Problemas de alcoolismo na terceira idade preocupam

Cruzeiro do Sul
Se alcoolismo já é assunto difícil, a complicação dobra quando os casos de abuso do álcool acontecem entre idosos.

Na terceira idade, quando são comuns os diagnósticos de hipertensão, diabetes e cardiopatias, a associação dos remédios ao álcool pode ser fatal. E ao contrário do que se imagina, de que o histórico de abuso do álcool vem de longa data, muitos começaram a beber depois de se aposentar. Em Sorocaba, das 743 pessoas que estão em tratamento em órgãos públicos para vencer a dependência química, 39 tem mais de 60 anos. Esse número representa 5,3% dos usuários atendidos. Parece pouco e de fato é mesmo. Porém, isso não significa que são poucos os que sofrem com o problema, mas sim que procuram ajuda. Apesar de não ter aqui no município nenhuma pesquisa sobre o assunto, estatísticas levantadas em São Paulo e em outras cidades apontam que cerca de 9% da população de idosos é dependente química e entre eles 90% dos casos é de abuso do álcool. Na capital, esse número representa 88 mil pessoas. A tendência é que o número aqui em Sorocaba acompanhe os dados de outros municípios brasileiros. Do total de 64.362 idosos (IBGE de 2010) que residem na cidade, é possível que em torno de 5.800 sofram com o problema.

Por experiência de anos de trabalho, o que se sabe é que em Sorocaba, depois do álcool, em segundo lugar a droga mais usada é o tabaco, em seguida a maconha e em quarto lugar a cocaína, conforme disse a psiquiatra especialista em dependência química Maria Clara Schnaidman Suarez, presidente do Conselho Municipal sobre Drogas e Coordenadora Municipal de Saúde Mental.

Ainda de acordo com Maria Clara, a proporcionalidade de drogas ilícitas em qualquer faixa etária obedece o mesmo ranking: maconha, cocaína e crack (que seria o LSD da adolescência de antigamente). “Tanto o ecstasy quanto o LSD são drogas de balada, pouco usadas no nosso país. Costumamos dizer que são drogas de situações, consumidas sempre dessa maneira, em danceterias, raves, não são como as outras que as pessoas compram para usar em casa. Não tem graça usar ecstasy ou LSD sozinho, tem de ser em algumas situações e em grupo, ao contrário do crack, que o usuário não gosta de compartilhar. Aliás, no caso de álcool, cocaína, maconha e crack, quanto mais comprometida a pessoa está, mais sozinha ela usa”, explica Maria Clara.

No caso específico do álcool, os homens ainda bebem por questão de comportamento, autoafirmação. “Muitos ainda pensam que quem é homem bebe. O adolescente também pensa que fica “macho” depois que bebe. E quando o pai é alcoolista leva o filho com ele para o bar”, diz.

Maria Clara explica que o álcool abaixa muito a tolerância do indivíduo. Segundo estatísticas, a maioria dos casos de violência doméstica, 70 a 80%, é ocasionada por uso de bebida alcoólica. As outras drogas ficam em segundo lugar. “Quem bebe não admite que está alterado, acredita que sempre tem razão e sente um ciúme exagerado porque o álcool o torna impotente, então ele tem a certeza de que a companheira o está traindo. Por isso a agressão ocorre antes que a esposa reclame que ele bebeu”.

Pelo fato de ser uma droga lícita, quem exagera no consumo não se considera dependente químico, aliás a dificuldade começa aí, em identificar o que seria exagero pois a maioria dos alcoólatras não acha que passou dos limites, só vai perceber depois da perda: da saúde, do respeito da família, do emprego. Sem mencionar as tragédias quando associado ao volante.

A procura pelo tratamento raramente é iniciativa própria e sim da família. “O dependente procura ajuda não porque bebe, mas porque tem problemas no fígado, dores nas pernas, ou seja, pelos problemas clínicos”, observa Maria Clara.

