América Central: Drogas sintéticas se proliferam

América Latina é um dos mercados emergentes da produção e consumo desse tipo de entorpecente, segundo relatório da ONU.
Por Abigail Hernández e Antonio Ordóñez para Infosurhoy.com—16/11/2011

Drogas sintéticas, como o ecstasy, desbancaram a cocaína e a heroína em todo o mundo, ocupando o segundo lugar entre os narcóticos mais usado, atrás somente da maconha, de acordo com relatório do UNODC. (Koen van Weel/Reuters)

MANÁGUA, Nicarágua e CIDADE DA GUATEMALA – O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNDOC) enviou uma mensagem muito clara para a América Central: a região precisa fazer mais para deter o aumento do tráfico e consumo de drogas sintéticas.

A questão é que o uso desses entorpecentes, como LSD, anfetaminas e ecstacy, superou o de cocaína e heroína no mundo, sendo agora o segundo tipo de narcótico mais usado, atrás apenas da maconha, segundo um relatório do UNODC.

A edição de 2011 do Relatório Mundial sobre Drogas do órgão, que classifica Holanda e Mianmar como os principais produtores mundiais de estimulantes à base de anfetaminas, afirma que esses entorpecentes também estão sendo produzidos em países das Américas Central e do Sul, como Brasil, Argentina, Guatemala, Nicarágua e Suriname.

“Uma apreensão recorde em seis laboratórios foi notificada em 2009, incluindo dois laboratórios de metanfetamina no Brasil e na Nicarágua, um laboratório de ecstasy no Brasil e três que produziam os dois tipos de droga na Guatemala”, diz o documento.

Mas as autoridades centro-americanas já estão dimensionando o problema.

O chefe de investigações sobre entorpecentes da Polícia Nacional da Nicarágua, Esteban Guido, afirmou que cartéis de drogas estabeleceram presença em diversos países da América Central, o que demonstra a vulnerabilidade da região.

“Cartéis novos e emergentes estão se formando e transportando pequenas cargas [de drogas sintéticas], porém com mais frequência”, observa Guido. “[Descobrimos] laboratórios centro-americanos nos quais se produzem drogas sintéticas – como, por exemplo, anfetaminas. Essa é uma das formas que o crime organizado mexicano encontrou para [diversificar e] apoiar seus negócios.”

Uma ameaça à região

Um total de quase 383 kg de efedrina foi apreendido no mundo em 2007. Dois anos atrás, esse volume saltou para mais de 10 t, segundo o UNODC.

De Fernando Borge, relações públicas da Polícia Nacional da Nicarágua: “Podemos afirmar que não encontramos grandes instalações produtoras de drogas sintéticas na Nicarágua.” (Abigail Hernández para Infosurhoy.com)

Na América Latina, as apreensões de drogas sintéticas atingiram o pico em 2007, quando quase 622 kg foram confiscados. Conforme o UNODC, o volume caiu para cerca de 243 kg em 2009.

Embora reconheçam a existência de laboratórios clandestinos, Nicarágua e Guatemala reiteraram que seus países não são grandes produtores de drogas sintéticas.

Autoridades guatemaltecas desmantelaram pelo menos seis laboratórios este ano.

“As instalações localizavam-se na fronteira com o México, o que nos leva a crer que o país vizinho seria o destino da produção”, afirmou o vice-ministro da Segurança do país, Mario Castañeda.

De janeiro a junho de 2011, a polícia da Guatemala incinerou mais de 7,8 t de pseudoefedrina, substância utilizada na produção de drogas sintéticas, com valor de 9,73 milhões de quetzales (cerca de R$ 2,2 milhões). No mesmo período, as autoridades queimaram quase 6 t de cocaína e mais de 1,4 t de maconha.

“Essas apreensões indicam a presença [de organizações que traficam essa droga]”, comentou Castañeda. “Estamos muito preocupados com o grande influxo de drogas precursoras, um sinal de que descobriremos mais laboratórios.”

Na Nicarágua, três laboratórios produtores de anfetaminas foram destruídos nos últimos cinco anos.

“Podemos afirmar que não encontramos grandes instalações produtoras de drogas sintéticas na Nicarágua”, afirmou o relações públicas da Polícia Nacional da Nicarágua, Fernando Borge. “Desmantelamos laboratórios, mas nenhum deles é comparável aos encontrados em outros países, onde há ferramentas e suprimentos usados na fabricação desses narcóticos. Graças ao trabalho árduo da corporação e da comunidade, [os laboratórios] não se transformaram em grandes centros produtores.”

Em 2010, a Polícia Nacional da Nicarágua descobriu o maior laboratório de drogas sintéticas de sua história em Villa El Carmen, na zona nordeste de Manágua. Na operação, foram encontrados 770 g de anfetaminas, mas o laboratório tinha material suficiente para produzir cerca de 80 kg da droga.


De Mario Castañeda, vice-ministro da Segurança da Guatemala: “Estamos preocupados [com o tráfico de drogas sintéticas], porque se trata de substâncias com alto potencial de dependência química.” (Antonio Ordóñez para Infosurhoy.com)

Um mexicano e dois guatemaltecos foram presos e outros suspeitos fugiram durante um tiroteio.

“Salientamos que, nos casos dos três laboratórios, os envolvidos eram nicaraguenses ligados a estrangeiros, para os quais trabalhavam como guardas e motoristas”, disse Borge.

Em 2008, a polícia nicaraguense apreendeu um carregamento da América do Sul destinado à América do Norte com quase 98 kg de anfetamina em comprimidos de valor estimado em US$ 4,438 milhões (R$ 7,855 milhões).

Um comprimido de anfetamina, segundo informações da Polícia Nacional da Nicarágua, é vendido a US$ 20 (R$ 35) no mercado negro.

El Salvador, Belize e Costa Rica têm um alto nível de uso de drogas sintéticas entre a população de 15 a 64 anos (3,3%, 1,4% e 1,3%, respectivamente), de acordo com o UNODC.

Na Guatemala, o governo registrou um aumento do consumo desse tipo de droga, sobretudo entre os jovens.

“Estamos preocupados, porque se trata de substâncias com alto potencial de dependência química”, disse Castañeda.

O delegado Sérgio Luiz Queiroz Sampaio da Silveira, do Serviço de Análise de Dados de Inteligência Policial (SADIP) da Polícia Federal brasileira, afirmou que os efeitos colaterais do uso de drogas sintéticas são hipertensão, taquicardia, aumento da frequência respiratória e hiperatividade. Essas reações podem causar problemas cardiovasculares e respiratórios graves e até levar à morte.

As drogas sintéticas também podem causar degeneração dos neurônios e gerar sérios problemas cognitivos, segundo a Polícia Federal brasileira.

Em abril de 2009, o ministério da Saúde da Guatemala tornou ilegal a posse, o uso, a venda e a expedição de quaisquer produtos contendo pseudoefedrina.

O Brasil aprovou uma lei semelhante, proibindo os inibidores de apetite à base de anfetaminas.

Contudo, a legislação guatemalteca não proíbe a venda de precursores dessas drogas, como o ácido fenilacético e a acetona, entre outros.

Colaborou a correspondente Cristine Pires, de Porto Alegre, Brasil.
Fonte:Infosurhoy.com