Poder público faz faxina geral na Cracolândia

Jornal o Diário de S. Paulo
Operação do estado e da Prefeitura intervém com policiais e agentes de saúde na região do Centro Cristina Christiano e Fabio Pagotto /Diário SP
A Cracolândia, localizada entre os bairros de Campos Elíseos e Luz, passou nesta terça-feira por uma imensa faxina urbana e social sem prazo para terminar com vistas a sufocar o tráfico de drogas que se instalou na região há pelo menos 20 anos. A Polícia Militar ocupou a área e fez usuários de crack abandonarem as ruas deterioradas e os traficantes sumirem.

A operação, batizada de Centro Legal, envolveu vários órgãos municipais, em especial da saúde e de assistência social, além da Polícia Militar, que distribuiu cem homens pela região, em quatro turnos ininterruptos. Esse foi o maior trabalho desse porte já feito na região, mas não é a primeira vez que a região é palco de operações dessa natureza. Segundo moradores, os usuários de drogas abandonam a região em um primeiro momento, mas aos poucos retornam. A Prefeitura ocupa a região desde 2009.

“Nós não estamos iludidos com a operação até porque não se acaba com o tráfico de uma hora para outra, mas posso garantir que não é pirotecnia. Além do combate ao tráfico, o trabalho visa restabelecer a ordem urbana, com a limpeza de ruas e retiradas de entulho, e facilitar o trabalho dos agentes de saúde”, diz o chefe do Comando de Policiamento da Área Centro, coronel Pedro Borges.

No primeiro dia de operação, a Prefeitura retirou 7,5 toneladas de entulho, segundo a Secretaria das Subprefeituras. Bueiros e as ruas também foram lavados. Já a PM abordou 150 pessoas, prendeu uma em flagrante, capturou um procurado, vistoriou quatro estabelecimentos, 15 veículos e oito motos duas foram apreendidas e localizou 21 gramas de cocaína.

ESPALHADOS

Segundo o coronel, usuários de drogas que deixaram a Cracolândia estão circulando pela vizinhança, acompanhados pelo serviço de inteligência da PM e por agentes de saúde da Prefeitura. “Nós já prevíamos isso e estamos preparados”, diz o comandante.

O coronel Pedro afirma que a PM também se preparou para enfrentar crises de abstinência, que devem começar a dar sinais nos próximos três ou quatro dias. “É bem provável que eles partam para o álcool.”

No meio da tarde, a PM enfrentou o primeiro confronto com usuários. Cerca de 150 pessoas estavam na Praça Júlio Prestes quando foram abordados pelos policiais, que ordenavam que se retirassem. A maioria seguiu para a Rua Mauá, onde a PM teve de interromper o trânsito por alguns minutos para as pessoas atravessarem. Lá, alguns dos expulsos atiraram pedras nos PMs e acertaram carros, quebrando a janela de dois veículos. Houve prisões e a massa se dispersou pelo Parque da Luz e pelas ruas da região da Santa Ifigênia.

Na Alameda Dino Bueno próximo à Rua Helvétia, os PMs tiveram de dispersar a população de rua diversas vezes, uma vez que os expulsos voltavam assim que os policiais saíam. Os PMs também esvaziaram imóveis nessas ruas, que eram usados como moradia pelos usuários de crack. A medida gerou protestos entre cerca de cem expulsos, que haviam se reunido no Largo Coração de Jesus, mas logo foram dispersados.

A Cracolândia nasceu timidamente na década de 1980, a partir da desativação da antiga rodoviária da Avenida Duque de Caxias, e ganhou força com a degradação do bairro e o crescimento dos hotéis de alta rotatividade. Aos poucos, ela se espalhou pela região, mas foi a partir dos anos 90 que o local se consolidou como polo de tráfico e uso de drogas com a explosão do crack em São Paulo.

A FAVOR
Em defesa do interesse público
Leonardo Henriques da Silva, advogado e professor da pós-graduação da Rede de Ensino LFG

A região da Cracolândia é um triste exemplo dos males causados pela falta de políticas públicas de saúde, urbanismo e segurança. Usuários e traficantes de drogas como crack e cocaína ocupam a área num cenário de degradação humana que escraviza os dependentes e marginaliza a população local, ofendendo princípios elementares do estado de direito.

Há projetos em andamento para recuperar a região, mas estes não terão resultado caso não se encare o principal problema: o livre comércio e o consumo desenfreado de drogas pesadas. Para tanto se faz necessária a intervenção policial, a qual deve respeitar as garantias constitucionais, em conjunto com ações de saúde e assistência social.

A questão das drogas não se resolve apenas com a atuação das polícias, mas sua relevância em casos como o da Cracolândia não pode ser rejeitada, sob pena de se abandonar o interesse público em favor da criminalidade.

CONTRA
Como enxugar o chão com a torneira aberta
Ariel de Castro Alves, advogado e vice–presidente da Comissão Especial da Criança e do Adolescente da OAB

Eu vejo esse tipo de operação com preocupação porque é como se estivessem enxugando o chão com torneira aberta. Eu não vejo objetividade nem resultados efetivos. Eles estão promovendo limpeza social, mas como não são resolvidas questões de fundo, como tratamento da dependência de drogas, ações sociais e trabalho planejado e integrado de programas públicos para identificar e atuar diante dos focos do problema, além de ações investigativas e de inteligência policial, logo tudo volta como era antes. É mais um lance de marketing e oportunismo, numa tentativa de dar respostas rápidas à população, mas que só transfere o problema para outros locais. Sempre houve esse tipo de operação na região e nunca teve resultados efetivos

A presença do Poder Público, por meio de saúde, assistência social, acesso à Justiça, moradia e também da segurança pública, deve ser permanente e não com ações esporádicas e abusivas. Se a questão é ter presença policial, por que não implantam uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) na Cracolândia?
Fonte:UNIAD – Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas