Crack: vício pode custar a vida

Ministério da Saúde estima que há 2 milhões de usuários de crack no Brasil e mais de 600 mil vão morrer por causa do vício.
Por Cristine Pires para Infosurhoy.com — 29/12/2011

Em 7 de dezembro, a presidente Dilma Rousseff apresentou em Brasília a segunda etapa do Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, que prevê investimentos de R$ 4 bilhões até 2014. (Cortesia de Roberto Stuckert Filho/PR)

PORTO ALEGRE, Brasil – As estatísticas são chocantes. Dos 2 milhões de dependentes de crack no Brasil, 1/3 – ou seja, mais de 600.000 pessoas – deve morrer por causa da droga, segundo o Ministério da Saúde.

A tendência é que 1/3 continue com o vício e que a mesma proporção encontre a cura.

É o que aponta um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a pedido da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) do governo federal. Os resultados foram publicados na cartilha Diretrizes Gerais Médicas para Assistência Integral aos Usuários de Crack, distribuída pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em unidades de saúde e escolas por todo o país.

A pesquisa mostra que 85% das mortes de usuários de crack estão relacionadas com violência.

Foi o que aconteceu com Roberto, filho do professor aposentado João, que concordou em dar entrevista ao Infosurhoy.com desde que seus verdadeiros nomes não fossem revelados.

Usuário da droga desde a adolescência, Roberto tinha todo o suporte financeiro de uma família de classe média, mas parou de estudar e trabalhar por causa do vício.

Quando aparecia em casa, na cidade de Canoas (RS), roubava os pertences da família para comprar droga. Se os pais tentavam impedir, Roberto ficava agressivo.

“O desespero pelo consumo é tão grande que, certa vez, meu filho roubou nossa TV e, com o aparelho nos braços, pulou a janela do nosso apartamento para sair pelo do vizinho, já que eu tinha trancado a porta para ele não ir embora de casa”, conta João. “Só Deus sabe como ele não morreu naquele dia.”

Aos 30 anos, Roberto foi encontrado morto a tiros, provavelmente vítima de um acerto de contas com traficantes.

“Fizemos tudo o que foi possível para tirá-lo do vício e das ruas, mas perdemos essa guerra”, lamenta João.

Droga provoca comportamento agressivo

As mudanças comportamentais que levam o usuário a se tornar violento e cometer roubos para sustentar o vício são consequências da droga.

“Toda substância que age no sistema nervoso central provoca alterações do entendimento das coisas”, explica Emmanuel Fortes Silveira Cavalcanti, psiquiatra que coordena a Câmara Técnica de Psiquiatria do CFM. “O indivíduo perde o controle e parte para a agressão, como assalto seguido de violência gratuita. Ele não tem a crítica necessária para frear seu comportamento.”

Portanto, é comum que dependentes se tornem transgressores para obter a droga.

Pesquisa reforça vínculo do crack à violência

A rotina relacionada com o consumo do crack – roubo, violência doméstica, briga com companheiros de consumo ou com a polícia e acerto de contas com traficantes –, faz com que muitos usuários passem mais tempo encarcerados do que em tratamento.

Uma outra pesquisa realizada pela Unifesp, pioneira na literatura médica internacional, acompanhou, por 12 anos, 131 pacientes do Hospital Geral de Taipas, em São Paulo.

Os entrevistados estiveram em tratamento entre 1992 e 1994, ou seja, fazem parte dos primeiros grupos de usuários da droga na cidade de São Paulo – por onde a droga começou a se disseminar no país no início dos anos 90.

O objetivo da pesquisa foi acompanhar o comportamento dos usuários de crack que tiveram alta.

De 1995 a 2006, os pesquisadores fizeram reavaliações em três momentos: dois anos (1995-1996), cinco anos (1998-1999) e, finalmente, 12 anos após a alta (2005-2006).

A pesquisa revelou que os usuários passam, em média, 3 meses em tratamento e 1 ano e 8 meses presos.

“O crack tem essa característica de provocar muitas mortes e prisões entre os usuários”, afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos fundadores da Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) da Unifesp, que atua desde 1994. (Cortesia de Ronaldo Laranjeira)

“A descoberta foi surpreendente: os pesquisados foram mais absorvidos pelo sistema carcerário do que pelo sistema de saúde”, diz a psicóloga-clínica Andréa Costa Dista, que participou do estudo.

Depois de mais de uma década da alta, a pesquisa revelou que, dos 131 entrevistados, 27 morreram, 26 tinham paradeiro desconhecido e 78 continuavam vivos, sendo que 13 estavam presos.

A maioria das mortes ocorreu por homicídio. As outras principais causas foram overdose, hepatite B e Aids.

Andréa lembra que um dos motivos que ligam o crack e a criminalidade é o fato de que muitos usuários acabam assumindo o papel de pequenos traficantes.

“É a forma encontrada por eles para poder sustentar o vício”, explica Andréa.

Mas a pesquisa mostrou também que, quando recebem tratamento, os usuários podem se recuperar. Dos 78 sobreviventes encontrados, 29% estavam abstinentes por cinco anos ou mais.

Crack ligado ao aumento de homicídios

Um estudo realizado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) mostra que o aumento de homicídios na Região Metropolitana de Minas Gerais pode estar diretamente ligado ao uso do crack.

A pesquisa “Os impactos do crack na saúde pública e na segurança pública”, realizada entre os anos de 2008 e 2010, tem como base de dados 671 inquéritos de homicídios entre os anos de 1993 e 2006.

“Também fizemos entrevistas com policiais, traficantes e usuários para saber como se dá essa relação. Ficou nítido que o crack e a violência estão interligados”, diz o professor Luis Flavio Sapori, coordenador do Centro de Estudo de Pesquisas em Segurança Pública da PUC Minas.

A conclusão foi que, no período de disseminação do crack em Belo Horizonte, entre os anos de 1996 e 2004, o número de homicídios relacionados com drogas ilícitas aumentou consideravelmente.

“Muitos conflitos são marcados por dívidas, independentemente da classe social do usuário, que acaba recorrendo a atos ilícitos para poder comprar a pedra”, diz Sapori.

O caso de Belo Horizonte é o mesmo de outras grandes cidades brasileiras, completa Sapori.

“O crack tem essa característica de provocar muitas mortes e prisões entre os usuários”, afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, um dos fundadores da Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) da Unifesp, que atua desde 1994. “Como essas pessoas vão se deteriorando socialmente, perdem a família e acabam recorrendo ao roubo, assaltos ou tráfico para manter a dependência.”

Plano de enfrentamento ganha reforço

Para atender aos dependentes do crack, o governo federal conta com Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), Equipes de Saúde da Família, Consultórios de Rua e Casas de Acolhimento Transitório (CATs). Todos os tratamentos incluem terapia ocupacional e, se necessário, medicamentos e internação.

Desde 2010, quando foi lançado o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, o governo federal investiu cerca de R$ 70 milhões em ações específicas de combate à droga.

“Estes recursos foram liberados pelo Ministério da Saúde para a ampliação da assistência direta à saúde de usuários de crack e outras drogas como também para a capacitação de profissionais de saúde que atuam neste segmento”, informou o Ministério da Saúde.

No ano passado, foram realizados 21 milhões de atendimentos ambulatoriais no Sistema Único de Saúde.

A segunda etapa do plano, apresentada em 7 de dezembro, prevê investimentos de cerca de R$ 4 bilhões até 2014.

Na ocasião, a presidente Dilma Rousseff informou que a meta é reforçar a rede pública de saúde não só para aqueles em crise de abstinência, mas também para os usuários que sofrem dificuldades em lidar com a dependência.

Além de aumentar a oferta de tratamento de saúde aos dependentes químicos, o governo vai investir na repressão ao tráfico de drogas e às organizações criminosas.
Fonte: Infosurhoy.com