Metanfetamina invade a noite de São Paulo

Diário de São Paulo
O entorpecente, já está circulando nas baladas paulistanas em forma de comprimido, pedra ou de um cristal.

Ela é tão ou mais devastadora do que o crack e já está chegando em São Paulo. Pior, a metanfetamina, também conhecida como ice ou cristal, não está na lista de drogas ilícitas no Brasil. O entorpecente, que pode ser encontrado em forma de comprimido, pedra ou de um cristal, já está circulando nas festas de alta classe e na noite paulistana. O Denarc (Departamento de Investigações Sobre Narcóticos) já fez sete apreensões da droga na capital e em São Bernardo do Campo, no ABC, desde março.

A maior preocupação é de que alguns comprimidos foram encontrados pela polícia em pontos de vendas de drogas comuns. “Eles foram apreendidos com ecstasy e em local onde se vende maconha e cocaína. Se for disseminada, é um perigo”, disse o delegado Reinaldo Correa, do setor de prevenção do Denarc.

O policial revelou que nos Estados Unidos há 13 milhões de viciados em ice, droga que substituiu o crack nas terras do Tio Sam. “Cerca de um milhão de viciados estão em situação crítica de saúde”, contou o delegado. Segundo o chefe do setor de prevenção do Denarc, o ice foi trazido por americanos e distribuído na Parada do Orgulho Gay. “Um comprimido tem sido vendido por R$ 70 e até por R$ 200. Geralmente, o ice circula em festas patrocinadas por mauricinhos. A droga vem de fora do país. Nós não temos relatos de produção dentro do estado de São Paulo”, disse Reinaldo Correa.

Ele informou que a Polícia Rodoviária Federal fez uma apreensão em maio, de 2,5 kg de metanfetamina, no Mato Grosso do Sul. “(A droga) vinha com um carregamento de pasta base de cocaína. Temos 16.800 quilômetros de fronteira e 21 postos policiais para fiscalizar tudo”, ressaltou.

Armadilha de prazer
Se a metanfetamina (ice) for fumada, os efeitos produzidos são de intensos prazeres, segundo a pesquisadora Solange Nappo, do Departamento de Psicobiologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “(Ela) produz imensa euforia, aumento do estado de alerta, da autoestima, da sexualidade e diminuição da fome, do cansaço e da necessidade de dormir”, relatou Solange.

Esses efeitos parecem ser desejáveis e controláveis, mas a droga tem um enorme potencial de dependência e a “fissura” instala-se rapidamente. É comum o usuário que faz uso compulsivo apresentar hiperatividade com desenvolvimento repetitivo, por horas, de certas atividades sem significado, às vezes acompanhada de ranger de dentes, movimentos involuntários convulsivos movimentos faciais assimétricos, confusão e delírios e um progressivo estado psicótico indistinguível de esquizofrenia. Esses sintomas psicóticos podem persistir por meses ou anos após o uso da droga ter cessado, segundo Solange.

O uso crônico da droga também pode levar ao desenvolvimento de comportamento violento, caracterizado por ser bem mais intenso do que aquele observado com o uso do crack, em resposta aos delírios paranóides, expondo o usuário a situações de risco de vida.

Para Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Atendimento a Dependentes da Unifesp, não há sinais de que a metanfetamina venha substituir o crack no Brasil. “Nós estamos ao lado dos três maiores produtores de cocaína do mundo. É muito mais barato do que droga sintética”, explicou.

Na Segunda Guerra Mundial, a metanfetamina foi consumida por soldados alemães, ingleses e americanos para eliminar o cansaço e manter o vigor físico e a vigília. Na década de 1960, a droga era vendida no Brasil na forma de um medicamento de nome Pervitinâ. Houve vários casos de dependência relatados.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)