Contra o crack: resgate para a vida

A Gazeta
Aos 18 anos, Mikon Geraldo de Souza já pode dizer que tem uma vida repleta de experiências. A maior parte delas negativas, é verdade: entregou-se ao crime logo cedo; roubou para sustentar o vício do crack; fugiu da casa que dividia com os pais e sete irmãos; morou dentro de um carro; e agora espera o nascimento do primeiro filho.

Do inferno ao céu em menos em três meses, hoje ele evoca o nome do Senhor para comemorar a nova vida, que começou no último 25 de agosto. “Foi quando eu aceitei a proposta para me curar”, lembra.

Mikon se refere à abordagem da Frente de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, criada pela Prefeitura de Vila Velha e que nos últimos 90 dias aponta ter retirado, além do garoto, outros 54 dependentes que vagavam pela cidade.

Eles foram encaminhados a programas de reabilitação. Lá, a recuperação é apadrinhada por igrejas católicas, evangélicas e entidades espíritas. Grupos que formalizaram parceria com o município.

O tratamento dura aproximadamente 120 dias e é feito em seis comunidades terapeuticas. Quatro ficam em Vila Velha, uma em Viana e outra em Cariacica. Aos patrocinadores cabe um custo médio mensal
R$ 800 por usuário

Convencimento

Ledir Porto, secretário de Defesa Social do município, esclarece que as abordagens usam apenas do convencimento para fazer acolhida. “Mais da metade dos atuais internos não aceitou na primeira tentativa, mas nos procurou depois”, garante.

Ele lembra que a frente foi criada graças a uma parceria entre as policias Civil e Militar, o Corpo de Bombeiros, a Vara da Infância e da Juventude e o Ministério Público Estadual. A iniciativa, segundo o secretário, vai muito além do tratamento e da prevenção.

“Trabalhamos em duas outras frentes: a recuperação de áreas abandonados e o enfrentamento do tráfico, através de uma ação integrada com as policias”, detalha Porto.

As abordagens, que são quinzenais, devem se tornar diárias já no próximo sábado, em áreas consideradas críticas, como a Avenida Luciano das Neves e terrenos de Divino Espírito Santo.

Hoje, segundo cálculo estimado do secretário, o município tem 300 moradores de rua. Cerca de 90% é dependente de crack. Em cada uma das seis comunidades terapeuticas, são 30 vagas à espera desse público.

Internação compulsória em 2012

Até o final do primeiro semestre de 2012, a Prefeitura de Vila Velha pretende retirar das ruas, de forma compulsória, aquele os usuários de crack que apresentem mais alto grau de dependência, além das mulheres grávida.

A medida será cumprida quando houver solicitação médica de um psiquiatra e autorização da Justiça. Eles deverão passar pelo menos 15 dias nas clínicas. Após esse período, vão poder optar por permanecer com o tratamento ou não.

“Nós entendemos que essa é uma necessidade. O crack já se tornou um caos nacional”, aponta o secretário de Defesa Social do município, Ledir Porto.

Outra medida a ser adotada pelo município – essa até o fim de fevereiro -, é a inauguração de consultórios móveis para atender grupos de risco. A ideia é manter dois carros circulando por Vila Velha. Eles terão uma equipe multidisciplinar composta por enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e um psiquiatra, para executar as ações de resgate.

a Capital, tratamento não é obrigatório

No município de Vitória, os moradores de rua que aceitam receber um tratamento de desintoxicação são encaminhados para o Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos (CPTT). O encaminhamento, porém, não é feita de forma obrigatória.

O coordenador do Serviço de Abordagem Social, Cristiano Luis Ribeiro Araújo, aponta que o município segue uma normativa do Conselho Estadual de Direitos Humanos que contraria o recolhimento compulsório das pessoas.

O trabalho de abordagem de rua é feito por 20 profissionais de nível superior, das 8h às 0h, diariamente – inclusive sábados, domingos e feriados.

Em 2010, 605 novos pacientes procuraram os serviços do CPTT para tratar o vício em álcool, crack, cocaína e outras drogas.

Dono de uma carreira acadêmica marcada por pesquisas que debatem o uso de drogas em uma sociedade de consumo, o psicólogo, antropólogo e doutor em Ciências Sociais Tom Valença, natural da Bahia, é o palestrante de amanhã do movimento Pacto Pela Paz Contra o Crack, promovido por A GAZETA.

Confira sua opinião sobre o assunto:

Trata-se de epidemia?

Eu não gosto desse termo. Epidemia se refere à doença contagiosa. Os dados mais marcantes de usuários de drogas ainda estão relacionados ao álcool e fármacos. Mas o crack tem mais visibilidade. Quem está em uma cracolândia tem mais atenção. Existe um problema sério, mas não podemos pensar como epidemia.

Os efeitos são piores do que outras drogas?

Os efeitos acabam sendo piores, porque estamos menos potencializados para lidar com esse problema, já que trata-se de um fenômeno novo e recente. Tanto médicos, psicólogos e agentes de segurança tem uma visão muito limitada sobre o assunto.

Como mudar?

Não existe nenhum antropólogo atuando nos centros de recuperação. A presença deles é fundamental para ampliar a visão clínica de cada usuário. Ele vai entender o estilo de vida do grupo para dizer qual a característica do problema e tentar resolvê-lo.

O que motiva o uso do crack?

São inúmeras os motivos. E é aí que entra a antropologia. Para descobrir isso. Não para generalizar. Nós estamos em uma sociedade de consumo. Quem não é feliz não é ninguém. Nossa cultura ensina as pessoas a consumirem o que estiver ao alcance para buscar a felicidade. Isso, às vezes, é muito cruel com quem tem menos informação.

Qual sua opinião sobre as abordagens compulsórias?

A internação compulsória leva os indivíduos para uma comunidade terapêutica, geralmente de cunho religioso. Ali há uma metodologia de fé. Na prática, isso representa uma lavagem cerebral. Ninguém sai dali curado, mas sim isoladas, sem preparação para a reinserção social. As recaídas são inevitáveis.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)