Mistura de crack com outras drogas aumenta 504% em Ribeirão Preto

Folha de São Paulo
Depois de passar 20 anos viciado em “rebite” (metanfetamina), o ex-caminhoneiro Sebastião (nome fictício), 53, conheceu o crack por meio de um companheiro de bar.

Passou a beber ainda mais. Hoje faz terapia para se livrar da dependência do crack e também do álcool.

Casos como o de Sebastião mostram que o número de usuários de crack que também utilizam álcool e outras drogas atendidos no Caps-AD de Ribeirão Preto cresceu cinco vezes mais desde que o centro foi criado, em 1996.

Naquele ano, 27 pessoas que misturavam o crack com álcool ou outros entorpecentes buscaram o centro. Em 2010, foram 163 usuários de vícios combinados.

O fenômeno não é local. O uso de crack com álcool ou outras drogas começou a crescer há oito anos na capital e no Rio de Janeiro.

E a combinação pode tornar o efeito ainda mais devastador do que o crack sozinho, de acordo com a docente da Unifesp Solange Aparecida Nappo (leia texto abaixo).

EFEITOS DEVASTADORES

A mistura de drogas já é um problema, mas a combinação entre crack e álcool é uma das mais graves, segundo Solange Aparecida Nappo, docente da Unifesp e pesquisadora do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas).

“No fim das contas, o usuário associa duas dependências graves, que são muito mais violentas e danosas do que só o crack.”

A busca por outras drogas é um refúgio do usuário. De acordo com a especialista, o viciado logo percebe como o crack o deixa exposto ao risco.

Dizemos que o usuário de crack não morre de overdose, mas de tiro. Quer dizer, fica exposto à violência.”

Segundo a coordenadora do Caps-AD de Ribeirão, Gisela Oliveira Marchini, a ordem das substâncias nem sempre é a mesma. É comum usuários de outras drogas, como o álcool, conhecerem depois o crack.

“Como o efeito do crack é rápido, quando associado com outra droga, ele se prolonga mais”, diz a terapeuta ocupacional do Caps-AD Gisela Amorim Marques.

O ex-caminhoneiro Sebastião passa hoje a maior parte do seu tempo no Caps-AD. De segunda a sexta, das 9h às 16h, vê filmes e participa de oficinas. “Ocupa a cabeça da gente”, afirma.

O vício no crack começou aos 42, associado ao álcool. Somente decidiu buscar auxílio em janeiro de 2009, quando acordou amarrado a uma maca do HC, após ser encontrado desmaiado perto de uma boca de fumo.

Ele diz ainda sofrer recaídas, mas que está há quatro meses sem usar drogas. “Estou mais controlado hoje. Se eu continuar na droga, é cemitério mais cedo.”
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)