Combate ao crack será reforçado em Niterói

O Globo
A pequena aglomeração de homens na Praça Juscelino Kubitschek, no Centro de Niterói, faz com que pedestres desviem o caminho para o outro lado da calçada.

O local é conhecido como um dos pontos que concentram usuários de crack na cidade. Classificada como epidemia no país, a dependência da droga apresentou um crescimento de 25% em Niterói em relação a 2010, segundo estimativas de especialistas. O município aguarda a abertura dos editais do Plano Nacional de Combate ao Crack, lançado pela presidente Dilma Rousseff no último dia 7, para inscrever projetos desenvolvidos pelo Programa de Saúde Mental com o objetivo de reforçar as ações de tratamento e prevenção ao uso.

De acordo com a Fundação Municipal de Saúde (FMS), atualmente cerca de 300 pacientes recebem tratamento regular para dependência química, incluindo a de crack, em Niterói. A cidade, que este ano recebeu R$ 530 mil do Ministério da Saúde para o combate ao crack e outras drogas, conta com apenas 13 leitos para internação de dependentes adultos no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba. Além de desenvolver cinco projetos no Programa de Atenção aos Usuários de Álcool e Outras Drogas, sediado no Centro de Atenção Psicossocial Alameda (Caps AD), no Fonseca. No entanto, a rede ainda não consegue suprir totalmente a demanda.

— Por semana temos cerca de seis novos casos de dependentes que buscam tratamento. Embora o álcool ainda seja o maior problema, no último ano observamos um aumento de aproximadamente 25% nos dependentes de crack. Temos uma rede de atendimento inicial que conta com programas importantes como o “Consultório de rua”, que percorre pontos da cidade abordando usuários de drogas sem coação; além de equipe especializada em crianças e adolescentes. Mas a rede precisa de um aporte de recursos para se sustentar e ampliar a capacidade — explica Maria Alice Bastos Silva, coordenadora do Caps AD, que traça um perfil dos usuários de crack em Niterói. — Geralmente são adultos jovens de classe média baixa. Eles normalmente utilizam o crack associado a outras drogas como a maconha e o tíner (solvente). Menos de 10% utilizam somente crack.

O secretário municipal de Saúde, Euclides Bueno, também destaca que a intensificação do combate ao crack no município é fundamental:

— O trabalho da Coordenação de Atenção Psicossocial tem sido fundamental para o atendimento e busca na recuperação dos usuários. É um tarefa árdua contra essa droga, que tem atingido principalmente os jovens. A equipe vem obtendo sucesso, mas sabemos da necessidade de intensificar o trabalho. Estamos esperando a liberação dos editais do Plano Nacional de Combate ao Crack para ingressar com novos projetos e pedir a manutenção dos cinco já existentes com a ampliação de recursos federais.

O psiquiatra e professor da Uerj Jairo Werner, membro do Conselho Estadual de Políticas Públicas sobre Drogas, explica que o tratamento para dependentes de crack precisa estar baseado em três eixos.

— A rede de atendimento deve contemplar três níveis: ambulatorial, internação e familiar comunitário. O dependente que recebe apenas a internação, quando deixa o hospital busca novamente a droga. Também é preciso capacitar profissionais para o atendimento — afirma Werner.

Ele enumera medidas que considera primordiais para a rede de atendimento em Niterói:

— No caso de crianças e adolescentes, é importante uma rede de assistência emergencial, além de tratamento ambulatorial e internação. Também é preciso fazer uma triagem de acordo com a necessidade de cada indivíduo. Não adianta internar todo mundo, nem colocar todos para tratamento no Caps. Em relação às internações, o ideal é que não ocorra a segregação em hospitais psiquiátricos, mas sejam criadas enfermarias dentro de hospitais gerais.

Com implantação prevista para os próximos três anos, o Plano Nacional de Combate ao Crack deve repassar R$ 4 bilhões em recursos para projetos de prevenção e tratamento em todo o país. Além da criação de 2.400 leitos para dependentes em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), o plano deve capacitar 210 mil professores e 3.300 policiais para lidar com o problema.
Fonte:ABEAD(Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas)