Abuso de álcool na gravidez afeta cérebro de bebês

O Globo Online
O abuso do álcool durante a gravidez altera a composição genética dos cérebros dos bebês em gestação.

E as crianças nascidas de mães alcoólicas correm o risco de problemas que vão desde deficiências do sistema nervoso até a perda de audição e de visão, de forma persistente ao longo da vida. Embora as condições médicas causadas por consumo excessivo durante a gravidez estejam bem documentados, é a primeira vez que as mudanças genéticas são comprovadas por uma pesquisa em laboratório. O estudo foi feito pela equipe liderada pelo neurologista Jerold Chun, do Scripps Research Institute, na Califórnia, que investigou como o álcool afeta diretamente o cérebro de animais em laboratório.

Para comprovar danos cerebrais, os pesquisadores analisaram os números de cromossomos nas células cerebrais de fetos gerados por cobaias, antes e depois da exposição ao álcool. Eles partiram da comprovação de que a maioria das células cerebrais nas cobaias saudáveis ​​carregavam 40 cromossomos, sendo que cerca de um quarto dos neurônios mostravam “aneuploidia”, ou seja, tinham um pouco mais ou um pouco menos cromossomos do que o habitual. E de que o cérebro humano é um mosaico de neurônios similares que perderam ou ganharam uns tantos cromossomos

As implicações médicas deste amontoado de cromossomos ainda não são bem compreendidas pelos cientistas, mas algumas mudanças cromossômicas são conhecidas por ter efeito dramático no desenvolvimento do cérebro. Os problemas mentais causados por Síndrome de Down, por exemplo, são causados ​​por uma cópia extra do cromossomo 21.

_ A Síndrome de Down nos diz que há algumas aneuploidias que poderiam influenciar profundamente o funcionamento do cérebro _ disse Chun em entrevista ao jornal britânico The Guardian. _ Por isto, pensamos que as drogas e o álcool poderiam alterar o tecido do cérebro em desenvolvimento, o que se manifestaria mais tarde em diferentes tipos de deficiências.

No estudo, a equipe de Chun deu cobaias grávidas entre 3mg e 4.5mg de etanol para cada quilograma de peso corporal _ o equivalente a duas ou três garrafas de vinho para uma mulher de peso médio. O álcool foi injetado logo após as primeiras duas semanas de gravidez, quando o sistema nervoso dos fetos estavam começando a se formar. O efeito do álcool foi rápido e dramático: quando os cientistas examinaram os cérebros dos fetos, apenas um dia mais tarde, viram que havia um triplo aumento das aneuploidias graves, ou seja, do número de neurônios com mais de cinco cromossomos extras ou com cromossomos ausentes.

A alguns animais do estudo foram dadas altas doses de anfetaminas (10mg por quilograma de peso corporal), em vez de álcool, para ver se o abuso de drogas durante a gravidez também teria efeito perceptível sobre os cérebros dos fetos. Isso causou uma triplicação nas aneuploidias leves, o que envolveu a perda ou o ganho de menos de cinco cromossomos nas células cerebrais afetadas.

O estudo de Chun é o primeiro a mostrar que beber pesado e abuso de drogas na gravidez pode desencadear mudanças dramáticas a cromossomos no cérebro em desenvolvimento. No estudo, os animais receberam aquantidade de álcool, por injeção em dose única, ou seja, eles receberam o valor total do teor alcoólico instantaneamente. Por isto, a equipe agora investiga os efeitos do consumo repetido, em doses menores, mas sucessivas.

_ Este estudo representa uma base nova a pesquisa de funções neuronais alteradas, o que poderia contribuir para a prevenção de defeitos de desenvolvimento de fetos, vistos em modelos animais, que servem para pacientes humanos _ disse Chun, que apresentou seu trabalho em reunião da Society for Neuroscience, em Washington DC, no domingo.

Na etapa seguinte da pesquisa, a equipe de Chun esperar descobrir se alguns cromossomos são mais afectados do que outros e como também o cérebro repara danos genéticos. Os neurocientistas também investigam se as mudanças podem explicar problemas específicos de desenvolvimento e comportamentais observados em seres humanos.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)