Especialistas discutem se pais devem permitir que seus filhos bebam vinho

Folha.com – DÉBORA MISMETTI
EDITORA-ASSISTENTE DE “SAÚDE”
Foi em uma festa de Natal em família que o paulistano André Di Napoli, 42, experimentou vinho pela primeira vez. O empresário tinha entre 15 e 16 anos na época.

“Vi as pessoas brindando, celebrando e pedi para experimentar.”

Na família, de origem napolitana, comida e vinhos andam juntos. Na casa de sua avó, conta, as reuniões nos finais de semana tinham massa feita em casa. “Enquanto as mulheres faziam molho, os homens ficavam na varanda tomando vinho e quebrando a massa. As crianças queriam participar de tudo isso.”

O costume de dar gotinhas de vinho para as crianças, ou a bebida misturada com água ou refrigerante, é comum em famílias de imigrantes italianos e portugueses.

O hábito, no entanto, contrasta com as orientações da maioria dos médicos. O governo do Estado de São Paulo também tem feito campanhas para reforçar a lei que proíbe o consumo de álcool por menores. A publicidade oficial sugere: “Em casa, o fiscal é você”. A ideia, nesse caso, é a proibição total do consumo até os 18 anos.

Mas será que o veto protege o jovem contra um futuro de abuso e até dependência do álcool? Para o psicanalista e médico Jorge Forbes, a proibição não garante nada.

Em primeiro lugar, diz Forbes, é preciso diferenciar o consumo do álcool pelo álcool, como dos jovens que se reúnem em postos de gasolina para tomar vodca com energético antes da balada, do hábito de tomar álcool, especialmente vinho, durante as refeições.

“O primeiro deve ser coibido. Mas o hábito do vinho é uma prática com séculos de história, transmitida de geração para geração. Coibir essa tradição é levar o politicamente correto a um nível bobo”, afirma.

Arthur Azevedo, pediatra e diretor da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo, discorda.

“Dar vinho para menores deve ser proibido em qualquer quantidade e em qualquer circunstância. O fígado deles é muito sensível e pode ter lesões até com microdoses de álcool.”

EDUCAÇÃO

A iniciação em casa, com a família, no entanto, é defendida por seus praticantes para transmitir não só a cultura da família mas o hábito de ter moderação ao beber.

“Se você se inicia com essa filosofia, dificilmente comete excessos depois”, diz André Di Napoli. Seu filho mais velho, Thiago, de sete anos, já tomou algumas gotinhas de vinho.

A sommelière Alexandra Corvo, 33, segue a mesma filosofia. “Meu pai e minha mãe gostavam de vinho e deixavam a gente pôr o dedo na taça, não era nada demais. Quando morei nos EUA, tinha 16 anos e já tomava vinho em casa [no Brasil]. E lá não podia. Mesmo assim, os caras bebiam escondido até desmaiar. É melhor tratar a coisa de uma forma natural e ensinar a moderação.”

EM VÃO

A educação dada em casa, no entanto, também não é garantia de um consumo regrado, segundo a psicóloga Lisiane Bizarro Araújo, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e estudiosa do tema.

“Há países que não permitem venda de café a menores de 18 anos, porque faz mal, você vai habituar a criança a um psicoestimulante. A mesma lógica se aplica ao álcool. Quanto mais tarde a exposição, melhor. Mas pode ser positivo fazer uma exposição orientada mais tarde, perto da idade em que é permitido beber”, diz Araújo.

No entanto, a psicóloga afirma que, segundo uma pesquisa recente que ela fez com universitários, o que a família fez pode não importar. “A tendência é seguir o grupo. Aprendendo a beber com moderação em casa ou não, aos 18, a tendência é que o jovem abuse da bebida no fim de semana.”
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas