Lia Cavalcanti luta contra epidemia mundial de crack

Em entrevista exclusiva, a psicossocióloga brasileira fala sobre os desafios na luta contra a dependência química e a associação que ela fundou em Paris há 27 anos.
Por Cristine Pires para Infosurhoy.com — 04/01/2012


Lia Cavalcanti com o prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Elias Gomes, em 21 de novembro. A psicossocióloga brasileira ajuda países na Europa, América Latina, América Central e Oriente Médio a implantar políticas de enfrentamento às drogas. (Cortesia de Marcelo Ferreira/Prefeitura Jaboatão dos Guararapes)

PORTO ALEGRE, Brasil – Mais de 30 anos de trabalho com usuários de drogas fazem da psicossocióloga Lia Cavalcanti, de 62 anos, uma das especialistas mais requisitadas quando o assunto é dependência química.

Nascida no Brasil, Lia vive há 28 anos em Paris, na França, onde fundou a Associação Espoir Goutte d’Or (EGO) – “Esperança Gota de Ouro”, em francês.

Na EGO, 40 profissionais atuam em três centros para dependentes químicos: um Centro de Acolhimento Diurno; um Programa de Redução de Danos, que cria políticas sociais a fim de reduzir os efeitos negativos causados pelo uso de drogas; e um Centro de Tratamento dirigido a usuários de crack em situação de exclusão social e politoxicomanos (dependentes químicos que usam mais de uma substância simultaneamente) .

A EGO é hoje considerada um programa modelo na Europa.

Como consultora da Comissão Europeia em programas de educação, prevenção e redução de danos, Lia vai além das fronteiras francesas para ajudar outros países da Europa a implantar políticas de enfrentamento às drogas. A brasileira também levou seus conhecimentos para países da América Latina, América Central e Oriente Médio.

No Brasil, Lia esteve em novembro, para participar de um seminário de combate ao crack, promovido pela prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco.

Em entrevista exclusiva ao Infosurhoy.com, a psicossocióloga fala da importância de envolver as comunidades no enfrentamento ao crack e outras drogas.

Infosurhoy: A senhora defende que o problema do crack deve se apoiar em quatro alicerces: prevenção, redução de danos, tratamento e repressão. De que forma isso é possível?

Cavalcanti: Toda política pública deve financiar prevenção, redução de danos, tratamento e repressão. De uma forma geral, na maior parte dos países, 90% do orçamento vai apenas para repressão. É preciso destinar recursos também para prevenção, redução de dados e tratamento. Os tratamentos, por exemplo, muita vezes são assumidos por outras fontes que não são o estado, ONGs e igrejas. Isso acontece porque a política pública é desequilibrada. A população precisa se dar conta de que a repressão é necessária, mas que a polícia sozinha, em nenhum lugar do mundo, tem todas as respostas para acabar com o problema das drogas. Basta ver o exemplo bem-sucedido do Rio de Janeiro. Primeiro temos a força policial nas grandes operações de desmantelamento do narcotráfico. Depois o governo chega a essas comunidades com saúde, educação, lazer e cultura. Nem mesmo em países onde o consumo é condenado com pena de morte o problema foi solucionado. Pelo contrário: o problema continua de forma dramática. Os usuários de drogas morrem de Aids, tuberculose associada ao uso de entorpecentes e hepatite. Isso faz com que os orçamentos públicos estourem, pois estamos falando de doenças crônicas que precisam de tratamento durante anos, mas principalmente porque não houve investimento em prevenção e redução de danos.

Infosurhoy: A senhora defende que, antes de enfrentar a dependência, é preciso ter uma visão mais humana e global. Como podemos desenvolver essa percepção?

Cavalcanti: O crack é a mercadoria em seu estado absoluto: barata, acessível a todos e de curta duração. O crack normalmente se desenvolve paralelamente à grande miséria. Isso não significa que as elites não consomem a pedra, mas ela se concentra mais em locais de vulnerabilidade social. Por isso, a questão do crack passa por mais justiça social, melhora do nível educacional da população, assim como mais lazer e cultura. No caso do Brasil, especificamente, é preciso lembrar que camadas da população ascenderam à nova classe média e hoje têm poder de compra. É preciso promover a mesma inclusão em termos de educação. O uso do crack é o prazer aqui e agora, é a encarnação da ideologia do prazer instantâneo. Aí entra a questão social de maneira mais ampla. Enfrentar o crack é o grande desafio de todas as sociedades contemporâneas. Isso requer uma revolução pragmática que precisa enfrentar o desafio da educação. Cada um de nós tem uma responsabilidade. Acredito muito no poder das ideias.

Infosurhoy: Qual é a importância de implantar políticas públicas voltadas para o consumidor do crack?

Cavalcanti: Temos programas muito interessantes que mostram a importância das políticas públicas. Um deles é o Programa Atitude, com as Casas de Atitude, em Pernambuco. (O programa Atitude tem como base ações multidisplinares, que unem saúde, educação e esporte. A iniciativa conta com casas de passagem que funcionam 24 horas por dia e onde são recebidos usuários e familiares). Mas, para que iniciativas como essa se transformem em realidade, é preciso ter mais subsídio, mais equipe, mais casas, mais consultórios de rua. O importante é que a via está aberta. Os programas são pequenos ainda, mas há caminhos muito interessantes. A EGO, que virou referência na Europa, atende mais de 5.000 pessoas por ano em três centros focados no tratamento do crack. Nossa equipe conta com psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e muitos outros profissionais necessários para a abordagem interdisciplinar. É uma experiência positiva, pois trata-se de uma ONG com financiamento público. A EGO acabou se transformando em uma estrutura médico-social, como se fosse um ambulatório médico, e tem a garantia da perenidade.

Infosurhoy: Como começou seu envolvimento com dependentes químicos?

Cavalcanti: Trabalhei por 10 anos no Brasil com meninos e meninas de rua. Acabei deixando o trabalho por receber ameças de morte. Com aquele trabalho, descobri que muitas coisas, para serem enfrentadas, passam pela questão da educação popular. Cheguei a Paris há 28 anos e fiz meu doutorado em Sociologia. Tive a ideia de montar a associação, que começou a funcionar há 27 anos. Hoje a EGO é considerada um programa modelo, porque tem a participação da comunidade, de usuários, técnicos e políticos. É a população local que sustenta o projeto. Essa é uma peça-chave: se não houver adesão da população, os programas de drogas vão viver situação de conflito. Na EGO, as pessoas recebem comida, leem jornais. A primeira estratégia é não exigir nada e apenas responder às necessidades das pessoas, que chegam em condições físicas deploráveis. Só depois que ganhamos a confiança dos usuários é que temos legitimidade para propor o tratamento, que jamais terá sucesso se for feito sem adesão.

Infosurhoy: Qual a medida mais urgente para lidar com a epidemia de crack?

Cavalcanti: A mobilização das comunidades é fundamental. Também precisamos de mais redução de danos, mais tratamento, mais consultórios de rua. As políticas públicas precisam contar com casas de atendimento mais amplas, equipes nas ruas para atender os usuários e também suas famílias, que ficam desamparadas. É preciso muito debate público e a democracia tem que integrar essas temáticas, que não são vencidas por decretos governamentais. Também temos que pensar na necessidade de reinserção dessas pessoas na sociedade com programas específicos. É uma batalha grande em diversas frentes.

Infosurhoy: De que forma é possível prevenir o uso de crack?

Cavalcanti: A prevenção não consiste em falar sobre drogas. Como todos os estudos demonstram, antes de tudo, a prevenção passa pelo reforço da autoestima de comunidades, grupos sociais e pessoas. Tudo o que funciona e tem efeito preventivo inclui a valorização das comunidades. Os jovens começam a assumir outros lugares sociais quando são reconhecidos, e não cedem ao tráfico. A prevenção não é nada mais do que empoderar comunidades e pessoas, oferecendo lugares sociais dignos.
Fonte:Infosurhoy.com