Cidades não têm estrutura para combater o crack e ajudar dependentes

Correio Braziliense
Os municípios brasileiros não têm estrutura para atender seus dependentes químicos. Essa é uma das conclusões do levantamento apresentado ontem pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), que mostra quadro assustador: somente 19% das cidades possuem Centros de Atenção Psicossocial (Caps), responsáveis pelas internações; e apenas 12,4% contam com conselhos antidrogas, que cuidam das políticas de enfrentamento locais.

Segundo a instituição, faltam políticas claras, incentivos e recursos dos governos estaduais e federal.

Para a professora de psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Fátima Sudbrack, a situação pode ser ainda pior, já que a presença do serviço não significa que os profissionais estão capacitados. Sudbrack acredita que é necessário capacitar médicos e outros profissionais de saúde — que também podem identificar o problema ainda no início dele. “O usuário está circulando nesses serviços. É preciso fazer uma atualização das equipes para reparar os indícios e receber esse público”, diz.

O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, aponta outra face preocupante da falta de estrutura para atender dependentes químicos. Segundo ele, os Caps existentes são conduzidos de uma maneira inadequada. “A maioria tem atendimento multisetorial, não é específico ao combate ao crack”, explica, referindo-se ao atendimento de pacientes com enfermidades mentais. De acordo Ziulkoski, o custo de manutenção dessas estruturas é alto e recai sobre os prefeitos, pois outras esferas federativas não assumem a responsabilidade. “As prefeituras é que estão na ponta, sofrendo as consequências dessa avalanche causada pela falta de prevenção”, critica.

Psiquiatra e membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), Carlos Salgado defende que a proliferação do crack na sociedade está aliada à deficiência da atenção em saúde do país. “Em dependência química, a falta de assistência está presente como um fenômeno que não acompanhou o crescimento do uso de drogas”, afirma. Ele defende que ações municipais devem estar baseadas em diretrizes de uma política federal. “Temos assistido apenas a ensaios para essas políticas de combate ao crack, que tendem a ficar no papel e sempre tropeçam no orçamento.” Salgado reforça que muitos dirigentes municipais ficam “pouco entusiasmados” na instalação de unidades de atendimento específicas pois sabem que não terão um respaldo financeiro para mantê-las.

Moradores de rua

A estrutura mais ausente nos municípios são os Centros de Referência Especializados da Assistência Social para a População em Situação de Rua. “É onde a demanda cresce cada vez mais. São as pessoas que já estão caindo, matando e roubando”, detalha Ziulkoski. Eles só existem em 1,6% das cidades. O serviço mais presente é o Conselho Tutelar (em 98,6% das cidades) e, segundo Ziulkoski, essa oferta se deve à pressão exercida pelo Ministério Público para o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê a existência dessa entidade. Também aparecem em maior quantidade (em 32,3% das cidades) estruturas de apoio não institucionais, como igrejas, instituições do terceiro setor e filantrópicas. Sudbrack vê com receio esse tipo de tratamento. “A questão tem que ser assumida pelo Estado porque envolve saúde pública. Pessoas que não têm convicções religiosas também têm direito a tratamento, e ele tem que ser isento”, justifica. A pesquisa consultou por telefone 4.430 municípios. Em uma segunda etapa, as prefeituras receberam senhas para alimentar, em tempo real, um formulário disponibilizado na internet sobre serviços prestados.

Dados precários no DF

O Distrito Federal foi consultado para responder aos questionários da Confederação Nacional de Municípios (CNM), mas não apresentou as informações. O CNM alega que tentou por três meses obter dados com a Subsecretaria de Política sobre Drogas (Subad), ligada à Secretaria de Justiça (Sejus), por meio de contatos telefônicos e e-mails. A Sejus diz que não recebeu nenhuma solicitação. “Não quero rotular como omissão, mas a verdade é que os dados não existem”, sustenta o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski.

O secretário de Justiça do DF, Alírio Neto, reconhece que não há dados sistematizados sobre crack, mas diz que fechou convênio com o Ministério da Saúde e a Fiocruz para a realização de uma pesquisa sobre o assunto com informações locais. Alírio Neto admite que o crack é um problema que já atinge diversos setores da capital do país, como a saúde, a assistência social e a educação. “O problema do crack e de outras drogas é transversal em qualquer sociedade”, afirma. O secretário lembra que os estragos físicos causados por esse entorpecente é maior do que o de outros e tem se espalhado rapidamente. Dados divulgados pela Sejus mostram que 24,4% dos usuários que procuram o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) da Rodoviária são dependentes do crack.

Segundo Paulo Ziulkoski, a ausência de informações sistematizadas prejudica a elaboração de um plano que possa orientar as ações na área de prevenção de uso e combate às drogas. “Esses dados deveriam estar concentrados em algum lugar. Mostra que falta uma estrutura que possa construir uma política local de enfrentamento”, critica.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)