Quando o ato de beber se torna um hábito, o discurso é sempre o mesmo. “Eles costumam repetir que bebem porque gostam, porque merecem, é só pra relaxar pois trabalharam a semana inteira, ou porque já se aposentaram, raramente pensam nas consequências dessa atitude, ainda mais porque a abstinência do álcool é muito sofrida, eles vêem como a perda daquilo que sentem prazer”, diz.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, o álcool é responsável por 3,2% de todas as mortes registradas anualmente. O efeito devastador sobre a saúde consome 4% dos anos de vida útil. Na América Latina, esse desgaste chega a 16%. Uma projeção do Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE) mostra que o brasileiro pode viver até 72 anos, em média. Não é o caso de quem abusa do álcool desde jovem: a doença abaixa a expectativa de vida para 60 anos.

Problema ampliado

O alcoolismo em pessoas acima dos 60 anos amplia em até oito vezes o desenvolvimento de doenças cognitivas como demência e alzheimer, além disso, pode trazer outras consequências, como o aparecimento de doenças cardíacas (insuficiência, arritmias), gastrointestinais e hepáticas; e também de alguns tipos de câncer, quedas e aumento de pressão arterial, conforme estudo divulgado pelo Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e outras Drogas de Ribeirão Preto.

Ao contrário do que se pode pensar, uma boa parte dos idosos com problemas de alcoolismo não começou a beber na juventude, mas depois da aposentadoria, como explica o médico geriatra Vicente Spínola Dias Neto, coordenador da Medicina do Idoso na PUC-SP e da Liga de Geriatria de Sorocaba. “Muitos são os que acabam se tornando dependentes químicos na terceira idade. Geralmente começa numa época de perda, ou de poder financeiro por causa da pouca remuneração da aposentadoria, ou por falecimento do cônjuge e de amigos. Nesses casos o mais importante é o tratamento não-medicamentoso, que seria socializar essas pessoas”, esclarece.

Socializar, aliás, é a palavra-chave quando se trata de idosos, já que muitos sofrem com a negligência por parte da família, que não dá atenção e os deixam cada vez mais isolados. “Aqueles que frequentam os bailes da terceira idade representam uma minoria. Cerca de 90% dos velhos não tem atividade nenhuma. E a depressão também leva ao alcoolismo”, acrescenta.

Conforme o médico, aos 65 anos, uma pessoa tem, em média, três tipos de doenças. Quando chega aos 80 anos, a média é de cinco doenças. “Ou seja, o corpo já não é mais o mesmo e a bebida acelera a degeneração. E é importante que se registre que uma parcela grande da população de idosos ingere bebida alcoólica, mas infelizmente poucos são os que procuram tratamento”, revela.

A dificuldade de se encarar o alcoolismo como doença é um dos fatores que inibe a busca de ajuda. “No idoso, até mesmo a síndrome da abstinência é diferente, por isso há alguns remédios que ajudam a evitar as sensações desagradáveis da falta de álcool no organismo”, diz.
Como se sabe, um dos perigos para os idosos são as quedas, que facilmente ocorrem com o abuso do álcool. “As quedas são potencialmente fatais na terceira idade. Outro ponto a ser destacado é que a bebida tira o apetite, a pessoa deixa de se alimentar e isso é muito perigoso pois o velho já não tem muita reserva de açúcar no organismo, o que pode causar uma hipoglicemia. Para se ter ideia, uma pessoa de 80 anos tem 40% menos de células do fígado e músculos. Dos 60 aos 80 anos, por exemplo, é reduzida pela metade a velocidade para caminhar. Não tem jeito. Envelhecer é perder reservas, então você tem cada vez menos capacidade para enfrentar insuficiências do corpo”, esclarece o médico.

Uma das preocupações de Vicente Spínola é a falta de estudos mais específicos voltados à população idosa. “Precisava ter mais trabalhos científicos sobre o assunto, como por exemplo em relação à sexualidade no idoso, que vai até o fim da vida, e também sobre a questão da morte, como eles lidam com o assunto. Esse tipo de trabalho é raro”, lamenta.

