Reféns do crack

PUC RS – Informação
Estudo com 260 mulheres relaciona maus-tratos na infância e dificuldade de desintoxicação

Acompanhar o processo de desintoxicação de usuárias de cracke identificar os fatores de vulnerabilidade a que essas mulheres foramexpostas, durante a infância e a adolescência, associados à fissura. Com esse objetivoo professor Rodrigo Grassi de Oliveira, coordenador do curso de Psicologia daPUCRS, comanda a pesquisa Estudo de coorte sobre fatores de vulnerabilidadeassociados ao craving em dependentes de crack: impacto da negligência nainfância na cognição, comportamento e resposta neuroendócrina.

O projetodesenvolvido no Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse (Nepte) daFaculdade, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico eTecnológico (CNPq) investiga fatores de risco para uso do crack ao observar ocomportamento de 260 pacientes internadas na Unidade Psiquiátrica São Rafael,do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre. O perfil encontrado é de mulheresentre 18 e 50 anos, usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e de diferentes classessociais.

O monitoramento das pacientes é de 21 dias, período médio dainternação para desintoxicação. A pesquisa começou em março de 2011 e conta com60 mulheres avaliadas. Até o momento, foi identificada uma diminuição do riscode suicídio, uma redução importante da depressão e estabilização dos sintomasde craving, a chamada fissura, um dos mais graves e intensos em usuários decrack. “A previsão é de resultados inovadores, de potencial importante, jáque existem poucas pesquisas com abordagem interdisciplinar na investigação doprocesso de desintoxicação do crack”, prevê Grassi.

O destaque dos resultados parciais é a relação com históriasde maus tratos na infância, em especial de negligência, e a dificuldade parareduzir os sintomas de fissura. “Essas mulheres levam o dobro do tempo dasdemais para superar essa fase. A hipótese é de que o estresse torna vulnerávelo cérebro da criança e faz com que seu sistema de recompensa seja impactado, emvirtude de alterações no desenvolvimento das estruturas cerebrais relacionadas,o que mais tarde cria uma dificuldade de controlar demandas de dependênciaquímica”, explica.

Segundo o professor, das 60 mulheres investigadas, mais de75% sofreram maus-tratos na infância. “Isso é importante porque o maiorproblema do crack é a recaída. Algumas delas estão internadas novamente e umdos fatores que contribuiu é a sensação de fissura”, complementa.

Há também uma hipótese neurobiológica relacionada com o efeito que o estresseprecoce provoca no desenvolvimento do sistema de recompensa no cérebro. Osdados serão apresentados somente ao final do estudo, previsto para o segundosemestre de 2012. “O estresse precoce da criança contribui para o contatocom as drogas. Essas pessoas se tornam mais suscetíveis a buscar alternativasde transgressão, como o uso de substâncias psicoativas. Quanto mais cedo apessoa for exposta à droga, mais difícil será não se viciar e mais difícil seráa desintoxicação”, revela Rodrigo Grassi.

Segundo o psiquiatra, a média de idade para o início do usode drogas nessa amostra é de 12 anos para substâncias como maconha e cocaína. Ouso de álcool e cigarro começa mais cedo, por volta dos nove ou dez anos.”O estudo pretende mostrar a importância da prevenção primária. Políticaspúblicas de bem-estar infantil, reforço no Conselho Tutelar e intervençãofamiliar podem evitar esses problemas. Queremos quantificar a importância deuma infância adequada e evidenciar o dano que pode levar à intervenção”,garante o pesquisador.

Os quatro pilares dapesquisa

Entre as várias perguntas que o projeto da Faculdade dePsicologia busca responder, a principal é do ponto de vista psicobiológico: oque acontece com pacientes durante a desintoxicação? Para encontrar asrespostas, o projeto avalia aspectos biológicos, clínicos, cognitivos ecomportamentais relacionados ao craving (fissura). Os resultados atuais foramobtidos com a avaliação de vulnerabilidade, na parte comportamental, onde estáa principal relação com o estresse.

No âmbito cognitivo, verificam-se as funções executivas comojulgamento e tomada de decisão. São realizados testes de memória e de atenção,como o experimento chamado Iowa Gambling Task, que consiste em um jogo decartas para simular decisões da vida real em um paradigma de lucro e perda. Naárea clínica são avaliados sintomas de depressão, ansiedade, fissura, gravidadeda dependência química, transtornos psiquiátricos e comportamentos autolesivos.

Os estudos biológicos utilizam o fio de cabelo paraidentificar o grau de exposição ao hormônio do estresse nos últimos meses emuma parceria com o Laboratório de Toxicologia. Para cada centímetro de cabelo épossível determinar um mês. Por meio de amostras de sangue, em parceria com oLaboratório de Imunologia do Estresse, são analisados os marcadores inflamatórios,neurotróficos (responsáveis pelo crescimento de neurônios) e hormonais.

A pesquisa é desenvolvida por uma equipe multidisciplinar,em parceria com grupos de pesquisa do Nepte, do Programa de Pós-Graduação emGenética e Biologia Molecular da UFRGS e da equipe de Ação Social do HospitalMãe de Deus. A coleta de dados conta com oito pesquisadores, sendo três doHospital Mãe de Deus e cinco da PUCRS. No laboratório da Universidade, quatroprofissionais trabalham na extração do material biológico e dois nogerenciamento de dados. Estão envolvidos profissionais de Psicologia,Psiquiatria, Enfermagem, Terapia Ocupacional e Educação Física.

Reabilitação peloexercício físico

As Faculdades de Psicologia e de Educação Física e Ciênciasdo Desporto da PUCRS (Fefid) pretendem implementar, em 2012, um projeto paraintervenção na reabilitação cognitiva por meio da atividade física. Durante osegundo semestre de 2011, haverá uma seleção de alunos da iniciação científicae dois professores da Fefid serão capacitados no Núcleo de Estudos e Pesquisaem Trauma e Estresse (Nepte), vinculado à Faculdade de Psicologia, paratrabalhar com trauma.

A proposta é desenvolver um programa de exercícios aeróbicose de força com pessoas expostas a trauma na infância. Há uma série deevidências na literatura médica que mostra a redução de sintomas de fissura, dedepressão e de ansiedade, além do aumento do período de abstinência por meio deexercícios físicos em dependentes de cocaína. “O exercício pode ser umaalternativa importante”, esclarece o professor Rodrigo Grassi.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)