Os aditivos influenciam ou aceleram o processo de dependência?

Em sua maioria, os aditivos são utilizados para mascarar os aspectos negativos da fumaça, como por exemplo, a irritação. A partir do momento que você melhora o gosto, disponibiliza sabores doces, você atrai os jovens. Essa é uma clara estratégia para crianças e adolescentes, já que a indústria tem que investir para atrair novos fumantes para repor consumidores que morreram ou pararam de fumar. O próprio estudo do INCA diz que adolescentes preferem produtos com sabor, isto se explica justamente por serem mais agradáveis. Esses produtos têm grande apelo para o público mais jovem, associados com belas embalagens e propagandas nos PDVs (Ponto de Venda). Há ainda pesquisas que apontam que alguns aditivos potencializam o efeito da nicotina. Várias evidências indicam que além de reduzir a aversão natural das pessoas a fumaça, elas fisgam mais rápido o fumante.

2- Existem malefícios adicionais para quem fuma os famosos cigarros com sabor? Como o senhor avalia a popularização, principalmente entre os jovens, de produtos como o narguile?

Não é muito fácil avaliar se é mais danoso ou não, tendo em vista os devastadores efeitos intrínsecos dos produtos derivados do tabaco. O que seria pior, cair do 100º ou do 105º andar? Entretanto há alguns artigos científicos que sugerem que esses aditivos poderiam aumentar a probabilidade de certos tipos de câncer (ex.: mentol e CA de boca). Apesar da dificuldade de responder prontamente quão danosos são os aditivos ou não, a literatura científica aponta evidências que estes poderiam potencializar os efeitos danosos a saúde dos produtos derivados do tabaco.

Em relação ao narguilé, existe a crença de que pelo fato da fumaça passar por um recipiente com água, e o tabaco utilizado possuir diversos sabores, uma sessão de narguilé equivale a dezenas de cigarros comuns. Portanto, seria muito pior não somente pelos componentes tóxicos da fumaça, associado a uma fumaça mais fria, que proporcionaria uma inalação mais prolongada e profunda, o que também contribuiria para danificar ainda mais o organismo do indivíduo.

3- É dever do Estado proteger a população dos males causados pelo cigarro e criar iniciativas. O senhor acredita que banir aditivos pode reduzir o consumo do produto entre os adolescentes? Quais outras medidas podem ser tomadas para livrar os jovens dessa experiência precoce?

Com certeza. Impedindo que se mascare o sabor desagradável da fumaça e que se adicionem sabores agradáveis a fumaça obviamente menos jovens serão capturados pelo tabagismo. Em médio-longo prazo, reduziria o número de fumantes. No caso dos fumantes já estabelecidos essas medidas não afetariam significativamente as taxas de consumo, por conta do fato de nestes casos a dependência a nicotina já estar bem estabelecida.

Outras medidas que poderiam também reduzir o recrutamento de novos fumantes poderiam ser, por exemplo: restrição ainda maior da propaganda, proibir a exibição dos maços e embalagens dos produtos derivados do tabaco, coibir a venda destes produtos próximos a escolas e outros locais freqüentados por crianças e adolescentes. Coibir a venda de cigarros e outros produtos derivados do tabaco junto de balas e doces, aumentos dos preços deste produto, além é claro, de controlar o mercado ilícito.

4- A CQCT em seu artigo 9º recomenda aos governos que proíbam aditivos para dar sabor ao cigarro. Em sua opinião, o que impede essa norma de ser colocada em prática no Brasil?

A grande resistência vem da própria indústria do tabaco, que tem mobilizado todos os esforços possíveis e imagináveis para impedir uma ação como essa, que certamente restringiria suas estratégias para conseguir novos dependentes. É uma indústria com grande poder econômico e influência política. E isso vale não só para esse tipo de norma, mas qualquer outro tipo de restrição.

5- O Dia Nacional de Combate ao Fumo, comemorado em 29 de Agosto, é uma data importante para discutir as políticas contra o uso de tabaco. Em sua opinião, quais são os próximos passos que o Brasil deve tomar na luta contra o cigarro?

Implementar o controle dos aditivos, tornar mais restritas as propagandas e divulgação dos produtos, aumentar os preços dos cigarros e adotar uma fiscalização mais rigorosa.

6- Como especialista da área, qual sua expectativa para os próximos anos? Acredita que um dia teremos um país livre do tabaco?

Como estamos falando de dependência, o tão sonhado fim do uso do tabaco em um curto prazo é muito difícil. Acredito que na próxima década teremos uma acentuada queda no número de dependentes de nicotina no Brasil, contudo ainda longe de não ser mais incluída como umas principais causas de mortes dos brasileiros. Por outro lado, ainda teríamos algum crescimento do número de tabagistas em países menos desenvolvidos.

Contudo, acredito que daqui a 100 anos, as futuras gerações possam viver em um mundo livre de um dos maiores assassinos do século XX (lembrando que nem a 2a guerra mundial matou tanto quanto o tabaco neste século), e possivelmente será do século XXI. Acredito que nossos netos e bisnetos irão achar engraçado e estranho, como um produto tão letal e de alto poder aditivo como esse era tão comum e popular.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)