Excesso de álcool: morte ao alcance do copo

Diário Web
A morte prematura do ex-jogador e ídolo do Corinthians Sócrates, em razão do consumo excessivo de bebida alcoólica, não foi um fato isolado.

Nas 12 principais cidades do Noroeste paulista, 96 pessoas morreram por doenças provocadas pelo álcool nos últimos três anos, segundo estatística do Ministério da Saúde. Nesses casos, o prazer inicial proporcionado pela bebida transformou-se em vício, tirou muito mais que ofereceu, virou doença e terminou da pior maneira possível.

Doutor Sócrates, morto aos 57 anos de infecção generalizada após beber por quatro décadas, espelha as vítimas da região de Rio Preto. A maioria é homem, branco e de meia idade. O ex-atleta teve cirrose, o que é comum em 40% dos bebedores exagerados. Cirrose é uma doença crônica do fígado que se caracteriza por fibrose e formação de nódulos que bloqueiam a circulação sanguínea. Quem escapa do quadro cirrótico, no entanto, não está livre de outras enfermidades. Pode desenvolver doenças como câncer, gastrite e úlcera e sofrer danos cerebrais irreversíveis, desnutrição, problemas cardíacos e de pressão arterial.

Nesses três anos, nas 12 cidades da região, foram registradas 930 internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para tratamento de doenças que acometem o fígado. A maioria das 96 mortes foi registrada em Jales – 25. Em Rio Preto, ocorreram 21. Bebedouro (17), Votuporanga (13), Barretos (8) e Olímpia (5) também registraram números expressivos. Para quem gosta de beber uma cervejinha diariamente no almoço e no jantar, o que é comum em uma cidade quente como Rio Preto, o gastroenterologista Renato Silva faz um alerta: “essa quantidade pode causar doenças hepáticas.”

O médico, que fundou o serviço de transplante de fígado do Hospital de Base e trabalha no setor, afirma que 20 gramas de cerveja por dia (cada lata tem 13 gramas) são suficientes para abrir portas no organismo para outras doenças. O especialista salienta que cada pessoa, por suas características genéticas, responde de maneira diferente ao consumo de álcool. Apesar de beber desde os 14 anos, D.P.D., 43, sofreu apenas perda acentuada de peso. Morador de Penápolis, faz tratamento há quase três meses no Lar de Jaci. Já foi internado em hospitais psiquiátricos 15 vezes, mas não largou o vício.
Com o atual tratamento enxerga um novo horizonte. “Estou animado em recomeçar a vida. Tenho muitos sonhos.” Os primeiros: arrumar os dentes e comprar um relógio.

D. começou a beber em festas ocasionais com os amigos. Aos poucos, passou a tomar cachaça todo dia, antes de ir ao trabalho de ajudante de pedreiro, na hora do almoço e fim do expediente. Aguentou essa rotina por uma década. Até que abandonou o serviço. Chegou a um estágio em que sofria tremedeira ao ficar sem beber. “Tinha que tomar quatro doses. Só assim melhorava. Perdi empregos, sonhos, moral e dinheiro. Parar é fácil. Difícil é não ter recaída.” Silva diz que o doente, após apresentar os primeiros sintomas de cirrose, pode morrer em até dois anos, desde que não abandone o vício. Se fizer o tratamento conforme orientação médica, tem sobrevida de até 12 anos. A única solução para o problema é o transplante de fígado.

‘Fui acordado pela polícia’

Após iniciar o tratamento para se livrar do vício do álcool, J.D.O., 53 anos, reconquistou a confiança dos familiares. “Graças a Deus meus dois filhos estão mais perto de mim.” Encontra-se internado no Lar de Jaci há quatro meses. O morador de Mirassol teve dificuldade para se reconhecer como alcoólatra. Começou a beber aos 22 anos, por intermédio de amigos. “Uma vez pagaram uma pinga e mandaram eu experimentar. Bebi metade, mas não gostei. No dia seguinte tomei mais um pouco e não parei.”

