Produção orgânica muda vida de ex-fumicultor catarinense

“De fumo eu só tenho experiência ruim, eu não quero mais voltar.” O desabafo demonstra a satisfação do ex-fumicultor, Reguinald Melcher, de 40 anos. Hoje, com a produção de alimentos orgânicos, o agricultor familiar tem uma renda mensal fixa de aproximadamente R$ 2 mil com a venda de verduras e hortaliças produzidas em meio hectare. Quando sobrevivia do cultivo do fumo, o plantio da folha em 2,5 hectares gerava uma renda de no máximo R$ 800,00 por mês. “Se fosse para eu viver do fumo, eu já tinha ido embora para a cidade”, disse Reguinald, ao afirmar que se manteve no campo por causa da diversificação.

Próximo ao município de São Bonifácio, distante 95 quilômetros de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, está localizada a comunidade Rio do Poncho. É nesse ambiente de clima úmido, em um sítio de oito hectares, cercado por Mata Atlântica nativa, onde vivem Reguinald, a esposa e dois filhos. Reguinald lidera um grupo de cinco famílias, quatro ex-fumicultoras e uma em processo de transição.

A força do trabalho coletivo resultou na organização produtiva dos agricultores. Hoje, com um plantio diversificado, eles produzem morango, chuchu, pepino, pimentão, laranja, bergamota, caqui, alface, beterraba, cenoura, couve e brócolis, entre outros alimentos. Há cinco anos, toda a produção das famílias é comercializada semanalmente na feira de orgânicos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Reguinald articula a comercialização da produção das cinco famílias da comunidade. Semanalmente, ele leva para a feira, aproximadamente, 1,3 mil unidades de hortaliças e 200 quilos de verduras e frutas.

Além da feira, os agricultores fornecem para alguns restaurantes e mercados de Florianópolis e municípios vizinhos. “Posso dizer que as cinco famílias juntas plantam menos área que um produtor de fumo e têm mais renda, com muito mais giro de dinheiro”, diz Reguinald. Em 2010, o lucro com a venda total da produção das famílias foi de cerca de R$ 130 mil no ano. “De lucro o fumicultor tem muito menos, porque tem várias coisas para descontar: os insumos, o pagamento dos funcionários, a lenha para as estufas, a dívida com os bancos e com as indústrias”, esclarece o agricultor.

Reguinald nasceu em uma família de plantadores de fumo e cresceu com a obrigação de lidar diariamente com a atividade. Aos 11 anos abriu mão dos estudos para trabalhar como diarista nas lavouras de fumo, época de serviço árduo e penoso. A saúde também foi afetada por causa da doença da folha verde, também conhecida por porre de fumo. “Quando dava o porre de fumo, eu não conseguia comer nada e tudo que eu colocava na boca ficava amargo. A nicotina absorvida durante o dia fica impregnada na pele, causando tontura e vômitos à noite”, explica.

A primeira experiência de diversificação aplicada na comunidade aconteceu a partir da instalação de uma mini fábrica de queijo. Mas o agricultor sempre sonhou em fazer algo diferente. Foi quando, há de dez anos, decidiu produzir alimentos orgânicos. “Minha maior alegria, hoje, é não ter mais que cuidar de estufas de fumo, colher fumo na chuva, lidar com bomba de veneno nas costas, ficar dias e horas sem dormir direito observando a temperatura do forno para garantir a secagem correta da folha”.

Escoamento da produção

A região da comunidade está situada no Vale dos Bugres, uma área de difícil acesso. Fato que não desanimou Reguinald. Para garantir o escoamento da produção, em 2008, com o apoio da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) ele adquiriu um caminhão modelo F350 por meio da linha de investimento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). O caminhão foi financiado por R$ 59 mil, com juros de 2% ao ano, sem prazo de carência. “Antes eu levava a produção para a feira em uma caminhonete velha. Eu gostava dela, mas começou a quebrar muito e isso foi o fim da picada. Ou tem o caminhão ou a gente para com o trabalho”, relembra Reguinald.

A propriedade de Reguinald é um exemplo de diversificação no plantio de alimentos e também de preservação ambiental. Em três hectares do sítio o agricultor possui cerca de três mil pés da palmeira juçara, uma espécie típica da Mata Atlântica. A partir do manejo do fruto da palmeira, um tipo de açaí da região, ele já obteve renda média de R$ 1,6 mil em três safras seguidas. Em mais quatro hectares ele tem uma área de reserva legal. Em outros 2,5 hectares cria vacas e porcos para subsistência da família.

Assistência técnica

A produção dos agricultores decolou por meio da ajuda de um técnico vinculado ao Centro de Estudos da Agricultura Familiar em Grupo (Cepagro) com o apoio do Programa Nacional de Diversificação em Áreas Cultivadas com o Tabaco, projeto especial da Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) do MDA. Semanalmente, os agricultores da comunidade recebem orientação da Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER). “Quando acontece você sabe a quem pedir ajuda. É fundamental para dar continuidade aos trabalhos”, enfatiza Reguinald.

O técnico do Cepagro Marcelo Faria atualmente acompanha os serviços na propriedade de Reguinald e dos seus vizinhos. O Cepagro atua no núcleo rural catarinense por meio da Rede Ecovida de Agroecologia, que envolve a agricultura familiar principalmente dos três estados do Sul. “A nossa estratégia para fomentar a agricultura familiar orgânica é organizar os agricultores familiares em grupo porque consideramos que dessa maneira potencializamos o conhecimento das famílias relativos à produção e a comercialização”, explica Marcelo.

Os agricultores estão utilizando um novo adubo natural. Além das camas de frango, uma nova compostagem feita a partir de resíduos orgânicos e serragem vêm sendo utilizado nas plantações. Reguinald já testou o novo adubo orgânico para plantar beterraba, brócolis, alface e cenoura, e garante que “está dando certo”.

Diversificação do Tabaco

O MDA integra a Comissão Interministerial para a Implementação da Convenção Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq) que reúne representantes de 18 ministérios. A Comissão é um espaço de debate e encaminhamentos para a implementação de ações associadas aos diferentes artigos estabelecidos na Convenção da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Brasil ratificou, em novembro de 2005, sua participação na Convenção-Quadro para Controle do Tabaco (CQCT/OMS), comprometendo-se a implementar medidas para diminuir o tabagismo e apoiar os agricultores produtores de Tabaco na busca de alternativas. Entre as medidas estão o “apoio a atividades alternativas economicamente viáveis” à cultura do fumo (Artigo 17) e “proteção do meio ambiente e saúde das pessoas” na cultura do fumo (Artigo 18). No Brasil há 65 projetos de pesquisa, capacitação e ATER em apoio à diversificação para apoiar 80 mil agricultores familiares.
Fonte:INCA – Instituto Nacional de Câncer, Ministério da Saúde