A um clique: drogas permitidas

Gazeta Online
Você já ouviu falar em salvia divinorum, kratom e lótus azul? Com efeitos que vão da euforia ao delírio, o extrato ou a infusão de folhas dessas e de outras plantas têm atraído pessoas para o uso das “drogas legais”.

Pela lei antidrogas, de 2006, o plantio e a comercialização de vegetais dos quais possam ser extraídas drogas são proibidos no país, com exceção do uso feito em rituais religiosos. Na prática, porém, muitas dessas plantas são vendidas pela internet.

Parte das substâncias dessas plantas não está na lista de proibições da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo especialistas, no entanto, essas plantas podem ter efeitos parecidos e até mais intensos do que alucinógenos fabricados em laboratório – e proibidos -, como o LSD.

“Onda”

Marta (nome fictício) conheceu a salvia divinorum há cerca de um ano por meio de um amigo que comprou o produto pela internet. “A ?onda? é grande. Dá uma vontade de rir incontrolável. Dura pouco tempo e, dependendo da ?dose?, provoca alucinações rápidas. Também acabei comprando”, conta. Para ela, o fato de a planta não ser proibida no Brasil foi um ponto a favor na decisão de experimentá-la.

Ainda assim, quem usa esse tipo de substância prefere não se identificar. Antônio, que também guarda sigilo sobre seu nome real, explica o porquê: “Ilegal ou não, o preconceito das pessoas é o mesmo”. Ele já usou um tipo de cogumelo que é colhido em pastos. “Foram apenas três vezes”, comenta.

Riscos

A venda na internet não possui restrições pela Anvisa, que controla apenas os sites que alegam vender produtos com propriedade funcional, terapêutica ou de saúde.

O presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Carlos Salgado, defende que, mesmo não havendo comprovação de que causa dependência, esse tipo de planta oferece riscos à saúde. “Pode levar a alterações sérias e até permanentes do estado mental”, reforça.

O consumo de drogas feitas a partir de plantas alucinógenas, no Brasil, ainda é menor que o de outros entorpecentes, segundo um estudo do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas. Em 2005, cerca de 0,33% da população havia usado alucinógenos nos 12 meses anteriores à pesquisa.

As plantas e seus efeitos

Salvia Divinorum
Espécie originária do México, é usada em rituais para descobrir a causa de uma doença. As folhas secas, fumadas, provocam alucinação e euforia. Sementes, mudas e extratos são vendidos em sites por até R$ 50,00.

Kratom
Sob o nome científico de Mitragyna speciosa, o kratom tailandês é usado em alguns países para tratar a dependência do ópio e como estimulante. Entre os efeitos relatados estão euforia e relaxamento. Cerca de 15g custam R$ 30,00.

Lótus Azul
Considerada sagrada pelo egípcios, a flor de lótus azul é conhecida por seus efeitos afrodisíacos. Em doses mais altas, porém, a infusão da flor pode provocar euforia e ligeiras alucinações. Cerca de 25g da flor custam R$ 25,00.

Componentes da Ayahuasca
Mais conhecido como chá do Santo Daime, a ayahuasca é composta, de modo geral, por duas plantas: a chacrona e o cipó jagube. Alucinógeno, também é ligado a rituais. Aproximadamente 100g custam R$ 25,00.

Cogumelos sagrados
A Amanita muscaria é usada em rituais religiosos e é encontrada nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e na África. O chá provoca alucinações, e os efeitos duram até dez horas. O kit para cultivo custa R$ 70,00.

Cactos sagrados
Há várias espécies, quase todas da América do Sul (Peru e Venezuela). Uma delas é usada no Brasil por índios Yanomami para entrar em contato com os deuses. O chá provoca efeitos visuais e auditivos. Cerca
de 30g custam R$ 40,00.

Droga era tida como sal de banho
Mesmo entrando no Brasil com o rótulo de “sais de banho”, a mefedrona – ou miau-miau – foi proibida em julho deste ano, pela Anvisa. A droga alarmou médicos por causa de seus efeitos psicóticos. Também era conhecida como seda azul e zoom, entre outros nomes.

É natural, mas pode fazer mal, diz médico

É equivocada a crença de que, por serem naturais, plantas, sementes e ervas não fazem mal à saúde. A afirmação é do presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Carlos Salgado. Ele explica que as infusões podem alterar o ritmo de funcionamento de órgãos, como o coração.

“Além disso, pessoas que têm psicóticos na família possuem mais chances de surtar ao usarem um alucinógeno”, afirma.

O efeito da droga varia. “Sabe-se que indivíduos mais frágeis e geneticamente predispostos têm grandes chances de passar por um primeiro surto.”

Outra reação comum ao uso dos alucinógenos são os flashbacks – retorno das sensações e pensamentos – dias depois do consumo. “Os alucinógenos provocam desarmonia cerebral, afetando os neurotransmissores. Essa desarmonia pode cessar rapidamente ou durar mais tempo”, diz Salgado.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)