Histórias de vida

Luiz Paulino da Silva tem 60 anos e conta que começou a beber aos 15. “Meu pai bebia e eu tomava uma gotinha escondido. De gole em gole, viciei”, afirma. Um dia, Luiz caiu na rua e foi acordar no Hospital Teixeira Lima. “Na época eu tinha uns 40 anos e quando a pessoa bebia era internada lá”, recorda.

Ele afirma que entre os exageros que cometeu, chegou a tomar 10 doses de pinga com piper antes do almoço. Depois de 14 dias internado, Luiz recebeu alta. Voltou para casa bravo. “Fiquei revoltado, mas depois de tanto sofrimento comecei a me tratar no Ambulatório de Saúde Mental da Prefeitura. Fiquei cinco anos lá”.

Quando inaugurou o Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas – Caps AD (trabalho resultado de parceria entre Prefeitura e SUS), Luiz não queria ser encaminhado para lá de jeito nenhum. “Acabei aceitando fazer o tratamento no Caps e faz cinco anos que não bebo”, orgulha-se.

Luiz, que não casou, chegou a mentir que havia bebido para não ter alta. “Acostumei a ir ao Caps, sei lá. Superei a bebida e devo muito a eles. Posso dizer que acabaram as encrencas na minha vida, os empréstimos que eu fazia para continuar bebendo”.

Assim como Luiz, Gentil Ribeiro Santos também teve problemas com o álcool, mas ao contrário do colega, ele começou a beber com mais idade. “Eu já tinha 62 anos”, conta.

Gentil começou a beber com frequência quando trabalhava em um frigorífico. “Eu tinha de entrar nas geladeiras e então tomava um “trem” para aguentar a friagem. Foi assim que peguei o costume”, lembra.
Ele afirma que já não tinha mais apetite e queria só beber. “Fiquei todo variado, então minha saudosa esposa falou que eu tinha de fazer um tratamento. Alguns conhecidos falaram do Caps e foi assim que apareci”.

Atualmente com 71 anos, Gentil sente-se feliz por ter superado o vício, há um ano e seis meses. “Quanto mais a pessoa puder lutar para melhorar, é melhor”, filosofa.

Dagmar Costa Branco dos Santos ainda não chegou aos 60 anos, mas é uma das poucas mulheres que assumiram o vício e conseguiram procurar ajuda. Ela tem 54 anos e confessa ter se tornado dependente do álcool com pouco mais de 20 anos. “Eu achava que bebia como todo mundo, tem esse negócio de beber socialmente, né? Mas confesso que comecei a beber em casa, depois de casada”, diz.

O marido mantinha um barzinho em casa e Dagmar aproveitava para se servir. “Sabe aquela história de que todo bêbado fica valente e vira cantor? Então, meu negócio era beber e brigar. Ficava violenta mesmo. Cheguei a bater na cara de vizinho e fui internada duas vezes”, recorda.
Mãe de cinco filhos, Dagmar conta que os próprios filhos juntamente com o marido chegaram a chamar a guarda municipal para levá-la. “Fui de camisa de força e tudo e só acordei depois de dois dias no Hospital Mental”, diz.

Em uma de suas bebedeiras, Dagmar chegou a se cortar com uma faca que ela mesma havia pegado para brigar. “Por um milímetro teria cortado o tendão e perdido o movimento do braço”, lembra, impressionada.

Quando se separou do marido, Dagmar enfrentou mais uma crise. “Se eu não tivesse dinheiro para cerveja tomava pinga ou o que fosse: perfume, álcool de limpeza, acetona… Fui parar no Hospital Regional, que me encaminhou ao Caps, há quase dois anos. No Caps o atendimento é completamente diferente dos hospitais, é como uma família, é muito bom”, elogia.

Dagmar participa de oficinas de artesanato e de geração de renda no Caps e mantém uma barraquinha próximo à feira, onde vende seus produtos. “Muitas pessoas tem vergonha de assumir, mas é preciso procurar tratamento. Chega uma hora que dá um desespero, parece que não vai ter solução e tem”, recomenda.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)