Operação anticontrabando leva 29 policiais para a cadeia no PR

Polícia Federal desarticula quadrilha que trazia mercadorias ilegais do Paraguai com a conivência de policiais. Ao todo, 108 mandados de prisão foram expedidos
DENISE PARO, DA SUCURSAL, DIEGO RIBEIRO, KATIA BREMBATTI E ELISA LOPES, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO

Pelo menos 29 de 43 policiais acusados de cobrar propina para liberar veículos carregados com mercadorias contrabandeadas do Paraguai foram presos pela Polícia Federal (PF), ontem, no Paraná e em mais cinco estados durante a Ope ração Láparos. A ação, desencadeada por 560 agentes da PF, também resultou na prisão de pelo menos 40 contrabandistas ligados a 16 quadrilhas, a maioria responsável pelo transporte ilegal de cigarro do Paraguai para o Brasil. Foi a maior ação da história para prender policiais no Brasil.

Ao todo foram expedidos 108 mandados de prisão e 150 de busca e apreensão pela Justiça Federal em Guaíra e Umuarama (Oeste do estado). Entre os mandados expedidos, 13 eram para a detenção de policiais civis, 29 militares e um policial rodoviário federal.

Histórico

Relembre outros casos que envolveram a prisão de policiais no Paraná:

Junho de 2005 – A PF e a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) desencadeiam a operação Tentáculos. Nove policiais militares são presos por envolvimento no assassinato do major Pedro Plocharski, comandante do 13º Batalhão da Polícia Militar, e em ações do crime organizado.

Março de 2008 – 44 policiais e três políticos da Região Noroeste do estado são presos por suspeita de participação num esquema de contrabando de cigarros e produtos eletrônicos vindos do Paraguai. No entanto, a maioria dos policiais é solta por falta de provas. Os pedidos de prisões haviam sido decretados pelo juiz federal Jail Benites Azambuja, acusado de forjar um atentado contra si próprio.

Março de 2009 – O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com apoio da Sesp, prende 10 policiais civis da delegacia do Alto Maracanã, em Colombo, suspeitos de extorquir traficantes da região.

Abril de 2010 – Trinta pessoas em Foz do Iguaçu são suspeitas de integrar uma rede que exigia propina de contrabandistas para liberar a entrada de mercadorias no país. Entre os detidos estão 13 policiais civis e um guarda municipal.

Junho de 2011 – O crime do Morro do Boi volta à cena com revelações sobre uma trama para inocentar o homem condenado pelo ataque a um casal de namorados em Matinhos. Seis policiais são presos pelo Gaeco.

De acordo com o último balanço da operação, divulgado por volta das 18 horas, 14 policiais continuavam foragidos. Das 69 prisões, 36 ocorreram em Guaíra, 17 em Cascavel, oito em Maringá, cinco em Londrina e três em Foz do Iguaçu. A operação contou com o apoio do Ministério Público do Paraná, da Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Corre gedoria Regional da Polícia Rodoviária Federal.

Segundo as investigações da PF, que duraram 14 meses, os policiais envolvidos com as quadrilhas atuavam em rodovias, estradas rurais e vias secundárias das Regiões Oeste, Noroeste e Norte do Paraná. Eles liberavam veículos carregados principalmente com cigarros e agrotóxicos, fora e durante o horário de expediente. Os produtos eram transportados via Lago de Itaipu e depois colocados em caminhões e automóveis para serem vendidos em outros estados. “Eles aproveitavam o movimento de contrabando na região para solicitar vantagens indevidas”, explicou o delegado responsável pelas investigações, Fábio Tamura.

Os policiais também repassavam às quadrilhas informações sobre eventuais ações da PF para coibir o contrabando, prejudicando o trabalho da corporação, segundo Tamura. A maior parte dos policiais detidos trabalhava na cidade de Assis Chateaubriand, no Oeste do Paraná. Conforme o delegado, alguns policiais recebiam propina por mês e outros ganhavam a cada carga liberada. A polícia não informou quanto eles cobravam. Os veículos usados pela quadrilha eram adquiridos em nomes de laranjas que fraudavam contratos.

Mandados

Até o fim da tarde de ontem, nem todos mandados de prisão haviam sido cumpridos, mas as buscas continuavam. Um balanço oficial da operação deve ser divulgado somente hoje pela PF.

A investigação que resultou nas prisões começou há um ano e dois meses. Neste período, a PF já havia prendido 202 pessoas e apreendido mais de 3 milhões de pacotes de cigarros, além de 6,5 toneladas de agrotóxicos, 109 caminhões, 76 automóveis e 13 embarcações.

O Paraná foi o epicentro da operação, que incluiu ações em 38 cidades. A polícia também efetuou mandados em Curitiba e nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rondônia e Mato Grosso.Os presos vão responder pelos crimes de contrabando e corrupção policial.

Investigação

“Provas são muito contundentes”

O superintendente da Polícia Federal no Paraná, José Alberto Iegas, disse ontem que as investigações da Operação Láparos devem seguir adiante para tentar encontrar outros agentes de segurança policiais envolvidos no esquema de contrabando. “É difícil imaginar que só soldado ou investigador leve dinheiro nesse esquema. Vamos investigar participação de outros policiais”, afirma ele.

De acordo com Iegas, as provas produzidas durante a apuração são bastante consistentes, além de testemunhos dos envolvidos. “Há interceptação telefônica, flagrantes, muita coisa”, conta. A maioria dos detidos foi encaminhada para um presídio em Francisco Beltrão, no Sudoeste do estado. Já os PMs foram entregues às suas corporações e os policiais civis seriam levados para Curitiba.

Dos 15 servidores que trabalhavam na delegacia de Assis Chateaubriand, 12 foram presos. Sete deles são policiais civis de carreira e os outros seis são comissionados, mas se apresentavam como policiais, segundo a PF. Um policial militar foi preso na região de Curitiba. Ele fazia um curso na Academia Policial Militar do Guatupê, em São José dos Pinhais.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas