Consumo excessivo de álcool preocupa as universidades

JC Net
Levantamento realizado pela Unesp aponta que ao menos 10% dos estudantes apresentam alto risco de dependência alcoólica

O ingresso na faculdade é apenas a primeira das comemorações regadas a álcool na vida dos universitários, que costumam estabelecer uma relação “íntima” com a bebida ao longo do curso. Segundo pesquisa realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, estudantes que não bebem fazem parte da exceção a esta regra.

De maneira geral, a esmagadora maioria dos universitários consome álcool periodicamente, sendo que, em ao menos 10% deles, o risco de dependência já está presente. Trata-se de uma realidade que preocupa todas as instituições de ensino superior da cidade.

Os dados integram levantamento feito durante todo o dia de ontem com 360 alunos da Unesp para marcar o Dia do Alerta ao Consumo Abusivo de Álcool. O diagnóstico do uso excessivo de álcool foi detectado em cerca de 36 universitários por meio do Teste de Identificação de Desordem Devido ao Uso de Álcool (Audit).

Destes, pertencentes a um grupo etário entre 19 e 22 anos, 10 manifestaram iminente ou provável dependência alcoólica. “Não é um número pequeno”, alerta a professora Sandra Leal Calais, do departamento de psicologia da Faculdade de Ciências da Unesp.

Pelo método Audit, os alunos respondem a um questionário sobre a frequência e a quantidade que bebem, bem como as ocasiões em que, por conta do álcool, deixaram de honrar compromissos ou causaram dano a si mesmos ou a outras pessoas. Cada resposta recebe uma pontuação que classifica o aluno em baixo risco, risco, alto risco e provável dependência alcoólica.

“Tem casos de jovens que não bebem nada, mas estes são minoria. Dentre os que bebem, percebemos um número significativo de meninas. Uma delas, inclusive, apresentou quadro de provável dependência”, aponta Sandra.

Independência

Segundo a psicóloga, relacionar o álcool a comemorações e à diversão é uma associação geralmente aprendida em casa. Ao sedimentar a ideia de que a bebida tem caráter benigno e faz parte do lazer da vida adulta, os jovens passam a abusar da substância quando conquistam relativa independência – o momento em que ingressam na faculdade.

Um aluno do quarto ano do curso de educação física da Unesp, que foi classificado pelo Audit com provável dependência alcoólica e preferiu não se identificar, conta que o consumo de bebida é grande entre os alunos logo nas primeiras semanas de faculdade. “No primeiro ano, o aluno se sente à vontade para beber, nunca morou fora, vê todo mundo da sua idade e não tem os pais por perto”, conta.

Por conta desta sensação de liberdade, ele lembra que chegou a se envolver em um acidente de carro depois de muito beber. “Quando chegou a este extremo, minha família pediu para eu parar de beber, porque percebeu que eu estava exagerando”, diz.

A pressão do grupo de amigos, segundo o aluno, também é intensa nesta fase inicial dos cursos, quando os jovens sentem grande necessidade de aprovação diante de seus pares. “Eu vejo bastante gente que nunca bebeu na vida e bebe porque se sente excluído”, aponta.

Formada em Educação Física, Débora Fumes, 23 anos, concorda que existe pressão, mas diz que depende de cada pessoa encontrar o seu limite. Já Maria Luiza Santinho Lima Monteiro, 18 anos, estudante do primeiro ano do curso de Ciência da Computação, afirma que o grupo de amigos incentiva o exagero no consumo do álcool. “Na minha sala, há muitas pessoas que vão às festas, exageram e até faltam à aula no dia seguinte depois de passar mal. É algo que não é raro acontecer”, garante.

“Algumas vezes, exagerei”

Aluno do terceiro ano do curso de Engenharia Elétrica, Guilherme Maricato de Carvalho, 21 anos, confessa que, no primeiro ano, exagerou muitas vezes no consumo de bebidas alcoólicas. O fato de estar longe do controle dos pais, já que a família reside em São José do Rio Preto, também contribuiu para os excessos, diz.

“Algumas vezes, eu exagerei. Bebia para ficar mais descontraído e perder a timidez. Não tinha a minha mãe no meu pé. Olhando para trás, vejo que não precisava ter exagerado. Hoje, eu me preocupo com isso e tento beber menos”, garante.

Quanto à cobrança do grupo para que os jovens consumam bebidas alcoólicas, ele ensina que os universitários devem respeitar seus limites. “O legal é beber no seu limite, se sentir vontade e não se importar com o que os outros falam. No começo, eu me importava, ia na onda e acabava perdendo o controle”, afirma.

Prevenção nas universidades é fundamental para inibir o consumo excessivo de bebida

A participação dos pais, bem como das universidades, é fundamental para inibir a ingestão de bebidas alcoólicas precocemente e prevenir o alcoolismo, segundo análise da professora Sandra Leal Calais, do departamento de psicologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru. De maneira geral, é na recepção aos calouros que a ingestão de álcool costuma ser mais preocupante.

Em Bauru, a maioria das instituições de ensino superior adota os chamados trotes solidários em substituição aos rituais violentos que marcaram, em tempos passados, esta fase de iniciação universitária. Mas não é segredo que as festas regadas a álcool continuam a acontecer fora dos muros das unidades.

“Nesse momento, os alunos estão passando por uma transição. Deixam o ambiente escolar, em que eram mais vigiados, para conquistar uma liberdade nova na vida deles”, aponta Sandra.

Para o coordenador do curso de ciências biológicas de uma instituição particular da cidade, João Alfredo Carrara, as ações solidárias têm sido uma boa solução para conscientizar os jovens e distanciá-los dos abusos alcoólicos. “Tentamos faze-los entender que o entrosamento pode acontecer sem que seja necessário prejudicar-se física e moralmente. Dentro destas atividades socialmente responsáveis, aproveitamos para trabalhar a prevenção ao álcool”, aponta.

De acordo com Carrara, a instituição provê ainda a realização de palestras periódicas de prevenção ao consumo de drogas lícitas e ilícitas. Outras instituições particulares participam ainda da Semana do Trânsito, quando são promovidas ações de prevenção a acidentes e uso de álcool ao volante. Na Unesp, a pesquisa realizada ontem deverá embasar um mapeamento que irá subsidiar outros projetos de intervenção da universidade no combate e controle do uso de bebidas alcoólicas.

Movimento Saúde

Promovido há seis anos pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Dia do Alerta ao Consumo Abusivo de Álcool integra o Movimento Saúde, evento voltado à identificação e controle de doenças como obesidade, diabetes e hipertensão entre funcionários, alunos e professores dos campi da instituição em todo Estado. Todos os testes foram realizados no pátio da cantina do câmpus de Bauru, onde também foram oferecidas avaliações físicas, com a mediação de índice de massa corpórea (IMC), circunferência abdominal e pressão arterial.

Também houve exame de diabetes, avaliação psicológica com medição de ansiedade, orientação sobre nutrição e orientação sobre doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Após serem submetidos aos testes, os participantes ganharam caneca do movimento com direito a suco de laranja natural. O evento tem o empenho de professores e servidores das faculdades de Engenharia e Ciências, além do curso de Licenciatura em Educação Física e Psicologia.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)