Perigo: Epidemia do crack avança em São José dos Campos

VNews
Quatro em cada 10 pessoas atendidas no CAPS são viciados em crack

Uma droga que virou epidemia. Um levantamento do CAPS – o Centro de Atenção Psicossocial de São José dos Campos – mostra um dado preocupante: o avanço do crack na cidade. Quatro em cada 10 pessoas que procuram atendimento no CAPS são viciados nesse tipo de droga. A sensação de prazer que dura segundos, logo é substituída pelo desejo de consumir mais e isso tem destruído a vida de quem arriscou experimentar o crack.

O CAPS- Centro de Apoio Psicosocial atende todos os meses 480 pessoas. A maioria é alcoólatra. Mas o crack, uma das drogas mais devastadoras que existem, ocupa a segunda colocação com 40% dos atendimentos.

Um rapaz que não quer que se indentificar conta como teve início seu problema de dependência. “Eu tenho 30 anos. Uso drogas desde os 15. A primeira droga que eu usei foi o álcool, depois passei para a maconha, depois a cocaína, na qual fiquei mais tempo no uso da cocaína, até conhecer o oxi, que é uma pedra como se fosse o crack, mas é mais devastadora”.

É o caminho da maioria dos dependentes. De todos os que estão em tratamento, somente um rapaz concordou em falar sobre o vício. “Usei por um período de uns oito meses, fiquei uns 27 dias fora de casa. Eu perdi a confiança de todos, não tenho mais a confiança nem da minha esposa, nem do meu pai, nem do meu irmão, nem da minha irmã, da minha família. Tenho que readquirir isso com o tempo agora”.

O crack é cocaína. Só que em outra forma, cheirada, em pó, a cocaína é absorvida pelas mucosas nasais. Demora mais para chegar ao sangue e ao cérebro. No caso do crack, que é fumado, a absorção é feita pelos pulmões. O efeito é muito mais rápido e intenso e chega quase que instantaneamente até o cérebro. “Eu ficava eufórico, ficava alucinado”.

Em qualquer canto, a qualquer hora do dia. Não há limite para quem se torna dependente. “Cheguei a roubar. A gente chega a essa devastação quando a gente está louco, a gente não tem mais o que fazer. As pessoas de repete fecham a porta, não querem mais dar dinheiro. Aí a gente parte para esse tipo de coisa”. E o que fez o rapaz começar o tratamento? “A vontade de viver. Já faz três meses que eu estou sem drogas”.

A coordenadora do CAPS, Patrícia Minari, diz que o importante é ter iniciativa para melhorar. “Geralmente de 10 a 20% das pessoas que se propõe a tratar conseguem alcançar a abstinência total em um ano. Realmente, é uma doença que a gente fala com muita freqüência: Não entre”.

Sequelas

O médico psiquiatra, Marcelo Priante, disse que apesar da droga começar a fazer um efeito rápido, as sequelas disso podem ser irreversíveis. “Por causa do crack agir de uma forma tão rápida no cérebro, ela começa a provocar a compulsão. No organismo, ela provoca sequelas crônicas. A pessoa pode ter problemas renais, problemas cerebrais, diminuir o limiar convulsivo, quando a pessoa começa a ter crises convulsivas no decorrer da vida. Há também as sequelas aguda que é o que a gente recebe no Hospital Municipal”.

Segundo o médico, é um mito que a pessoa se vicie ao usar apenas uma vez a droga. É preciso tempo para se tornar dependente. Mesmo assim, o crack é a droga que mais tem potencial de viciar. Além disso, o tratamento não envolve apenas a desintoxicação, envolve também uma mudança no modo de vida.

Família

Noemi, 33 anos, saiu de casa há dois meses. A família, preocupada, já havia registrado boletim de ocorrência de desaparecimento. Quando descobriram que Noemi estava no Banhado, mantendo o vicio, eles até tentaram resgatá-la. “Quando eu a encontrei ela disse que queria, mas depois ela se negou. Quando eu fui buscá-la para a internação ela voltou para o Banhado”.

A família conta que os cinco filhos dela estão com a avó. Conviver com um parente que não quer ajuda é um drama, um dia a dia de angústia e incerteza. “Família é complicado porque você vê seu irmão se perdendo, vê que ele está precisando de ajuda, está praticamente sem estrutura nenhuma, está tão afundado que ele acha que para ele não tem solução mais”.

O psiquiatra, Marcelo Priante, disse que a família tem que entender a diferença da doença e que a dependência não é uma alteração do caráter. “A partir daí a família precisa procurar uma ajuda especializada que seria no Caps de Álcool e Drogas do município ou de qualquer profissional que tenha experiência com isso, para saber qual é a melhor indicação se é o tratamento ambulatorial ou o tratamento hospitalar”.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)