Fantasma do crack assombra 102 cidades

Diário Web – Notícias
Graziela Delalibera

O crack está presente em pelo menos 102 municípios da região Noroeste do Estado de São Paulo. Pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) mostra que 72,5% dessas cidades têm níveis de consumo alto e médio da droga (veja quadro), o que acarreta sérios problemas, que vão desde falta de leitos para internação e ausência de profissionais especializados, até aumento da criminalidade, baixo rendimento e evasão escolar, e abandono da vida familiar e social.

“Há uma epidemia de crack em todo o interior do Estado e os municípios não possuem preparação adequada para tratar o dependente, e nem para atuar na prevenção”, alerta o promotor criminal de Rio Preto, José Heitor dos Santos, que defende a internação compulsória (contra a vontade do paciente) para adolescentes usuários de crack. Por meio de ações na Justiça, o promotor conseguiu, ano passado, forçar a prefeitura de Mirassol a pagar tratamento a pelo menos onze menores em clínicas particulares de outras cidades.

A cidade é uma das que aparece entre os 25 municípios da região com nível de consumo alto de crack. Maria José Sachi Imbernon, diretora do departamento de Ação Social de Mirassol, afirma que os problemas relacionados ao uso da droga refletem nos tipos de atendimentos na área social. Ela cita, por exemplo, casos de violência doméstica e de situação de rua.

A psicóloga Armida Rahd Jacob, que atua com tratamento de dependentes químicos, afirma que, de todas as drogas, o crack é a mais perversa, por ser fácil de obter e ilusoriamente mais barata. “Por ser inalada, ela atinge diretamente o pulmão e o cérebro em cerca de oito a dez segundos. Como o efeito é rápido, o usuário quer consumir cada vez mais para manter a sensação de prazer constante.” O usuário se torna dependente em menos de cinco vezes de consumo, segundo a especialista.

O estudo da CNM, que leva o nome de “Presença do Crack nos Municípios Brasileiros”, ouviu gestores para uma avaliação sobre o nível de consumo do entorpecente em seus municípios, e para que o classificassem em alto, médio ou baixo. Isso levando em conta problemas que a droga acarreta, nas mais variadas áreas, como Educação e Saúde. Entre 4.430 municípios pesquisados, o consumo do crack é um problema citado por 90,7% deles.

Com apenas 9.976 habitantes, Guaraci é uma das cidades da região que tem nível de consumo alto da droga, o que, segundo o prefeito, Renato Azeda Ribeiro de Aguiar, refletiu diretamente no aumento da criminalidade, principalmente pequenos roubos e furtos. “Fizemos reuniões com as polícias Civil e Militar para inibir o tráfico e recentemente foram desencadeadas uma série de ações”, diz. A cidade não possui estrutura para tratar seus usuários e o prefeito afirma que os casos são encaminhados pela equipe da Assistência Social para cidades vizinhas.

Comunidade ‘limpa’ vício

Depois de passar quase uma vida inteira nas ruas envolvido com as drogas, Pedro Paes de Almeida, 50 anos, se viu limpo há oito anos e há dois abriu uma comunidade terapêutica em Rio Preto, a Luz do Mundo, onde, segundo ele, já se internaram cerca de 200 usuários de crack. “Como na época que precisei tive ajuda, nasceu em mim a vontade de ajudar os que precisam sair desse vício.”

No local, atualmente 30 usuários de crack tentam se libertar da droga. Além de Rio Preto, a casa recebe dependentes de outras cidades da região. F.R.S., 35, foi expulso de casa pela mulher depois de várias vezes ter deixado de comprar comida para seus quatro filhos. Há seis meses, ele espera a recuperação e faz tratamento na comunidade. “Tenho um objetivo definido. Quando entrei, vim com vontade de sair bem, de poder ver meus filhos. Já fui preso duas vezes. Não quero isso pra mim nunca mais”, diz ele, que conheceu a pedra aos 12 anos.

J.B., 25, começou a ter contato com as drogas sob a influência da própria família. Aos 23, conheceu a “pedra” e gastava todo o seu salário com a droga. “Quando usava, sentia uma sensação de paz, parecia que estava em outro lugar. Usava para me esconder dos problemas. Não me importava com o que comer, o que vestir, o importante era ter a pedra”, diz ele, que passou por internação na Luz do Mundo, onde agora trabalha como monitor.
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas