Retrocesso nas arquibancadas

Lance!
A imprensa tem informado que a Lei Geral da Copa pode permitir a venda de cerveja nos estádios durante o mundial de 2014. Como já era esperado, interesses comerciais levaram a FIFA a fazer pressão (mais uma) e, pelo que tudo indica, nossas autoridades vão, novamente, se subjugar e flexibilizar uma legislação que, hoje, é considerada um grande avanço conquistado pela população.

A sociedade lutou durante anos para institucionalizar essa regra e, após um longo período de conscientização e adaptação, a população em geral e os frequentadores dos estádios em particular entenderam que é uma medida benéfica. Ao concordar com essa exceção, vamos retroceder décadas em 30 dias. Além disso, vamos abrir um precedente para que a CBF e outras federações nacionais exijam o livre comércio em jogos da sua competência.

Na prática, a concessão pode sabotar a lei. No Brasil, uma das grandes dificuldades para o funcionamento da legislação é que uma nova regra “pegue”. A proibição de bebidas nos estádios “pegou”, ou seja, após anos de luta superou o principal obstáculo. E é justamente esse ponto que ficará vulnerável se for atendida a exigência da FIFA. Ao verem pela televisão torcedores com suas cervejas na mão, muitos se perguntarão: Por que na Copa pode e no Brasileirão não pode?

Esse questionamento, errado, mas compreensível, pode promover o retrocesso, fazer retornar o álcool aos estádios e com ele todas as conseqüências negativas relacionadas à embriaguez.

Devemos sempre lembrar que o álcool é um grande problema de saúde pública, principalmente nos estádios. É uma droga que amplifica rivalidades e facilita a expressão da agressividade. Em jogos de futebol isso pode ser explosivo, já que por sua natureza concentra grupos em natural oposição.

Outra questão relevante é a relação entre cerveja e esporte, principalmente os ídolos do futebol. Isso é, na verdade, muito mais grave do que vender cerveja nos estádios. Se tivesse responsabilidade, a FIFA não permitira que uma cervejaria patrocinasse a Copa. Da mesma maneira a CBF e jogadores famosos não contribuiriam para a divulgação, e consequente estímulo do consumo, de bebidas alcoólicas. Nenhum deles, aliás, enfrentaria dificuldades financeiras se adotasse essa postura.

A propaganda é o principal fator para o consumo precoce, ou seja, entre jovens e adolescentes. E quando esses anúncios são protagonizados pelo técnico ou o artilheiro da seleção o estrago é multiplicado. Seria importante que, antes de participar desses comerciais, nossos ídolos se lembrem dos inúmeros jogadores promissores que tiveram suas carreiras interrompidas por causa do alcoolismo. E das 57 mortes diárias relacionadas ao álcool no país. E assumam sua parcela de responsabilidade nessa tragédia.

O futebol é um espetáculo que não depende do álcool para o seu sucesso. Queremos a Copa no Brasil, mas é preciso estabelecer limites. Não é aceitável negociar a saúde da população para receber o evento.

Carlos Salgado é psiquiatra e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)