Até trabalhava, mas se envolvia em apuros, como acidentes de trânsito. “Bati várias vezes.” Recentemente estacionou o Fusca no acostamento da rodovia de Jaci, só que na contramão, e dormiu. “Fui acordado pela polícia, que constatou a embriaguez e levou o carro.” O pintor A.N.L, 51 anos, vai sair do Lar no último dia do ano e já fez a programação para a virada. “Vou ficar em casa sossegado.” Se fizer um brinde, diz, será com água. Começou a beber aos 14. Morava no sítio e buscava pinga para os trabalhadores. “Uma vez resolvi experimentar.”

Tomou cachaça todo dia, até os 23, quando se casou. Ao final do relacionamento, uma década depois, teve recaída. Dos 35 aos 51 anos bebeu muito. Andava com uma garrafa de bebida no carro. A cunhada o alertou sobre o vício. “Perdi bastante coisa, como dignidade e moral. Mas agora estou reconstruindo tudo.” Frei Jerônimo Moraes Souza, um dos coordenadores do Lar de Jaci, explica que 25 das 75 pacientes em tratamento atualmente são por uso do álcool. “São pessoas a partir de 40 anos. Ficam aqui em tratamento porque querem mudar, não são obrigados.” São internados gratuitamente.

Segundo o Frei, o tratamento dura cinco meses, é dividido entre cinco módulos e inclui atendimento psicológico, medicamento e laborterapia – trabalho em horta, marcenaria, cozinha, serralheria e limpeza. Os mais jovens geralmente estão envolvidos com álcool e também com drogas, sobretudo crack.

Álcool gera 50% dos transplantes de fígado

Pelo menos metade dos transplantes de fígado realizados no Hospital de Base, em Rio Preto, é motivada pelo consumo excessivo de álcool. De cada dez procedimentos, três ocorrem exclusivamente por enfermidades alcoólicas e dois por problemas gerados por outras doenças ligadas à bebida. O setor de transplante de fígado da instituição, criado em 1998, fez desde então 333 transplantes, ou seja, 166 por doenças alcoólicas. Todos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No HB, há 60 pessoas à espera de um órgão.

“O fígado é fundamental na manutenção do corpo. O álcool lesa todas as estruturas do organismo. A cirrose, por exemplo, não tem cura. O tratamento recupera as complicações. Mas, em alguns, é necessário realizar o transplante”, afirma o gastroenterologista Renato Silva, que fundou o serviço de transplante de fígado do HB. São indicados para transplante pacientes com doença hepática avançada, que sofrem risco de morte ou com qualidade de vida comprometida.

O procedimento é feito porque as doenças, agudas ou crônicas do fígado, não foram vencidas após o esgotamento de todas as possibilidades de tratamento clínico. O transplante só é feito após o paciente ser submetido a uma complexa bateria de exames, que incluem testes clínicos, laboratoriais e de imagem, acompanhamento psicológico e o mais importante: seis meses sem ingerir uma gota de álcool.

Com o comerciante Marivaldo Martinelli, 54 anos, de Mirassol, não houve tempo de seguir o protocolo médico. Há 13 anos, ele passou muito mal, vomitou sangue e foi direto para o hospital, onde permaneceu por um mês à espera de um novo fígado. Voltou zero para casa. “Graças a Deus deu certo. Sou muito grato pela nova vida que me deram.” Martinelli foi uma das primeiras pessoas a passar por transplante de fígado no HB. Desenvolveu cirrose após beber bastante.

O procedimento foi realizado quando tinha 41 anos. Sempre teve boa saúde, já que era jogador profissional de futebol e passou por clubes como Mirassol e José Bonifácio. “Depois das partidas, a gente saía para tomar uma bebida. Comecei assim.” Após se recuperar do transplante, Martinelli abriu uma mercearia, que inclusive vende bebidas como cerveja, pinga e conhaque no balcão. Apesar da tentação ao alcance da mão, afirma que não teve recaída nesses 13 anos. “Nem tenho vontade. O susto foi muito grande.”
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)