Pesquisa pode servir para curar vício em cocaína

Por Isobel Leybold-Johnson, swissinfo.ch
Cientistas da Universidade de Genebra divulgaram uma pesquisa cujos resultados poderiam ser utilizados no combate à dependência de cocaína.

Eles desenvolveram um método que apaga os traços deixados pela droga no cérebro de ratos e normaliza o comportamento do viciado.

A cocaína é uma substância com grande risco de causar dependência. Ela oferece uma sensação positiva, mas depois que o efeito passa o usuário necessita de mais doses. Sabe-se que ela deixa vestígios no cérebro, o que significa que uma recaída pode ocorrer depois de meses ou até anos apesar da pessoa ter parado de usar a droga.

Em um artigo publicado na revista científica “Nature”, a equipe do Departamento de Neurociência da Universidade de Genebra demonstrou como utilizou ratos para provar que os vestígios do consumo de cocaína podem ser eliminados no cérebro. E isso não é tudo.

“Foi a primeira vez em que conseguimos manipular especificadamente a conexão entre duas células nervosas para modificar o comportamento da dependência”, explica o chefe da equipe, Christian Lüscher.

Áreas do cérebro

As áreas em questão foram o córtex pré-frontal e o núcleo acúmbens, que desempenham um papel importante no sistema de recompensa do cérebro: a regulação e o controle dos comportamentos através da sensação de prazer e, portanto, o vício.

A fim de efetuar a modificação, os pesquisadores aplicaram um processo relativamente novo denominado “optogenética”, descrito por Lüscher como “uma técnica verdadeiramente revolucionária e que pode mudar muita coisa.”

“Basicamente pegamos uma proteína, um canal iônico que seja sensível à luz, e os colocamos artificialmente dentro dos neurônios que queremos controlar. A partir do momento em que isso é feito, você pode então chegar com a fibra ótica e controlar os neurônios através da luz.”

A equipe observou que, após o procedimento, os ratos expostos à cocaína reagiram a uma nova dose do entorpecente como se eles nunca tivessem a experimentado anteriormente.

A nova técnica poderia ser uma esperança para os dependentes de cocaína, já que a pesquisa mostra que as mudanças no comportamento causadas pela cocaína são reversíveis, o que por sua vez reduziria as chances de recaída.

Aplicação em seres humanos

Mas Lüscher explica que é necessário realizar mais pesquisas antes de poder aplicar a técnica em seres humanos. “O que fazemos com os ratos é uma experimento muito controlado dos primeiros efeitos da cocaína. Nós aplicamos de uma a cinco injeções. Já seres humanos se tornam dependentes após anos de uso crônico da droga. É uma situação muito diferente”, declara.

“Mas do ponto de vista do princípio, é uma ideia interessante que pode servir certamente para aplicações clínicas no futuro.”

O Serviço Suíço de Informações sobre Dependência considerou os resultados da pesquisa bastante interessantes. “Seguramente tratam-se de princípios básicos que podem ser pioneiros na compreensão da fisiologia da dependência”, declarou o porta-voz Simon Frey. Como Lüscher, ele também considera que será necessário realizar mais pesquisas antes de aplicar a técnica em seres humanos e utilizá-la em terapias.

Problema da cocaína

Questionado sobre a amplitude do problema em relação ao consumo de cocaína na Suíça, Frey ressaltou que não existem valores absolutos. “O que podemos dizer é que uma pesquisa entre pessoas das faixas etárias de 15 a 39 anos em 2007, 4,4% delas declararam já ter consumido cocaína durante a sua vida, enquanto que apenas 2,9% declararam o mesmo em 2002. Assim é possível verificar um certo aumento no consumo.”

Mas esses números não são totalmente confiáveis: consumidores “acíduos” são dificilmente questionados em pesquisas de opinião realizadas por telefone e as pessoas também não costumam compartilhar todas suas experiências com entorpecentes em pesquisas semelhantes, considera o porta-voz do órgão.

No entanto, Frey ressalta que a cocaína é uma droga com grande potencial de causar dependência. Ele acrescenta que os usuários podem se recuperar do vício, mas o risco de recaída é bastante elevado. “Se eles são confrontados com uma situação (de risco), são mais propensos a consumir a droga do que uma pessoa que nunca a experimentou anteriormente.”

Em relação ao futuro, Lüscher considera que qualquer esforço para aplicar o seu trabalho com ratos em seres humanos depende de quanto a sociedade está disposta a apoiar pesquisas futuras na área de dependências.

“Embora a dependência seja frequentemente considerada como uma doença, ela é muitas vezes vista como uma doença ´órfã` por várias razões. A indústria privada hesita em desenvolver novas terapias, pois é um mercado muito difícil. Trata-se de pessoas que não são muito confiáveis nos estudos clínicos precisamente por serem viciados”, diz.

“Esperamos que, ao apresentar algumas novas ideias das ciências básicas, poderemos ajudar a ter novas iniciativas nessa direção.”

Isobel Leybold-Johnson, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas