Droga: mudança de estratégia no combate criticada

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Políticos da oposição e técnicos apontam dedo a alterações em tempo de crise
A incerteza sobre o futuro da estratégia de combate à droga, depois da extinção do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT), dominou esta quarta-feira um encontro no Parlamento, com políticos da oposição a considerarem «um erro crasso» estas mudanças numa altura de crise.

De acordo com a Lusa, as preocupações manifestadas por vários políticos, durante a apresentação do Relatório Anual sobre a Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependência 2010, foram partilhadas pelo presidente do IDT, que manifestou preocupação com as novas respostas nesta área.

«O que temos como certo é a extinção do IDT e a criação de uma direcção geral chamada Serviço de Intervenção e Comportamentos Aditivos e Dependências e sabemos que a parte operacional das repostas oferecidas à população nas diversas áreas de intervenção passará para as Administrações Regionais de Saúde (ARS)», afirmou João Goulão aos jornalistas à margem do debate.

«O delinear das novas políticas não é claro para ninguém. Não se sabe quando as leis orgânicas são aprovadas, quando estas mudanças se tornam efectivas e há aspectos práticos que causam grande perturbação», salientou.

Para o deputado do Bloco de Esquerda João Semedo, a mudança orgânica do IDT é «uma verdadeira aventura» e acontece no «pior momento».

«Porque é tomada esta decisão agora? Muda-se a estrutura para mudar a política? É um erro crasso», sublinhou.

«Espero que mudar a estrutura para mudar a política não signifique que se pretenda satisfazer alguns impulsos revanchistas de quem nunca ficou convencidos que a despenalização era o melhor caminho. Espero que não seja um ajuste de contas», sustentou.

A resposta às críticas de João Semedo surgiu do deputado social-democrata Nuno Reis, assegurando que, nesta alteração, «não há impulsos revanchistas, nem uma rutura com o passado».

«Não nos parece que a transformação de um instituto público numa direcção geral represente uma mudança de estratégia», acrescentou.

Para o deputado socialista Manuel Pizarro, ex-secretário de Estado Adjunto da Saúde, tomar esta medida «numa situação de crise económica e social é, em linguagem popular, brincar com o fogo».

«É um risco imenso que não está acautelado», frisou.

Em resposta, João Goulão sustentou que «o caldo social que vivemos é propício ao recrudescimento do fenómeno, a voltarmos a consumos de drogas com características que tínhamos há 10 ou 15 anos em Portugal».

O responsável contou que já está a aparecer pessoas, que não consumiam heroína há anos heroína, a pedir ajuda.

«Todos nos lembramos do Casal Ventoso e de todos os casais ventosos que existiam no país, mas eu temo que voltem a aparecer», lamentou.

Já a deputada comunista Paula Santos considerou «desajustada» esta alteração, que representa «o desmantelamento da actual estratégia».

Paula Santos sublinhou ainda que as ARS nunca foram vocacionadas para esta vertente, uma posição partilhada por João Goulão.

Quem é que nas ARS se vai ocupar de jogadores ou compradores compulsivos e dos toxicodependentes e alcoólicos, questionou Goulão. «Fazer coexistir num centro de saúde o toxicodependente, o idoso e o bebé é muito perturbador para todos», disse.

Para o responsável, «a única forma de minimizar o impacto excessivo será pegar nas unidades do IDT e pô-las por inteiro dentro das ARS».
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas