Romário e OAB são contra a liberação da venda de cerveja

São José do Rio Preto
Diário da Web – Carlos Petrocilo
Se comparássemos com uma partida de futebol, o duelo seria bem acirrado. De um lado a turma do contra a liberação para todas as competições, liderada pelos homens da lei e reforçada por políticos. Entre eles, o deputado Romário. “Sou totalmente a favor da liberação só durante a Copa. A proibição já vem dando certo e o brasileiro não está preparado para beber cerveja no estádio.” Por outro lado, as indústrias cervejeiras trabalham para caprichar na imagem e mostrar uma sinergia entre a bebida e o esporte, e a maioria dos clubes está na torcida. A venda da bebida alcoólica é, para os cartolas, mais uma forma de ganhar dinheiro.

Quarta maior cervejaria do mundo, a Ambev tem parceria sólida com mais de 20 clubes brasileiros. São diversos tipos de acordos. No Vasco, por exemplo, a Brahma entregou novos vestiários, sala de musculação e sala de imprensa. Ao Botafogo, a marca ofereceu reforma no gramado do estádio Engenhão. O G4 Aliança Paulista, que reúne Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo, fechou o seu primeiro contrato para os quatro clubes paulistas com a Femsa Brasil, distribuidora da cerveja Kaiser e também Coca-Cola.

“Pode no Carnaval, nos shows, em rodeios, e em tudo quanto é evento, só não pode no futebol. Os clubes são prejudicados, acredito que deixamos de arrecadar até R$ 3 milhões por ano”, desabafa Adalberto Baptista, diretor de futebol do São Paulo. “O nosso contrato com a Femsa é limitado por conta disso. Hoje, ele vale R$ 2 milhões por ano, poderia chegar ao dobro e poderíamos arrecadar entre R$ 800 mil a R$ 1 milhão com a venda nos estádios.”

Segundo o gerente de marketing do Santos, Armênio Neto, o veto inibe até a presença dos torcedores. “Eu sou de um tempo onde era comercializada e não vejo problema nenhum. A gente teria condição de negociar um contrato um pouco diferente com as empresas de bebidas. O Santos sofre também com o público, em dia de jogos na Vila, você vê os bares lotados, e a Vila só com 4 mil torcedores. O torcedor quer ver o jogo e tomar uma cerveja, conversar com o amigo”, opina.

Estimativa do G4, segundo o seu diretor José Carlos Peres, aponta que cada um dos quatro clubes grandes paulistas arrecadaria até R$ 10 milhões a mais por ano. O diretor de marketing do Corinthians, Luis Paulo Rosenberg, reforça o coro dos descontentes. “Na Inglaterra, dos torcedores brigões, não proíbem, aqui querem ser puritanos. Mas podem encher a cara do lado de fora.” Para Rosemberg, o desejo do Corinthians pela liberação não se dá por interesse financeiro. “Apenas para dar mais qualidade ao espetáculo.”

Sabe-se que a Brahma, cerveja da Ambev e com forte apelo entre os torcedores, pode herdar o nome do estádio corintiano. Clube e cervejaria conversam. Rosemberg, porém, se esquiva. “Até o Papa, a Petrobras, todos querem o manning rights. A única coisa que sei é que tem um abaixo-assinado, feito pelos torcedores, pedindo para trocarmos a cerveja Kaiser pela Brahma. Não podemos fazer nada, poderemos até perder a eleição, mas o contrato com o G4 com a Kaiser vai até 2014.”

Cartolas da região lamentam o veto à cerveja

Entre os presidentes de clubes da região, é unanimidade a opinião contrária ao veto da venda de bebida alcoólica nos estádios de futebol. Todos os dirigentes lamentam e dizem que os clubes deixam de arrecadar. “A liberação traria uma receita maior ao Rio Preto. Não só em termos de bilheteria, como também a taxa de exploração comercial das nossas cantinas seria maior”, comenta o presidente do clube esmeraldino, Vergílio Dalla Pria Netto.

Atualmente, o Rio Preto negocia por R$ 1,5 mil por mês os direitos de comercialização em seus bares durante o Campeonato Paulista da Série A-2. Dalla Pria não soube estimar o valor que poderia faturar a mais. “Eu não chuto, mas, com certeza, seria uma receita mais elevada.” Alcides Zanirato, presidente do América, e Edson Antonio Ermenegildo, mandatário do Mirassol, seguem a mesma linha de raciocínio.

“Não adianta proibir nos estádios se as pessoas tomam do lado de fora. É uma questão cultural e precisaria de um trabalho de conscientização. Na Europa, muitos países não possuem nem alambrado e vendem sua cervejinha, sem nenhum problema”, defende o cartola americano. Para Ermenegildo, além da tradicional receita de exploração dos bares, o clube perde em bilheterias. “Com a transmissão dos jogos pela TV aberta e fechada e a proibição, é cômodo ao torcedor assistir nos bares ou em clubes recreativos, tomando uma cervejinha.”

O dirigente considera uma injustiça caso seja liberada só para a Copa do Mundo de 2014 e a Copa das Confederações de 2013 e mantenham o veto para as competições regionais e nacionais. “Teremos um outro país durante a Copa. É totalmente inconstitucional.

Essa proibição não existe em todos os Estados e onde a cerveja é liberada não existe notícia que tem sido a principal causadora da violência”, contesta Ermenegildo.Também contrário a proibição, o presidente do Catanduvense, Valmor Peruzzo, estima que o clube poderia aumentar em 15% a sua receita com a venda de ingresso. “Se pudesse vender cerveja no estádio, teríamos mais torcedores nos prestigiando durante os jogos”, afirma.

Deputados são contrários

O Diário da Região tentou ouvir os quatros deputados federais da região para saber a posição de cada um sobre a liberação ou não da bebida alcoólica nos estádios de futebol. Afinal, eles têm a missão de votar o projeto sobre o assunto em trâmite na Câmara Federal. Apenas o ex-prefeito de Rio Preto Edinho Araújo (PMDB) mostrou-se a favor da venda nos estádios só durante a Copa do Mundo de 2014.

“Deve ser apenas uma exceção, porque continuo convicto de que devemos manter a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios após a competição mundial, para garantir a tranquilidade das famílias que frequentam os campos de futebol no Brasil.” Mesmo a favor, Edinho fez algumas ressalvas. “Eu vou seguir o relator da Lei Geral da Copa na Câmara dos Deputados (Vicente Cândido, do PT), que libera a venda da bebida alcoólica nos estádios apenas durante os jogos da Copa de 2014.

Porém, ressalto que tanto o governo federal quanto a Fifa deveriam ter promovido um amplo debate com a sociedade antes de decidirem unilateralmente sobre esse assunto”, afirmou o deputado. Para Eleuses Paiva (PSD), que também é médico, álcool e esporte não combinam. “Sou contra seja na Copa ou não, em qualquer ocasião.

Ainda mais mexendo com a emoção, alguém pode extrapolar”, comenta.
Outro deputado da região, Vaz de Lima (PSDB), segue a mesma linha de Paiva. Ele é contra em qualquer ocasião. Procurado pela reportagem do Diário, o deputado João Dado (PDT) não foi localizado para dar a sua opinião sobre o caso.

Minoria da torcida pode ficar violenta

A proibição da venda e do consumo de bebida alcoólica nos estádios de futebol faz todo o sentido na visão da saúde pública, porque a bebida alcoólica, por efeito bioquímico do álcool no cérebro, gera inibição das inibições. Ela deixa a pessoa mais solta, que passa a falar e se sentir mais a vontade. Esse é o efeito farmacológico, que é a reação química causada entre as moléculas de etanol, o álcool etílico, e os neurotransmissores cerebrais.

Para muitos, como a maioria da torcida, por exemplo, isso não quer dizer violência. Porém, para uma minoria, entre 5% e 10% de torcedores, é possível alterar o humor. Somente por essa minoria a proibição faz todo o sentido, é onde pode desencadear a violência e acaba ocorrendo uma alteração de massa, muitos brigam ou entram na briga sem saber o motivo. Eu trato de pessoas que têm problemas com a bebida, noto o que essas pessoas bebem, falam demais e são capazes de causar tumultos. Em relação a uma torcida é a minoria que precisa de uma visão diferenciada.

A rivalidade ou paixão pelo clube não agrava com o consumo de álcool. O comportamento inadequado, sim, é perigoso. Tem gente que vai ao estádio só para brigar, nem gosta de futebol. O futebol é na verdade a ponta de um iceberg, e o álcool só vai abrir portas para quem tem essa prédisposição à violência. Alguns têm tolerância e outros, dependências, o impacto vai ser diferente. Como médico, não sou favorável nem para a Copa do Mundo. A lei do País deve ser soberana, e a saúde pública precisa ser preservada.

ARTHUR GUERRA DE ANDRADE
Coordenador do Grupo de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas