Anestesia para a adolescência

Folha de São Paulo
Antes, a culpa era da família. Hoje, o jovem experimenta drogas por uma simples razão: elas estão por aí.

Muitos pais de adolescentes têm me procurado para falar de seus receios a respeito da relação dos seus filhos com as drogas.

Há pais que temem que os filhos tenham contato com esse universo e há os que já descobriram que o filho usa alguma droga ilícita, não sabem como reagir nessa situação e têm receio de saber mais do que já sabem.

Há também aqueles pais que sabem que alguns amigos do filho usam drogas e esperam afastá-lo dessas “más influências”.

Finalmente, há pais que não têm qualquer motivo especial para se preocupar com essa questão. Mesmo assim, se preocupam. Eles conhecem nosso mundo.

Entre tantos pais diferentes, uma dúvida em comum: o que leva tantos jovens ao encontro das drogas?

Antes, uma resposta a essa pergunta era dada de forma rápida e sem pestanejar: a família. Dificuldades no relacionamento, falta de diálogo, vínculos desfeitos, autoritarismo educacional, perdas precoces e toda uma gama de causas familiares poderiam explicar a busca do jovem pelas drogas.

Tínhamos um culpado ou um bode expiatório? Não sabemos ao certo, mas sabemos que essa resposta valeu por muito tempo. Até o final do século passado.

Hoje, essa resposta já não convence. Temos todo tipo de família, de educação, de vínculos, de rompimentos etc.

Família influencia? Sempre. Para o bem e para o mal, ela pode exercer qualquer tipo de influência sobre os mais novos. Mas tais influências não são, necessariamente, determinantes ou causais.

Agora, já não temos mais um único culpado. Mesmo assim, vale a pena pensar sobre esse assunto.

O primeiro ponto que me chama a atenção é o fato de que os jovens experimentam ou irão experimentar drogas por um motivo bem simples: elas existem, são oferecidas, estão por aí.

Como vivemos em uma sociedade que valoriza o consumo -e não importa de que tipo-, consumir drogas está dentro dessa expectativa.

E não podemos nos esquecer de uma coisa: desde pequenas, as crianças aprendem com os pais que, para fazer parte de um grupo, precisam consumir as mesmas coisas usadas por esse grupo.

Pais permitem que seus filhos com menos de 12 anos usem redes sociais para que estes não se sintam excluídos. E esse argumento serve para tudo: da compra de um tênis de determinada marca à comemoração do aniversário em determinado local.

Como explicar, na adolescência, que agora eles devem querer ficar de fora do grupo? Difícil, não é verdade?

E o segundo ponto que me salta aos olhos é a dificuldade dos mais novos para enfrentar situações difíceis, com obstáculos que exigem esforço e perseverança.

As crianças têm sido demasiadamente poupadas dos pequenos sofrimentos que fazem parte da vida.

Dessa forma, não desenvolvem recurso algum do qual possam lançar mão quando necessário. E tem alguma época na vida mais cheia de situações embaraçosas do que a adolescência?

É nessa fase que eles estão mais sujeitos às pressões sociais vindas de todos os lados, às quais nem sempre conseguem atender; é quando mais ficam excitados com as possibilidades que descobrem ter na vida e mais ficam temerosos ante às responsabilidades que chegam.

Poderiam se angustiar, sofrer, amadurecer, errar, mudar o rumo, experimentar. Mas o percurso mais fácil parece ser o de se anestesiar.

E as drogas, além de oferecerem atrativos convincentes, têm essa serventia também: a de livrar de um sofrimento, de uma situação difícil. Por isso, hoje, qualquer jovem pode experimentar, usar ou abusar das drogas.

Talvez, se pudessem enfrentar os sofrimentos característicos da infância -uma rejeição, uma exclusão, uma frustração, um tropeço-, a escolha desse caminho na adolescência poderia não ser tão óbvia, não é verdade?

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?”
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)